Miseráveis

Um homem que, se agarrando ao emprego como à beira de um precipício, lavava carros da brutalidade de touros – cinco de uma vez, e mais cinco depois destes e mais cinco. Ofegava como um pugilista. Chamava pelas bestas com passo firme e braços em potência plena. Parecia até que não sabia, e não sei nem se iria querer saber, mas lutava uma luta que jamais venceria.


Um olhar que, despertado de seu transe pelo meu, me fita no centro do cenho. Perdidamente certeiro, saía da vista baça de um indigente. Estava despejado no chão como um saco sujo, recostado à porta fechada do comércio, embaixo da marquise de uma loja de roupas finas, e vestia rasgos. Trajava pele morta, renegada. Foi numa noite fria de Santos. Ele ainda respirava.


Os livros que me deu Pablo, um morador das calçadas da Pedro de Toledo, enquanto ele esperava sua mulher pedir salsichas para seus cães, em frente a um açougue. Me pediu uns trocados. Respondi que estava desempregado. Ele de pronto compreendeu. Parece que se deu como satisfeito quando percebeu que tudo o que teria seria minha atenção. Conversei com o sorriso de Pablo por uns parcos minutos.

Até que chegou Rosana, trazendo as salsichas, que logo os cachorros sugaram para dentro de suas barrigas. Li nos olhos deles, quando se juntaram um ao rosto do outro, o desespero. Deve ser assim o dia inteiro.

Os livros que Pablo me deu, depois de um rompante de inspiração aceso pela emoção frágil de Rosana, eram de pornô-de-avó. Ele me deu porque eu lhe havia dito ter cursado Filosofia. Muito pouco curioso, os aceitei com muito entusiasmo. Eu não tinha nada para dar a Pablo, mas ele inventou alguma coisa para me dar. Por quê? Já não tenho tudo? Já não tenho sorte? Só não tenho emprego. Mas Rosana logo tratou de me dá-lo também dentro de si: “oraremos para que você consiga um trabalho”.

Rosana e Pablo me ensinaram que quem nada tem é porque não tem mais nada a não dar.

O Brasil escreveu um episódio de Black Mirror

A sordidez da realidade às vezes pode ser pior que o macabro da ficção mais refinada. De vez em quando me pergunto, atônito: “como escrever ficção quando a trama real é mais bombástica que a inventividade dos autores mais perspicazes?”. A situação do escritor seria cômica se não apontasse para uma tragédia.

É impossível que você não saiba, a essa altura do campeonato, do vazamento das conversas entre Sérgio Moro e Deltan Dallagnol. O conteúdo revelado não é nada menos que cataclísmico. O mesmo juiz que deveria julgar imparcialmente o réu, Lula, com base nas provas e argumentos tanto da defesa quanto da acusação, colaborou explicitamente para condená-lo. E não é questão de ser petista ou não: está escrita a intenção de impedir a volta do PT ao poder nas eleições presidenciais de 2018. O que, por consequência, faz outra coisa deixar de ser “teoria da conspiração petista”: o argumento de que Lula é um preso político. Esse argumento ganhou validade, e o jogo foi virado do avesso.

O CASO WALLACE

Não posso deixar de traçar um paralelo com uma série documental que assisti na Netflix recentemente, que fala sobre algo que até então eu não havia tido conhecimento. O seriado chama-se Bandidos na TV, e trata sobre o Caso Wallace. Resumidamente, é o caso de um Deputado Estadual amazonense, Wallace Souza, que foi acusado de mandar matar traficantes para filmar-lhes a morte em primeira mão – e sem qualquer censura – a fim de gerar audiência para o programa de TV Canal Livre, que ele apresentava. Mas, não bastasse isso, as investigações da Polícia Federal concluíram que a trama é ainda mais perturbadora: segundo as provas e relatos colhidos, geralmente quem executava os alvos era o próprio filho do deputado, Raphael, e a geração de audiência era apenas uma das finalidades das execuções, já que estas também tinham como escopo eliminar concorrentes no tráfico de drogas – pois Wallace, ao mesmo tempo em que era deputado e apresentador de televisão, seria também um poderoso chefe do tráfico. No final da história, a imensa maioria das testemunhas foi assassinada, Wallace teve o mandato cassado, foi preso, e morreu de problemas de saúde; seu filho, Raphael, também foi preso. Mas mesmo com tudo isso, a opinião popular acerca da culpa de Wallace – que negou tudo – não é unânime, e a possibilidade de descortinar integralmente a verdade foi enterrada juntamente com todas as vítimas geradas pelo processo investigatório.

