Que absurdo véi!

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Me interessa muito o estudo da intersecção entre Literatura e Filosofia. Pegar um texto daqui, outro dali, e explorar as relações certas entre seus abismos. Porque não é que tenha ou não relação uma área com a outra – o há indiscutivelmente – mas sim que, em determinados encontros particulares, esta relação pode ser de uma correspondência conceitual tão profícua a ponto de passar a impressão de ter havido uma gestação compartilhada. Existem obras, assim, geradas como gêmeos bivitelinos (ou tri ou quadri). Me parece ser o caso de Kafka e Camus.

O líquido que os une é o absurdo. Aí se encontra o ponto de convergência entre eles, o fundo para onde retornam eternamente. Cabendo a nós investigar as diferenças entre os semelhantes para compreender sua relação, devemos primeiramente nos atentar aos contornos particulares de cada manifestação deste mesmo conceito. Queremos aqui apreciar o contato entre dois mundos. Comecemos com Kafka. A partir de sua obra literária, pode-se perceber o Absurdo como sendo uma certa labirintite. Uma labirintite, digamos assim, “psicojuridicossomática”: pegue como exemplo o momento em que K. se encontra na secretaria do tribunal, naquele bairro periférico tão desconjuntado da pompa clássica do direito, contradizendo seu elitismo incipiente; aquela hora em que, dentro do bafo insuportável da água-furtada que abriga os corredores dos escritórios do tribunal, K. desmaia. Por que ele desmaiou? Concretamente, por causa do calor abafado; simbolicamente, por causa do absurdo labiríntico dos caminhos do direito, da Lei, do mundo dos homens. Este absurdo, materializado no peso do ambiente descrito, conceitualmente significa um descolamento entre o homem e sua vida – o que questiona seu sentido. É através daquele estalo pelo qual percebemos que não há razão em acordar às sete da manhã que não seja arbitrária e, sobretudo, humana, que o absurdo se descortina, dissolvendo qualquer sentido absoluto. K. percebeu, quando se enjoou, que não só não há sentido em acordar às sete da manhã, como há menos sentido ainda em acordar às sete da manhã para se enfurnar no escritório de um tribunal localizado onde judas perdeu as botas, no sótão de um prédio residencial habitado. K. percebeu o absurdo.

Aqui entra Camus. Veja: para este, o absurdo se resume a um “divórcio entre o ator e seu cenário”(1). E este divórcio interessa sobretudo por causa das consequências que pode gerar. Não interessa descrever-lhe o tempo nem o processo de instauração na realidade, mas sim se aperceber de tudo o que ele gera. Um divórcio, uma separação negociada na economia do afeto. É através do afeto, da afecção mesmo, que se percebe o absurdo. Camus identifica o rasgo do véu como sendo qualquer momentinho pequeno de banalidade. Se pode perceber o absurdo ao ver um carro virando a esquina, uma moça espirrando de casaco vermelho, um gato pulando da pia para o chão do banheiro, um café quente e no entanto sem fumaça, o reiniciar da rotina. Por que acordar todos os dias às sete da manhã? Rapidamente, então, notamos que a pergunta se transforma em afirmação, dada a ausência de fundo para delimitar-se com definição: “acordar todos os dias às sete da manhã, acordar todos os dias às sete da manhã…”. Quer dizer, o absurdo não está exatamente nesta repetição sisífica – esta seria a opção esperançosa ao seu desamparo, pelo contrário – mas é aquilo que lhe tira o sentido. O absurdo é a ausência de fundo. Trata-se de um vazio.

