Whisky Ballantines

Em Whisky Ballantines, explora-se a memória, a doçura de uma família, e a dureza da realidade. Texto literário com teor filosófico, o conto busca, através da reflexão sobre vivências diárias, expandir o alcance indagador da crônica, alçando-a a uma categoria que não só pinta a vida cotidiana da banalidade da(s) cidade(s), mas que pode também fazer emergir das profundezas de alguém suas mais variadas e coloridas considerações acerca das cidades, dos quartos, das pessoas, do mundo imediato que o cerca. Indicado para quem se interessar por ensaios e demais tipos de produção em que o livre exercitar do pensamento e da imaginação seja o principal desígnio.

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Burakos 6-12-19

Todos dançam sob o sub grave da noite. Os corpos não param. As línguas se entrelaçam, os corpos se encontram, as vozes se fundem – assim seguem madrugada adentro. Na cidade onde não há estrelas, o único brilho noturno que se encontra é o olhar do outro, tão perdido e profundo… Proteja-o! Queira-o! O consuma, e morda, e coma-o. Quando puderes sentir o fogo inextinguível do laço humano, então amarás mais ainda o teu irmão, e o revestirá de respeito incondicional. Só aí haverá real alteridade. Cada pessoa com sua pessoa, em liberdade fraterna – eis o respeito moral máximo.

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Não sou dançarino, mas depois de uma conversa que tive com um amigo meu enquanto dançávamos, passei a pensar no que poderia a ser a coisa da dança. Ele me disse basicamente que a dança é uma ressignificação do espaço, que é um modo hipnotizante de movimentar o corpo, que é algo incontrolável. Eu ponderei: “dançar é bom! É algo possível mesmo quando não gostamos da música. Eu por exemplo não gosto muito dessa que tá tocando, mas mesmo assim movimento meu corpo quando a ouço”.

E aí: é questão de gostar do que se ouve ou é questão de deixar os ouvidos absorverem as nuances sem preconceitos?

Resposta: os dois misturados, um por causa do outro, e o outro por causa daquele!

Deixei algo cair do bolso enquanto andava na rua

Aconteceu assim, sem que eu notasse. Andava a mirar os prédios contra o céu nublado da praia, e ia pensando numas coisas. Quando de repente descobri. A partir de um clique compreendi tudo.

Compreendi porque estava vivo e qual deveria ser o imperativo moral eterno e a referência ética mais perfeita; comecei a fazer planos prenhos de uma vida toda, imaginando minha velhice contra minha reencarnação e mais a morte e nascimento de todos; pude apreender finalmente a substância do laço humano e constatar sua beleza luminosa e intransponível, inspiradora de bem-querença infinita; dissequei as virtudes do tempo e espaço e senti-me esticar matéria adentro, numa viagem fantástica por mil abismos e estrelas; passeei pelos topos das pirâmides e acima delas vi a grande imensidão das eras – quando, parado no píncaro de Miquerinos, fitei o fundo do horizonte chamuscado e estremeci diante da mais grave e última constatação: tudo acabava num grande sol laranja, para seu centro indo as areias, os céus, e todos os pássaros do mundo, a fim de fazer a última viagem da vida.

Foi quando passou um ônibus e me distraiu. Outro clique. Algo caía de meu bolso. Olhei ao redor, confuso, tentei procurar, mas não achei nada. Jamais voltei a encontrar o que de mim caiu naquela tarde.

Ponta da Praia demolida

Já era noite. O chão esburacara-se. Os pés só não sofriam muito porque eram espertos e achavam seu caminho pelos espaços onde pudessem caber sem desencaixe. Nenhum carro na rua. Um silêncio dominado pelo registro da força da maré. Parece que em momentos como este os caminhos dão lugar a crateras, e todo tipo de linha some num borrão caótico – perdida a retilineidade dos caminhos certos, nos vemos numa situação de apreciadores de obras de museu: passamos a nos mover à esmo, coletando escombros que contam histórias.

Os pedaços da mureta jaziam explodidos ao longo da via. Aquilo podia muito bem ter sido produto de uma bomba, atirada num novo episódio de uma batalha antiga entre os corsários do século XVIII e os eternos canhões do Forte Augusto: pessoas gritando, pombos voando assustados, peixes atordoados boiando na fina película do mar portuário; no céu uma fumaça preta e o sol vivo, deixando mais brilhante a água que inunda o asfalto. Mas não teve bomba nem batalha nem nada disso. O que houve mesmo foi o soco de uma onda.

