Atendente do café do Praiamar

Eu só queria poder te dizer o quanto você é lindo fora desse uniforme cor-de-bosta – este, que lhe oprime o pensamento a ponto de maquiná-lo, e que te faz trabalhar às oito da noite de primeiro de janeiro de dois mil e vinte.

Deixo por escrito uma sugestão: queime-o, e imploda-lhe as cinzas.

Ansiedade

“O que vou fazer quando chegar em casa?” – eis a pergunta mais difícil. A confusão se apodera de minha cabeça e não consigo nem começar a respondê

loto esta cachaça de luz de sal de praia de mar mas nada muda Minha cabeça. Minha cabeça escura, que nada vê e nada forma. Minha cabeça – dentro de onde não há nenhum vagalumezinho de luz. Não posso, não consigo.

Passa o sorveteiro. Veste vermelho-desbotado-pelo-sol. Por que eu não sou ele? Digo – porque vim neste corpo e com esta consciência? Não poderia ter sido noutro, com outra alma? Para quem é curioso e tenaz o bastante, uma só vida não basta. Imagine só! Tudo aquilo de que você dispõe para deixar uma marca na história é uma vida, e nada mais.

Por exemplo: se você escolher, na sua única experiência vital garantida, que é a atual, ser um cantor de música sertaneja industrial (que não passa de uma maneira bem específica de exploração capitalista das artes musicais típicas das realidades sertanis brasileiras), então você estará desperdiçando o presente do agora e vendendo todo o seu tempo, por um preço bem alto, para os donos dessas filiais da indústria cultural, que sempre significam no mínimo duas coisas: o empobrecimento da arte parasitada, e a continuidade da dormência da cabeça do trabalhador, que depois de labutar por mais de oito horas diárias um trabalho mental e fisicamente maçante, necessita de algumas parcas horas de um entretenimento fácil, a fim de reiniciar no dia seguinte, semi-perecido, o ciclo exploratório sem fim.

Por isso: o que vou fazer quando chegar em casa? O que vou fazer quando chegar em casa? Sei lá, sei lá…

Relato da Sala dos Professores

Me disse um professor da escola onde trabalho, enquanto tomávamos café na sala dos professores: “guarde as minhas palavras: a educação é uma mentira!”. E de fato o fiz. Não tem como ignorar palavras tão enfáticas – ainda mais quando, além de enfáticas, são dúbias. É que não me parece ser possível dizer que uma coisa, assim, empírica, possa ser verdade ou mentira, sem que ao mesmo tempo se revele o que está subentendido acerca do conceito de verdade ou mentira. Ora, a educação é um dado concreto, é algo que se apresenta a nós no dia-a-dia de uma escola. Dizer que a educação é uma mentira é o mesmo que dizer que a caneta que uso para escrever este texto é mentira. O predicado não cabe no sujeito.

Está aí, pois, a primeira falácia. Já que a palavra “mentira” não pode, segundo o discurso em questão, ser compreendida como algo que não se comprova, uma vez que a comprovação da coisa a que se refere se dá, de maneira simples, pela vivência de uma rotina, então ela deve ser compreendida de outro modo, a saber: como algo que impossibilita a obtenção não da verdade, mas de algo subjetivamente valorado como verdadeiro. Em outras palavras: o que é uma educação verdadeira e para quem? O que é uma educação que leva à verdade e para quem? O que é uma educação verdadeira para quem disse que a educação é uma mentira? Para responder a esta pergunta e continuar a reflexão, é preciso antes de tudo investigar a natureza não do objeto, mas do indivíduo em questão.

Nada melhor que trazer uma situação-chave, vivenciada em primeira mão. Foi uma ocasião em que este mesmo professor disse que “a pior coisa que aconteceu na educação brasileira foi Paulo Freire”. Bem, no atual contexto político deste Brasil, em que tudo anda tão aflorado e contrastado, é fácil compreender que seu lugar político é o mesmo das ideologias fascistóides da extrema direita. Segundo esta ideologia, Paulo Freire foi o responsável por transferir a autoridade do professor ao aluno, na medida em que – citando meu colega de trabalho – “o oprimido é o aluno e o professor é o opressor”. Ora, a perspectiva e o posicionamento que ele assume ao realizar esta interpretação mostram que seus valores advogam em favor do autoritarismo como sendo se não o único, um dos melhores modelos relacionais possíveis entre professor e aluno, passando assim a impressão de que ele se sente a todo momento, já que esta autoridade não é mais possível atualmente, como um capitão prestes a ser amotinado. 