Ora, Kafka não chega a dar esta formulação conceitual ao Absurdo. O Absurdo é algo que ele descreve. Em O Processo, seu romance inacabado onde se passa a cena em que K. enjoa, o Absurdo se desenha sobretudo pelo labirinto jurídico onde um processo se aloja; em A Metamorfose, o Absurdo se desenha especificamente pela dinâmica familiar exploratória, a partir de quando Gregor Samsa percebe que perdeu o sentido de sua vida e foi tornado barata, inseto pros outros pisarem; em Na Colônia Penal, o Absurdo se desenha pela violência punitiva da esfera criminal do direito, colorida ainda com uma cor de campo de concentração (pré-nazista). Em suma, é como se Kafka trabalhasse em suas obras exemplos concretos da conceituação elaborada por Camus – não propositalmente, no entanto. Ou pode ser, para evitar o anacronismo, como se Kafka lapidasse numa pedra bruta uma obra que diz “absurdo!”, e nela Camus se encostasse para generalizar ao mundo sua exclamação estética: “absurdismo…”.

É bem sabido da influência Kafkiana sobre Camus. No entanto, para além de reduzir a importância desta relação à investigação de um contato filosófico entre ambos os autores, se faz de suma importância aperceber-se de um espírito, geral, que paira sobre o tempo e que dá guarida às suas ideias todas. E, seguindo o conselho do franco-argelino, quem sabe não seja de maior importância ainda pensar no esticamento dessas ideias para lá da linha do presente, não só para cá. Em resumo: cadê o sem-fundo de nosso tempo? Por que acordar todos os dias às sete da manhã?

Whisky Ballantines

Em Whisky Ballantines, explora-se a memória, a doçura de uma família, e a dureza da realidade. Texto literário com teor filosófico, o conto busca, através da reflexão sobre vivências diárias, expandir o alcance indagador da crônica, alçando-a a uma categoria que não só pinta a vida cotidiana da banalidade da(s) cidade(s), mas que pode também fazer emergir das profundezas de alguém suas mais variadas e coloridas considerações acerca das cidades, dos quartos, das pessoas, do mundo imediato que o cerca. Indicado para quem se interessar por ensaios e demais tipos de produção em que o livre exercitar do pensamento e da imaginação seja o principal desígnio.

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Burakos 6-12-19

Todos dançam sob o sub grave da noite. Os corpos não param. As línguas se entrelaçam, os corpos se encontram, as vozes se fundem – assim seguem madrugada adentro. Na cidade onde não há estrelas, o único brilho noturno que se encontra é o olhar do outro, tão perdido e profundo… Proteja-o! Queira-o! O consuma, e morda, e coma-o. Quando puderes sentir o fogo inextinguível do laço humano, então amarás mais ainda o teu irmão, e o revestirá de respeito incondicional. Só aí haverá real alteridade. Cada pessoa com sua pessoa, em liberdade fraterna – eis o respeito moral máximo.

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Não sou dançarino, mas depois de uma conversa que tive com um amigo meu enquanto dançávamos, passei a pensar no que poderia a ser a coisa da dança. Ele me disse basicamente que a dança é uma ressignificação do espaço, que é um modo hipnotizante de movimentar o corpo, que é algo incontrolável. Eu ponderei: “dançar é bom! É algo possível mesmo quando não gostamos da música. Eu por exemplo não gosto muito dessa que tá tocando, mas mesmo assim movimento meu corpo quando a ouço”.

E aí: é questão de gostar do que se ouve ou é questão de deixar os ouvidos absorverem as nuances sem preconceitos?

Resposta: os dois misturados, um por causa do outro, e o outro por causa daquele!

O Brasil escreveu um episódio de Black Mirror

A sordidez da realidade às vezes pode ser pior que o macabro da ficção mais refinada. De vez em quando me pergunto, atônito: “como escrever ficção quando a trama real é mais bombástica que a inventividade dos autores mais perspicazes?”. A situação do escritor seria cômica se não apontasse para uma tragédia.