Atirava pedras naquele mar negro, cujas ondas pareciam um só e escorregadio monstro. Pude vê-las afetando-o quando caíam em suas costas: ínfimo; ínfimo é o braço humano contra o corpo agigantado de Netuno. Ao longe ele se reerguia no intuito de salgar mais e mais a cidade, e eu podia ver em sua crista as faces zangadas de milhares de animais. A esta hora já estava contido o grande bicho, e a Ponta da Praia respirava sossegada. Aliviei-me de um modo abestalhado, e amparado pela distância de segurança que me dava o olho, peguei outra pedra para tacar. Mas logo cedi. Subitamente me dei conta de que, mais uma vez, para nossa sorte havíamos escapado. Congelei. Permaneci com a pedra morta na mão, procurando qualquer coisa de explicável no negrume que queria engolir a todos nós.

Foto por: Andrea Veloso

Frederico e as árvores

Frederico, há quase um mês nesse mundo, tateia sem descanso o vazio que o rodeia. O vi na praia com seu pai: “olha a árvore, filho!”. Seus bracinhos abrindo e fechando, os olhinhos tentando compreender como girar, os ouvidos no esforço de abertura para essa coisa nova e imaterial que é o som seco de uma palavra. 

O pai de Frederico não mostrou a árvore a ele porque funciona, mas porque o ama, e quer que ele ame em resposta – ame as árvores, o mundo, a vida. Certamente se lembrará quando for mais velho, durante um sonho irreconhecível, do mandamento gravado à voz de pedra no fundo de sua memória: “olha a árvore, filho!” – olhando então para cada uma como se fosse a última de novo e de novo, num esforço elétrico, imprevisto, as acariciando com a pestana do olho; as adocicando com a penugem dessas suas duas jabuticabinhas pretas. Piscinas tão profundas que pretas, onde ainda cabe uma vida toda.

O bebê recém-nascido é um corpo pequenino a ser lentamente descoberto pela alma. Frederico, que tu cresça com a bênção das árvores matriarcas, e que elas te balancem nos teus sonhos. 

As Mulheres da Padaria

Nem nas melhores bandas, nem nos grupos de artistas mais precisos eu pude ver um trabalho tão rápido e ordenado: as mulheres da padaria ensacam médias como robôs isentos. Não interessa a dor de cabeça – embrulhe; não quero saber dos pés inchados – pese o pão; quem se importa com a dor de ver o filho maltratado pelo pai? – trabalhe. Trabalhe como uma abelha.

Elas parecem tão antigas… Parecem talhadas no profundo funcionamento daquele lugar, e aquele lugar parece milenar. É como se a substituição de qualquer uma delas fosse o mesmo que trocar uma peça de uma máquina complexa, que as envolve e abraça, e de cuja funcionalidade não há escapatória. Não duvido que já as tenham feito a cabeça para gostar do sentimento fordista da produção em esteira. Estes métodos bem que apelam para aquele gozo do prazer mecânico. Eficiência é como mel.

Para seus buchos, café é óleo e feijão é remendo. A comida perde a humanidade quando os humanos são tornados máquinas – sentir gosto de quê, com o estômago tão ácido? Com tanto ovo frito? Com tanto boi empanado? Sentir gosto da ferrugem… Sentir o gosto do tempo que leva para a oxidação das juntas. Encrustar-se por décadas no interior dos botões da balança que pesa o pasto.

Daqui há um século, algum cronista voltará a escrever sobre as mulheres cravadas na rotina da padaria – essas mulheres de ferro, que dão ao mundo o pão de cada dia.

Vida Doméstica

A vida doméstica me arrebata.

Me chama só uma vez e já me derramo no sofá, esparramando minhas pernas no tapete. Hoje não dá – está chovendo e são sete e meia da manhã.

O desemprego conjurou a realidade da espera em minha vida. As férias me agarraram com suas mãos limpas, e agora me encontro antisséptico. Não há grito que chegue em meus ouvidos, nem chamado que penetre minhas paredes, ou qualquer suspiro que me rompa. O que há sou eu, o cigarro aceso, e um país nublado, com nuvens pesadas de norte a sul, tomado pelo abraço gélido de uma frente fria.