É senso comum (com todos os prejuízos implicados no moralismo do senso comum) que a escola pública é lugar de aluno abusivo, e é também comum ouvir dos professores mais antigos que os alunos de outros tempos eram diferentes, mais disciplinados. No entanto, dizer que toda essa “amotinagem” tenha sido causada por Paulo Freire e sua conceituação de oprimido e opressor é, no máximo, como já apontei, professar um ideologismo barato, e no mínimo, uma burrice. Um fenômeno como esse, da indisciplina, não pode, sem sacrificar a assertividade do juízo, ter sua causa identificada a um único fator – ainda mais a este, falacioso. Aliás, se o maior problema da escola fosse a indisciplina, então o melhor cenário pedagógico possível, por dedução, seria o de disciplina máxima. Quando a disciplina não é condicional ao objetivo a ser alcançado, ela passa a favorecer ao militarismo. E o militarismo, revestido de uma moralidade no caso de extrema direita, se transforma em fascismo. A educação militarizada não é interessante para ninguém se não para quem está no topo da hierarquia. Eis a imagem da contradição: um peão da educação desejar o chicote. Eis, também, a imagem de um capitãozinho do mato?

E aqui está a segunda falácia, que não é epistemológica, mas ética. A educação é uma mentira, mas não porque ela não ensina a adotar posturas críticas e autônomas, e sim porque o aluno de hoje em dia dificilmente se deixa dominar para que lhe enfiem goela abaixo o que bem se entende, do modo que bem se entende. Parece que a questão foi desvendada mais rapidamente do que imaginei: a educação verdadeira, para este senhor cansado, é aquela que pretende tornar a todos gado como ele.

Burakos 6-12-19

Todos dançam sob o sub grave da noite. Os corpos não param. As línguas se entrelaçam, os corpos se encontram, as vozes se fundem – assim seguem madrugada adentro. Na cidade onde não há estrelas, o único brilho noturno que se encontra é o olhar do outro, tão perdido e profundo… Proteja-o! Queira-o! O consuma, e morda, e coma-o. Quando puderes sentir o fogo inextinguível do laço humano, então amarás mais ainda o teu irmão, e o revestirá de respeito incondicional. Só aí haverá real alteridade. Cada pessoa com sua pessoa, em liberdade fraterna – eis o respeito moral máximo.

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Não sou dançarino, mas depois de uma conversa que tive com um amigo meu enquanto dançávamos, passei a pensar no que poderia a ser a coisa da dança. Ele me disse basicamente que a dança é uma ressignificação do espaço, que é um modo hipnotizante de movimentar o corpo, que é algo incontrolável. Eu ponderei: “dançar é bom! É algo possível mesmo quando não gostamos da música. Eu por exemplo não gosto muito dessa que tá tocando, mas mesmo assim movimento meu corpo quando a ouço”.

E aí: é questão de gostar do que se ouve ou é questão de deixar os ouvidos absorverem as nuances sem preconceitos?

Resposta: os dois misturados, um por causa do outro, e o outro por causa daquele!

Pedrisco

Não sei o que há nessas mãos que agem num siricutico tão intenso, nem o que há nesse jeito de falar tão pormenorizado, e nem o que possa haver nesses olhos interessados e cheios de atividade – não sei, mas tem algo que me dá fôlego para viver e mexer nas coisas do mundo.

Talvez seja, em parte, os resquícios daquela outra vida, saída do mesmo lugar que a tua, que no passado me impressionou tanto, quando ainda existia na materialidade. Hoje, existindo só na lembrança de cada um que a viu, não tem mais tanta presença – ainda mais para alguém como eu, cuja memória é o mesmo que uma grande rua esburacada.

A outra parte me parece que é própria de ti, e não resquicial. O corpo principal mesmo, o teu próprio, tão diferente, tão impressionante, mas de berço compartilhado. Vejo no movimento de tuas mãos, no da tua fala e no dos teus olhos, algo que está para além deles todos e para além mesmo da visão. Capto com a pele e com o sentimento o que tento dizer que capto. Capto com o coração angustiado algo aí que me faz querer ser melhor, sem subterfúgios. Algo que me tira da inércia, que me faz querer movimentar os braços e puxar o sol do calabouço em que o enfiaram. O meteram num lugar tão fundo, tão obscuro! O mundo obscureceu-se de tal modo que a escuridão se tornou fenômeno tátil, ganhou extensão corpórea; se enrolou em meu pescoço e virou serpente, entrou em minha goela, vendou meus olhos de dentro para fora agarrando-se ao meu nervo óptico, inflamando-o pelo avesso. Um percevejo mordeu minha garganta. Sufoco-me. Tudo consentido.

Por isso é bom reparar que quando interajo contigo sinto uma vividez curiosa, uma mudança de foco que transveste a importância das coisas com uma tranquilidade tão cheia de assertividade! Como Gregor Samsa, sinto-me uma qualidade de inseto, claro – mas é como se houvesse ao menos uma possibilidade de re-metamorfose – uma possibilidadezinha real, preenchida, do tamanho de um pedrisco deitado no meio de uma infinita estrada de asfalto quente.  

Miseráveis

Um homem que, se agarrando ao emprego como à beira de um precipício, lavava carros da brutalidade de touros – cinco de uma vez, e mais cinco depois destes e mais cinco. Ofegava como um pugilista. Chamava pelas bestas com passo firme e braços em potência plena. Parecia até que não sabia, e não sei nem se iria querer saber, mas lutava uma luta que jamais venceria.