É impossível que você não saiba, a essa altura do campeonato, do vazamento das conversas entre Sérgio Moro e Deltan Dallagnol. O conteúdo revelado não é nada menos que cataclísmico. O mesmo juiz que deveria julgar imparcialmente o réu, Lula, com base nas provas e argumentos tanto da defesa quanto da acusação, colaborou explicitamente para condená-lo. E não é questão de ser petista ou não: está escrita a intenção de impedir a volta do PT ao poder nas eleições presidenciais de 2018. O que, por consequência, faz outra coisa deixar de ser “teoria da conspiração petista”: o argumento de que Lula é um preso político. Esse argumento ganhou validade, e o jogo foi virado do avesso.

O CASO WALLACE

Não posso deixar de traçar um paralelo com uma série documental que assisti na Netflix recentemente, que fala sobre algo que até então eu não havia tido conhecimento. O seriado chama-se Bandidos na TV, e trata sobre o Caso Wallace. Resumidamente, é o caso de um Deputado Estadual amazonense, Wallace Souza, que foi acusado de mandar matar traficantes para filmar-lhes a morte em primeira mão – e sem qualquer censura – a fim de gerar audiência para o programa de TV Canal Livre, que ele apresentava. Mas, não bastasse isso, as investigações da Polícia Federal concluíram que a trama é ainda mais perturbadora: segundo as provas e relatos colhidos, geralmente quem executava os alvos era o próprio filho do deputado, Raphael, e a geração de audiência era apenas uma das finalidades das execuções, já que estas também tinham como escopo eliminar concorrentes no tráfico de drogas – pois Wallace, ao mesmo tempo em que era deputado e apresentador de televisão, seria também um poderoso chefe do tráfico. No final da história, a imensa maioria das testemunhas foi assassinada, Wallace teve o mandato cassado, foi preso, e morreu de problemas de saúde; seu filho, Raphael, também foi preso. Mas mesmo com tudo isso, a opinião popular acerca da culpa de Wallace – que negou tudo – não é unânime, e a possibilidade de descortinar integralmente a verdade foi enterrada juntamente com todas as vítimas geradas pelo processo investigatório.

Me pergunto: como a produção ficcional deve continuar diante de uma realidade que parece ficção? O “Caso Moro”, e principalmente o Caso Wallace, trazem este questionamento. Certamente não é papel da ficção “competir” com os acontecimentos da realidade, como se ela tivesse de superá-los. Isso implicaria numa limitação da obra ficcional e a colocaria num âmbito incoerente e desleal. Não se compete com a realidade. Ficção e realidade não estão em pés de igualdade, não participam da existência da mesma maneira. Não moram na mesma casa – mas se visitam com recorrência. Ficção, quando visita Realidade, volta para casa com inspiração; Realidade, quando visita Ficção, volta para casa com premonição. Diante da realidade grotesca do Caso Wallace, por exemplo, a ficção se sente primeiramente impressionada, depois envergonhada, e depois diligente: se impressiona com o caráter perturbador da trama, se envergonha de querer extrair de tal perturbação uma inspiração, e se torna diligente na pesquisa do assunto e na reflexão acerca da direção a que apontará a obra em que se concretizará. Mas o Caso Wallace já é passado – aconteceu entre 2008 e 2010. A grande questão é como se comporta a ficção quando se dispõe a formar-se à partir de uma realidade que ainda está acontecendo. Que tipo de reflexão poderia nos render acerca da ficção, então, uma apreciação do Caso Moro?

BLACK MIRROR

Para seguir adiante com tal questão, é interessante que a tomemos em conjunto do conceito de um outro seriado da Netflix, o Black Mirror. A série é constituída de um conjunto de episódios não sequenciais em que a tecnologia (e todas as suas promessas de avanço dentro de um futuro próximo) causa, participa ou é meio para situações de desespero, tragédia ou inflexão social. Trata-se de uma ficção que nos dá o vislumbre de um horror futuro que não se concretizou ainda (máxima atenção para este ainda). Em Black Mirror, a distopia é uma questão de tempo. Ou melhor, de progresso.