Saio do sofá e vou para a janela: mudança de perspectiva. Trouxe da cozinha caquis com maca peruana em pó e sementes de chia, e três dedos de café amargo. Em cada sorvida, respiro um ar calmo. O dia está parado. Cada partícula em seu lugar próprio. O instante foi esticado, e enfim abarca alguma coisa: a existência inteira. Impossível é envelhecer. Vi meus cabelos untados de abacate, os vi grandes e grossos, esparramados como minhas pernas. “Que estou fazendo aqui?”, pensei. “O que eu poderia estar fazendo aqui?”. No quarto vejo meu amor dormir, e reparo em quanto o mundo é bom – mas de um jeito muito pouco, para uma minoria bem sortuda. Tive sorte, há fortuna.

O dia passa e a vida doméstica me esculpe. Despeço-me dos homens. A partir de amanhã, encontrarão meu rosto talhado no interior de uma almofada.

Íntimo de gato

Me parece que a maior intimidade que se pode ter com um gato é vê-lo vomitar. Trata-se de um momento longo, de uma hora vulnerável. Quando vomita, ele tem de abaixar a guarda, e aguardar. Aguardar, em espasmos crescentes, a saída do material indesejado.

Não há defesa nem garras: só humilhação própria.

Ele dá umas tossidinhas de criança no final de cada ciclo de seu movimento, e não há nada que você possa fazer para acudi-lo. Vomitar é um ato de independência. Quem vomita demonstra autonomia sobre seu enjoo, como quem diz que o controle não está perdido. Ver um gato vomitando é participar da autonomia dele: só você ali; você e ele sozinhos num chão pela casa, ansiosos pelo parto de uma náusea.

Meu pé de manjericão


A vida me mandou uma muda de manjericão e me mandou plantar. Assim o fiz. De um jeito muito débil, mas o fiz. De início, tudo normal. Não diria que estava feliz, mas estava verde. Suas folhinhas estavam vivas de um jeito comum. Diariamente eu as examinava: cheirando, sentia molho de tomate; tocando, sentia pulsar a seiva; com os olhos, via brotinhos minúsculos nascendo salpicados. O grande problema é que tenho medo de regar. É mais fácil umedecer demais a secar demais. As regas deixo para as mãos sem medo de minha mulher. O que acho impressionante nela é a liberdade de morar entre o zero e o um. Se a planta morre, as mulheres a revivem, e se qualquer coisa de errado acontece, elas encontram melhor que qualquer homem o ponto médio invisível entre um final e outro, e estabelecem a ponte que salva, mesmo que custe suor e sangue. Não há possibilidade que se esconda do secreto feminino.

Temos um Lírio da Paz no apartamento, a que chamamos Lório. Há um tempo ele estava praticamente morto, mais murcho que um pano. Não há salvação – o homem cessa na condenação. Não há salvação porque é necessário que não haja. O masculino é míope. O feminino é fantasmagórico. Ela enxergou, no caso de Lório, o meio termo ignorado: “vamos cortá-lo bem curtinho”. Cortá-lo! Ela e sua tia o cortaram então até o último caule fraco. A raiz estava boa. Eu não sabia que plantas são divididas em partes e que cada uma tem seu papel na suculência de suas vidas. Hoje Lório cresce como cabelo.

Estão belas e felizes todas as plantas que ela cuida. Das que temos, nove são dela. Uma só é minha: Cão, o Manjericão – que está morrendo. Está dada a sentença. O que me resta é observar seu devoro pelos mosquitinhos de fungo. Cada instante de sofrimento de Cão é um acúmulo a mais de dor em mim. Queria usar suas folhinhas para tantas macarronadas mais… – Mas tenho medo de regar. Não entendo de raízes. Não cuido. Deixo à própria sorte. Minha planta morre.

Será por causa da plantinha peluda que está nascendo no canto do vaso? Será que suas raízes pestilentas guerreiam com as de Cão? Seu pêlo parece pêlo de mariposa, que parece uma doença que voa. Que tem essa plantinha peluda? Quanto mais ela cresce, mais bichos eclodem da terra. Se estivesse podre não chocava ovos de insetos. O que tem no vaso é vida apodrecendo vida. Há chagas negras na minha planta. Suas folhas caem sozinhas, e as que ainda estão firmes se contorcem para dentro na tentativa de ignorar o que virá. Os brotinhos se recolheram. As portas do nascimento estão se fechando.

Quanto mais morre o manjericão, mais cresce a pequena planta fúngica. E este é o único vaso que é meu.