Um olhar que, despertado de seu transe pelo meu, me fita no centro do cenho. Perdidamente certeiro, saía da vista baça de um indigente. Estava despejado no chão como um saco sujo, recostado à porta fechada do comércio, embaixo da marquise de uma loja de roupas finas, e vestia rasgos. Trajava pele morta, renegada. Foi numa noite fria de Santos. Ele ainda respirava.


Os livros que me deu Pablo, um morador das calçadas da Pedro de Toledo, enquanto ele esperava sua mulher pedir salsichas para seus cães, em frente a um açougue. Me pediu uns trocados. Respondi que estava desempregado. Ele de pronto compreendeu. Parece que se deu como satisfeito quando percebeu que tudo o que teria seria minha atenção. Conversei com o sorriso de Pablo por uns parcos minutos.

Até que chegou Rosana, trazendo as salsichas, que logo os cachorros sugaram para dentro de suas barrigas. Li nos olhos deles, quando se juntaram um ao rosto do outro, o desespero. Deve ser assim o dia inteiro.

Os livros que Pablo me deu, depois de um rompante de inspiração aceso pela emoção frágil de Rosana, eram de pornô-de-avó. Ele me deu porque eu lhe havia dito ter cursado Filosofia. Muito pouco curioso, os aceitei com muito entusiasmo. Eu não tinha nada para dar a Pablo, mas ele inventou alguma coisa para me dar. Por quê? Já não tenho tudo? Já não tenho sorte? Só não tenho emprego. Mas Rosana logo tratou de me dá-lo também dentro de si: “oraremos para que você consiga um trabalho”.

Rosana e Pablo me ensinaram que quem nada tem é porque não tem mais nada a não dar.

O grande gato cósmico

Tenho hoje um gato que se parece muito com o de minha infância. Quando ele se foi fiz um desenho dele vestido de anjo, que agora tenho em minhas mãos. Ele voa no céu como Lucy com diamantes – e mais a lua, e as estrelas, e um olhar desconfiado que lança ao destino, perguntando de quem será a mão que lhe trará o afago depois da morte. Porque é como diz minha mulher: depois que um gato conhece o carinho, ele não quer mais saber de outra coisa.

O gato do desenho é o Snarf, um siamês; o que neste momento acaricio sentado no meu colo é o Samu, igualmente siamês (a despeito do Snarf ter sido um siamês “original”, por conta do olho vesgo e rabo torto). Me pergunto se o aparecimento do Samu em minha vida não possa ser o retorno do Snarf – os dois nomes começam com S e lembram doença, Samu por ser ambulância e Snarf por lembrar o espirro de meu pai. Tá aí! Duas provas do mais alto nível de superstição.

Botando-me ainda nas ceroulas da seriedade metafísica, sou obrigado a continuar a redação puxando notas mais profundas. Sabemos que toda materialidade é a ponta de um mistério – que mistério então poderia ser esse da ocorrência de dois felinos praticamente iguais em minha curta história de vinte e cinco anos? Sei bem que o Snarf pode ter sido a antevida do Samu, um prolongamento temporal reverso dele. Mas, pensando mais um pouco, eu poderia chegar a me dar conta de que Snarf e Samu são na verdade manifestações corpóreas de um grande gato cósmico, frutos de uma gato-essência divina, de raiz residente na bondade animalesca de todos os bichos, responsável por povoar o mundo com essas curiosas misturas de lebre e macaco que não querem nada além de – carinho.

Deixei algo cair do bolso enquanto andava na rua

Aconteceu assim, sem que eu notasse. Andava a mirar os prédios contra o céu nublado da praia, e ia pensando numas coisas. Quando de repente descobri. A partir de um clique compreendi tudo.

Compreendi porque estava vivo e qual deveria ser o imperativo moral eterno e a referência ética mais perfeita; comecei a fazer planos prenhos de uma vida toda, imaginando minha velhice contra minha reencarnação e mais a morte e nascimento de todos; pude apreender finalmente a substância do laço humano e constatar sua beleza luminosa e intransponível, inspiradora de bem-querença infinita; dissequei as virtudes do tempo e espaço e senti-me esticar matéria adentro, numa viagem fantástica por mil abismos e estrelas; passeei pelos topos das pirâmides e acima delas vi a grande imensidão das eras – quando, parado no píncaro de Miquerinos, fitei o fundo do horizonte chamuscado e estremeci diante da mais grave e última constatação: tudo acabava num grande sol laranja, para seu centro indo as areias, os céus, e todos os pássaros do mundo, a fim de fazer a última viagem da vida.

Foi quando passou um ônibus e me distraiu. Outro clique. Algo caía de meu bolso. Olhei ao redor, confuso, tentei procurar, mas não achei nada. Jamais voltei a encontrar o que de mim caiu naquela tarde.