Pensemos o Caso Moro. Ele ainda não terminou, à época da escritura deste texto, e seu epicentro se dá numa conversa de aplicativo – uma tecnologia atual, mas ao mesmo tempo futura, inauguradora de possibilidades distópicas diversas das do simples telefone. Estamos falando aqui de uma conversa de aplicativo que pode mudar seriamente o rumo de um país que se encontra numa crise profunda, cujo presidente, um agente disfarçado de incompetente, foi eleito com base na disseminação em massa de fake news e na manipulação da opinião pública através das “opiniões” de robôs que realizavam comentários favoráveis à sua campanha – ambos desaguaram no mesmo lugar: a tela do celular. O chat do smartphone não só está sendo palco do cataclisma Moro, como também foi grande parte da razão da eleição de um presidente embusteiro.

Levemos em conta também que esse mesmo presidente tem um filho investigado por lavagem de dinheiro, e este mesmo filho possui ligação com milicianos, a ponto de empregá-los em diversas funções, homenageá-los publicamente, e até favorecê-los politicamente (um parênteses para dizer que Wallace também era envolvido com milicianos). Acrescentemos a tais informações que o principal suspeito do assassinato de Marielle Franco é miliciano e tem residência no mesmo condomínio luxuoso do presidente. Perguntemos: não parece ser possível uma relação entre a família do presidente e o assassinato de Marielle? Tal hipótese não seria corroborada pelo afastamento do investigador que descobriu a identidade do assassino? E quanto à ligação entre Moro e Bolsonaro, na ocasião da “premiação” que este concedeu àquele quando lhe deu o cargo de Ministro da Justiça, já que sem a prisão de Lula as eleições certamente teriam tido outro resultado? Nos espantemos: haveria alguém que pudesse saber mais detalhes do conluio entre o Ministério Público e Sérgio Moro que não tivesse um sobrenome que comece com “B” e termine com “olsonaro”?

Mas quem sabe os maiores produtores brasileiros de ficção hoje não sejam *aham* Olavo de Carvalho e seus servos? Afinal, segundo eles “esquerda” é o nome superficial de uma rede oculta de comunistas cuja agenda pretende implantar o “marxismo cultural”; os professores das universidades trabalham para este grupo com a finalidade de doutrinar com ideias comunistas as cabeças de seus alunos; o aquecimento global é uma mentira porque na verdade o que aconteceu foi que as regiões onde se encontram os termômetros ao redor do mundo ficaram mais quentes, e as medições passaram a apontar temperaturas mais altas; a Pepsi-Cola usa células de fetos abortados como adoçante (essa é clássica demais); o Brasil é a última salvação, no mundo inteiro, contra o terror comunista em acensão. Ficção burra, de péssima qualidade, e que não tem compromisso nem com o futuro, nem com o presente e nem com o passado. Ficção que compete com a realidade não é ficção, é mentira.

É um horror distópico imaginar que o rumo de um país foi ditado em grande parte a partir da tela de um celular. O Brasil escreveu um episódio de Black Mirror.


Íntimo de gato

Me parece que a maior intimidade que se pode ter com um gato é vê-lo vomitar. Trata-se de um momento longo, de uma hora vulnerável. Quando vomita, ele tem de abaixar a guarda, e aguardar. Aguardar, em espasmos crescentes, a saída do material indesejado.

Não há defesa nem garras: só humilhação própria.

Ele dá umas tossidinhas de criança no final de cada ciclo de seu movimento, e não há nada que você possa fazer para acudi-lo. Vomitar é um ato de independência. Quem vomita demonstra autonomia sobre seu enjoo, como quem diz que o controle não está perdido. Ver um gato vomitando é participar da autonomia dele: só você ali; você e ele sozinhos num chão pela casa, ansiosos pelo parto de uma náusea.

