Nada

Os corredores da Diretoria de Ensino de Santos se esgueiravam, finos intestinais, por dentro do monólito de concreto que se erguia no meio do quarteirão. Gente apinhada como no inferno. Corpos escuros formavam uma única grande fila. Procurávamos por nossos dentes. Sem dentes não se morde – e sem mordida não há vida. Queremos abocanhar. Precisamos abocanhar. Vivemos a aspirar do solo as migalhas que não apetecem nem mesmo aos pombos. 

“Você está aqui por nada”, ouço. “Você está aqui por nada. Nada substituirá o êxtase da comunhão. Nenhum gozo é melhor que o gozo do outro, visto direto nos olhos dele. Nada é melhor que a música. Dela se compõem as vozes de todos os bichos da terra quando festejam. Aqui quem fala é a tua Musa, e tu vai morrer descascado pela potência de minha voz insone.”

Estou aqui por nada. Para abocanhar. Para matar o tempo. Para fazer com o tempo o que ele faz por mim: nada. 

Suor, sujeira e surto

Ah! Empolgação que me faz lançar o pneu do carro contra a quina do meio fio, estourando-o. Ah, pneu espatifado! – me faz suar, sujar e surtar. Suor, sujeira e surto: mistura primitiva pré-humana, dona da espécie. Quantos em teu seio já não aportaram, loucos? E quantos chegaram a devolver-se de volta ao mar plácido da sanidade, para lá de ti? Em ti cheguei buscando o barulho – aquele, que talvez substitua (só talvez!) esse outro, eterno, dentro de minha cabeça a conjurar ruídos.

Só assim poderei me perguntar com segurança: o que significa hoje?

A sombra da resposta já me amolece os olhos e torna mais macio, mais afeito ao colchão. Mais tenro. É impreciso, mas imperativo dizer: meus olhos colorem cobertores.

“O que significa hoje? O que significa hoje? ” – me pergunto.

Logo defino: hoje é o acúmulo de todo significado possível, escrito na língua secreta do tempo.

Giro

Praia Grande: uma cidade-entulho, cujas sarjetas abrigam um lodo fétido e lembram, num átimo, que o que sobra de bairro e seus habitantes é sempre, e invariavelmente, lixo. Feliz ano novo. Boa limpeza.

Em Santos, diz uma margarida ao lado do ponto de táxi: “tu viu a foto que saiu no jornal do homem dizendo que foram retiradas trinta toneladas de lixo da orla da praia? A única coisa que não dizem é que fomos nós que catamos”. Não há verdade mais pesada. 

São Vicente: “é uma cidade de população abandonada”, me disse o motorista do Uber que peguei só para conversar. “É, eu sou de lá” – respondi, encurralado.

Prazer de bebê

Mais uma vez de volta à busca daquele prazer básico – o prazer do bebê quando sente seu corpo roçar nalguma coisa outra. Por diversas vezes já falei aos amigos sobre esse roçamento, que em meu caso é o rolar da caneta sobre a superfície porosa do papel. Não sei por que, não sei da onde vem, mas sei que o êxtase às vezes é tamanho que não preciso nem dar sentido à grafia – é como se eu desenhasse com as palavras e seu sentido se tornasse amorfo, pós-simbólico. Com a boca desafinada, durmo acordado de queixo caído.

Pode ser porque o ato de escrever nos possibilite o exercício de uma liberdade reflexiva que não se pode obter de outro modo. No entanto o que sinto está longe de se encontrar no plano da satisfação intelectual. O que sinto se encontra antes de qualquer lampejo de inteligência. Trata-se de uma pujança estética severa, quase a mesma que sente o esportista quando põe o corpo a desafiar seus limites materiais. Não se trata de criar mundos. Não me interessa tanto assim coisa tão gratuita. É sobre ser indiferente a todos os mundos já criados, na tentativa de concentrar toda a inutilidade de suas existências na ponta de uma caneta. A tinta nos redime do mal agouro do amanhã na exata medida em que trocamos nosso sangue por sua cor azul-pretóleo.

Fina película

Vocês! Sim – vocês que não sabem cuspir! Mexem no mundo com seus dedos, perpetrando o deslize torpe de vidas que, deslizando, se pulverizam. Tenho pena de vocês – tanto quanto uma galinha que grita, e morre, depenada, nas mãos da máquina fria que a embala. Minha pena é um berro! Uma noite! Uma ferida…

Me vejo mudo no preto dos teus olhos. Um preto mais fundo e mais preto que o mais profundo poço – e mais moço, e mais novo. Que se quebre o espelho de tua pupila e se afunde mais o fundo da tua vida; e que caia uma chuva de navalhas para que se lapidem à corte teus dedos finos e rachem, uma por uma, todas as camadas da película, fina, que nos separa as vidas.

Celular

Todos com o celular nas mãos: o bebê, o homem tatuado, e a mulher de vestido preto, que beija à batom vermelho a xícara de café.

Ele nos acompanha. É companheiro das melhores companhias: seja você recém-chegado a este mundo, seja você um jovem straight edge, ou uma mulher de caudas negras.

Mulher: sua boca está suculenta de ondas de rádio.

Frederico e as árvores

Frederico, há quase um mês nesse mundo, tateia sem descanso o vazio que o rodeia. O vi na praia com seu pai: “olha a árvore, filho!”. Seus bracinhos abrindo e fechando, os olhinhos tentando compreender como girar, os ouvidos no esforço de abertura para essa coisa nova e imaterial que é o som seco de uma palavra. 

O pai de Frederico não mostrou a árvore a ele porque funciona, mas porque o ama, e quer que ele ame em resposta – ame as árvores, o mundo, a vida. Certamente se lembrará quando for mais velho, durante um sonho irreconhecível, do mandamento gravado à voz de pedra no fundo de sua memória: “olha a árvore, filho!” – olhando então para cada uma como se fosse a última de novo e de novo, num esforço elétrico, imprevisto, as acariciando com a pestana do olho; as adocicando com a penugem dessas suas duas jabuticabinhas pretas. Piscinas tão profundas que pretas, onde ainda cabe uma vida toda.

O bebê recém-nascido é um corpo pequenino a ser lentamente descoberto pela alma. Frederico, que tu cresça com a bênção das árvores matriarcas, e que elas te balancem nos teus sonhos.