Meu pé de manjericão


A vida me mandou uma muda de manjericão e me mandou plantar. Assim o fiz. De um jeito muito débil, mas o fiz. De início, tudo normal. Não diria que estava feliz, mas estava verde. Suas folhinhas estavam vivas de um jeito comum. Diariamente eu as examinava: cheirando, sentia molho de tomate; tocando, sentia pulsar a seiva; com os olhos, via brotinhos minúsculos nascendo salpicados. O grande problema é que tenho medo de regar. É mais fácil umedecer demais a secar demais. As regas deixo para as mãos sem medo de minha mulher. O que acho impressionante nela é a liberdade de morar entre o zero e o um. Se a planta morre, as mulheres a revivem, e se qualquer coisa de errado acontece, elas encontram melhor que qualquer homem o ponto médio invisível entre um final e outro, e estabelecem a ponte que salva, mesmo que custe suor e sangue. Não há possibilidade que se esconda do secreto feminino.

Temos um Lírio da Paz no apartamento, a que chamamos Lório. Há um tempo ele estava praticamente morto, mais murcho que um pano. Não há salvação – o homem cessa na condenação. Não há salvação porque é necessário que não haja. O masculino é míope. O feminino é fantasmagórico. Ela enxergou, no caso de Lório, o meio termo ignorado: “vamos cortá-lo bem curtinho”. Cortá-lo! Ela e sua tia o cortaram então até o último caule fraco. A raiz estava boa. Eu não sabia que plantas são divididas em partes e que cada uma tem seu papel na suculência de suas vidas. Hoje Lório cresce como cabelo.

Estão belas e felizes todas as plantas que ela cuida. Das que temos, nove são dela. Uma só é minha: Cão, o Manjericão – que está morrendo. Está dada a sentença. O que me resta é observar seu devoro pelos mosquitinhos de fungo. Cada instante de sofrimento de Cão é um acúmulo a mais de dor em mim. Queria usar suas folhinhas para tantas macarronadas mais… – Mas tenho medo de regar. Não entendo de raízes. Não cuido. Deixo à própria sorte. Minha planta morre.

Será por causa da plantinha peluda que está nascendo no canto do vaso? Será que suas raízes pestilentas guerreiam com as de Cão? Seu pêlo parece pêlo de mariposa, que parece uma doença que voa. Que tem essa plantinha peluda? Quanto mais ela cresce, mais bichos eclodem da terra. Se estivesse podre não chocava ovos de insetos. O que tem no vaso é vida apodrecendo vida. Há chagas negras na minha planta. Suas folhas caem sozinhas, e as que ainda estão firmes se contorcem para dentro na tentativa de ignorar o que virá. Os brotinhos se recolheram. As portas do nascimento estão se fechando.

Quanto mais morre o manjericão, mais cresce a pequena planta fúngica. E este é o único vaso que é meu.

Vida Prímeva

Vida Prímeva significa: mato.

É donde vêm os bichos;
É onde se escondem suas trilhas;
É onde ocorre a caça;
É de onde sai planta.

Onde não chega ninguém proclamando "sou rei!"

Pois, se assim o fizer,
Os bichos o comem,
As trilhas lhe fogem,
A caça lhe caça,
A planta o prende.

A terra o enterra.

Só de tempos em tempos consigo ter um contato, bem sucinto, com esse tipo de vida.

Pois o que é que tenho na maioria dos dias? Uns botões para apertar, um limite de quatro paredes, uma geladeira bem feita, um conforto sólido, um sono saudável, uma agenda.

A Vida Prímeva é aquela que não possui explicação apropriada que não leve em conta tão somente a geologia antiga das estações do ano. É uma vivência dominada de corpo e alma pelo funcionamento vegetativo da vida da crosta. É uma vida que não se comunica, anterior ao primeiro animal falante. Frente a ela, somos simples: protuberâncias numa superfície lisa.

Vejo agora um filhote de peixe cascudo: ele nada.

E vive. E vive. E vive, e vive, e vive. Ele vive! Compreendem? Ele vive a Vida. Crescerá e será comido. Não terá vizinho, nem rua nem endereço, só mar e algas – e outros peixes, que assim como ele, moram nos arredores florestais do chão.

Não faço nada

O Brasil não é mais um país tropical. O Brasil vem sendo tão somente um país dos trópicos. O verão ainda brilha como lantejoulas em nossas águas, sim – mas não chega nem perto do brilho vívido de alguns anos atrás. O brilho de um povo acolhido. A radiância de um povo que, aquecido como uma gema, não precisa pedir por nada, sua vida placidamente brotando de sua própria essência, protegida, salvaguardada para o futuro. As coisas não eram exatamente como queríamos, nunca foram, mas a esperança seguia nutrida.

Participamos deste Brasil. Que fizemos por ele?

O destruímos. O odiamos. Não fizemos muito por ele. Mas fizemos muito com ele. Fizemos por ele o que faríamos por nós mesmos – berramos. Fizemos com ele o que faríamos com um prédio que cansa o horizonte – implodimos.

Eu mesmo não fiz nada. De dentro da minha casa não consigo fazer nada. Não sou universitário, não tenho lugar de fala, só tenho um gato e meia dúzia de palavras que digo no interior de mim mesmo. Não fiz muito. Votei certo só. Mas isso não basta. Nunca nada basta quando de nós temos que tirar, diariamente, milhões e milhões de pessoas de dentro de nós. Parece até que não fiz nada. Fiquei olhando tentanto entender – e ao fazê-lo não podia, não entendia nada. Passou o tempo e o jacaré pegou todo mundo. Mas que podia fazer eu, de dentro de minha casa isolada, com meu gato isolado? Não podia fazer nada.

Mas algum dia comecei a fazer alguma coisa? Um homem branco, culpado como todo homem branco; um gato siamês, sem culpa nenhuma – podem por um acaso fazer alguma coisa além de nada? Fazer qualquer coisa pelo povo? Uma coisinha só? Nem que seja num futuro bem distante? Acho difícil.

Não sei. Estou confortável como uma tartaruga. Por isso é que sou culpado: pelo meu espírito de tartaruga.

Não há emprego. As crianças perderão seus livros para seus pais ganharem armas. Índio é obstáculo. Árvore é dinheiro. YouTube é propaganda do governo. Twitter é propaganda do governo. Facebook é campo de concentração de ódio. Me formei professor com medo de dar aula. Quem liga? Sou branco e não fiz nada. Fiquei em cima de minha brancura e me tornei apático.

Queria ter o peito aberto e uma realidade diferente, em que eu fosse diferente, e pudesse falar coisas diferentes, coisas que fizessem tornar o caldo, que pudessem dar qualquer coisa para o mundo em troca daquilo que o mundo me dá todo dia. Mas não levo jeito pra isso. Minha vida não dá jeito nisso. Estou aqui falando de mim enquanto o melhor é falar do país. Mas quem mora nesse país sou eu – e eu, não faço nada. Como fazê-lo?

Indignar-se é fazer alguma coisa? Certo que não. Indignar-se é tornar-se, e não fazer-se. É tornar-se alguém movimentado no interior por fatos exteriores, e movimentado como um mar que só não vira o navio porque ele foi feito pra boiar e porque o este mar é um mar fraco. Sou o mar e sou o navio – quero virar o navio do governo, mas é o governo que tenta virar o navio que sou eu. Governo de ácaros. São minúsculos mas fazem espirrar.

Sinto-me impotente. É por causa de mim que estou impotente. Normal. Eu nunca soube achar caminhos de potência, sou míope. Os caminhos que acho são por acaso, à despeito de minhas mais sinceras tentativas de discernir a paisagem. Não sei criticar, não sei debater – me canso, fico triste, acontece um turbulência dentro de mim que não conheço e de que tenho medo. Ela me domina e eu fico confuso. Daí não consigo falar com ninguém e ninguém consegue falar comigo. Eu só odeio. Odiar é fazer alguma coisa? É sim. Mas odiar é odiar, e não gera nada diferente.

Mas não sou culpado de nada disso. Sou culpado mesmo é por ser branco e não passar fome. Sou culpado por não estar no lugar de nenhuma minoria pra sofrer e sentir na pele o que esse governo de ácaros faz com o povo, porque só assim é que se acorda, quando o governo dá oitenta tiros no carro do seu marido, e o mata. Nosso Presidente diz que não há racismo no Brasil, e que já encheu o saco esse papo que coloca brancos contra negros – mas não são essas as palavras do fuzil. Uma palavra certeira do fuzil é uma vida que se tira. Ainda mais oitenta. Um fuzil preto atirando num homem preto. Realmente não há racismo no Brasil. É que nosso Presidente fala a língua das armas.

Nosso Presidente fala a língua das metralhadoras. “Ratatatatatatá!” ouço ele falar na live de quinta. Meu ouvido dói de tanto não fazer nada. Não faço nada, e me dôo inteiro.

Queria ser meu gato, mas sou uma tartagura.

Sobre “O Velho e o Mar”

Fiquei impressionado com “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway. É bem verdade que esse texto tem teor de clássico. É muito verdade que esse texto possui uma riqueza abundante e diversa. Seja pela capacidade do autor de nos imergir na realidade ali representada através das narrações minuciosas da atividade da pescaria e a verossimilhança da situação toda – nada parece fora do lugar, tudo trançado de modo firme e oportuno. Ou que seja pela argúcia da escritura da voz interior do personagem que, pela falta de interlocutor possível, se torna dupla de um diálogo consigo mesmo – sozinho, ele fala consigo para dentro e para fora, fala com seu corpo, suas mãos, sua força vital. Tal auto-relação do velho, contudo, aponta não para qualquer ditame de auto-conhecimento, mas para a necessidade de uma aliança forte com aquilo que, de nós, sempre sentimos: nosso vigor próprio, o tônus mais insípido, que de vez em quando adormece…

Seja por isso ou por aquilo, ou ainda por aquilo mais, o texto impressiona. Uma lista séria de suas qualidades seria muito oportuna numa análise da obra. No entanto, furto-me de tal empreendimento. Prefiro descolar-me de tal pretensão. Prefiro investigar minhas simpatias com o texto. Vou direto para a seguinte pergunta: por que o velho matou o peixe? Qual sua motivação para matá-lo (sim, matá-lo, e não pescá-lo)? Eis um trecho interessante para pensar o assunto, em que o velho fala consigo mesmo: “Você não matou o peixe apenas para conservar-se vivo e o vender para alimento, […] matou-o por orgulho e porque é um pescador”. E mais este, que aparece posteriormente: “Amava o peixe quando estava vivo, afinal ainda o ama morto. Se o ama, com certeza que não foi pecado matá-lo.” Que dizer? Que o velho não mataria o peixe pelo ganho fica claro a partir do desenvolvimento da trama. Mesmo sendo pobre, não aspira a montantes desnecessários de dinheiro. Nosso velho é aquele tipo de velho cuja sabedoria transborda o sansara do dia-a-dia para derramar-se no íntimo da vida, à qual ele está sempre humildemente respondendo. Sua motivação também não parece estar na prática de seu ofício. Antes de motivá-lo, este no máximo justifica o que faz. Também não parece vir da necessidade de alimentar-se. Ele nem sente fome direito. Ele próprio demonstra que come por obrigação, já que sabe lhe faltarão forças caso não o faça.

Não matou por razões mercantis, tampouco pela urgência das necessidades biológicas. Resta o tal do orgulho. Mas o que seria “orgulho”, no caso do velho? Porque também não me parece homem orgulhoso no sentido que compreendo a expressão. Se fosse orgulhoso não seria tão afinado com o menino e não aceitaria que lhe ajudasse levando-lhe o café da manhã. Homens orgulhosos não se deixam tocar senão por suas próprias mãos. Mas o velho é paradoxal, é um personagem deveras humano. Mas há, por outro lado, orgulho no desejo de levar à cabo a própria vida, caso necessário, na batalha contra o peixe. Talvez o orgulho do velho seja um orgulho que eu desconheça, um muito belo orgulho de pescador. De uma forma de outra, o orgulho tem algo de altivo, dá impressões de grandiosidade a quem lhe possui. Também há grandiosidade nesta passagem: “mas matei este peixe que era meu irmão”. Irmão de luta. De força equivalente. Um páreo. Talvez o velho tenha visto na luta contra (ou com?) o peixe a chance de seguir até o fim – até o fim do dever, até o fim do ofício, o fim da potência de ambos, da luta, e da vida. Matou o peixe para não morrer antes dele.

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Ernest Hemingway no hospital, após ter sofrido um acidente de carro, em 1944.

E o brilho da coisa é que Hemingway fez questão de deixar tudo muito crível. Nada é fantástico. Tudo é verossímil, e ainda sereno. Contribui para isso com certeza sua escrita de jornalista. Pensemos. O velho, por ter conseguido matar um peixe colossal desses, tinha de ser muito forte. Mas donde vem tal força? Não parece afinal ser muito forçado pôr toda essa força no corpo de um velhinho enrugado? Bem, talvez – mas não no caso de nosso autor. Não no caso dessa história. Ernest justifica tal aspecto do personagem ao inserir um flashback na narrativa onde pinta um retrato seu na mocidade, enquanto duelava uma queda de braço que viria a durar dois dias com um homem muito forte e bem maior que ele. E, para além de pôr no velho um vigor que lhe habita desde seus tempos de moço, a relação entre a luta ocorrida no passado e a luta do momento presente, contra (ou com?) o peixe, nos leva a considerar outro aspecto: o de que a força talvez seja não só questão de ímpeto mas de perseverança. – E tal relação pode nos levar mais adiante ainda. Porque talvez não seja este pareamento formal entre passado e presente, ou ainda a verossimilhança de um aspecto da história derivada do passado do personagem, os únicos aspectos interessantes a se notar na narrativa. O que acontece é que, para além de uma semelhança formal, há uma diferença substancial: o velho é uma coisa, e o “Santiago El Campeon” é outra. E tal diferença nasce, sobretudo, com a passagem do tempo.

Esse texto tem em si bastante dessa coisa da passagem do tempo e da saudade do passado. Saudade que não possui sua base na superioridade do passado em relação ao presente (isso, na verdade, chama-se “saudosismo”), mas simplesmente por não existir mais o passado senão enquanto memória querida. Há diálogos constantes, num segundo plano, entre personagens que se encontram em diferentes instâncias temporais e tempos vitais. Vejamos por exemplo a relação do menino com o velho. O menino é aquilo em que o velho desejaria depositar sua continuidade, ao mesmo tempo em que é a juventude cuja agilidade torna tudo mais aprazível. O menino talvez seja, ainda, em seu futuro, o Santiago El Campeon, da queda de braço. Estes três personagens se comunicam no idioma da saudade; um aponta na direção do outro, querendo um ao outro, atraindo-se uns para os outros, de modo que habitam-se mutuamente. Mas possuiria o menino um peixe? Faria ele parte de um duelo? Liga-se ele a alguma coisa maior que si próprio, e que por ele será continuada, ou vencida, não por um golpe único, mas por uma luta extensa contra (ou com)? Há algo dessa natureza para o menino? Receio que sim: o “peixe” do menino é o próprio velho. Um dia os dois estarão ligados vitalmente. O velho, azarado e sozinho, continuará no menino, depois da batalha lenta entre a velhice (o fim) e a meninice (o começo), que simboliza a fricção da vida. Vida que segue plácida. Pois a vida é assim mesmo.