Me pergunto: como a produção ficcional deve continuar diante de uma realidade que parece ficção? O “Caso Moro”, e principalmente o Caso Wallace, trazem este questionamento. Certamente não é papel da ficção “competir” com os acontecimentos da realidade, como se ela tivesse de superá-los. Isso implicaria numa limitação da obra ficcional e a colocaria num âmbito incoerente e desleal. Não se compete com a realidade. Ficção e realidade não estão em pés de igualdade, não participam da existência da mesma maneira. Não moram na mesma casa – mas se visitam com recorrência. Ficção, quando visita Realidade, volta para casa com inspiração; Realidade, quando visita Ficção, volta para casa com premonição. Diante da realidade grotesca do Caso Wallace, por exemplo, a ficção se sente primeiramente impressionada, depois envergonhada, e depois diligente: se impressiona com o caráter perturbador da trama, se envergonha de querer extrair de tal perturbação uma inspiração, e se torna diligente na pesquisa do assunto e na reflexão acerca da direção a que apontará a obra em que se concretizará. Mas o Caso Wallace já é passado – aconteceu entre 2008 e 2010. A grande questão é como se comporta a ficção quando se dispõe a formar-se à partir de uma realidade que ainda está acontecendo. Que tipo de reflexão poderia nos render acerca da ficção, então, uma apreciação do Caso Moro?

BLACK MIRROR

Para seguir adiante com tal questão, é interessante que a tomemos em conjunto do conceito de um outro seriado da Netflix, o Black Mirror. A série é constituída de um conjunto de episódios não sequenciais em que a tecnologia (e todas as suas promessas de avanço dentro de um futuro próximo) causa, participa ou é meio para situações de desespero, tragédia ou inflexão social. Trata-se de uma ficção que nos dá o vislumbre de um horror futuro que não se concretizou ainda (máxima atenção para este ainda). Em Black Mirror, a distopia é uma questão de tempo. Ou melhor, de progresso.

Pensemos o Caso Moro. Ele ainda não terminou, à época da escritura deste texto, e seu epicentro se dá numa conversa de aplicativo – uma tecnologia atual, mas ao mesmo tempo futura, inauguradora de possibilidades distópicas diversas das do simples telefone. Estamos falando aqui de uma conversa de aplicativo que pode mudar seriamente o rumo de um país que se encontra numa crise profunda, cujo presidente, um agente disfarçado de incompetente, foi eleito com base na disseminação em massa de fake news e na manipulação da opinião pública através das “opiniões” de robôs que realizavam comentários favoráveis à sua campanha – ambos desaguaram no mesmo lugar: a tela do celular. O chat do smartphone não só está sendo palco do cataclisma Moro, como também foi grande parte da razão da eleição de um presidente embusteiro.

Levemos em conta também que esse mesmo presidente tem um filho investigado por lavagem de dinheiro, e este mesmo filho possui ligação com milicianos, a ponto de empregá-los em diversas funções, homenageá-los publicamente, e até favorecê-los politicamente (um parênteses para dizer que Wallace também era envolvido com milicianos). Acrescentemos a tais informações que o principal suspeito do assassinato de Marielle Franco é miliciano e tem residência no mesmo condomínio luxuoso do presidente. Perguntemos: não parece ser possível uma relação entre a família do presidente e o assassinato de Marielle? Tal hipótese não seria corroborada pelo afastamento do investigador que descobriu a identidade do assassino? E quanto à ligação entre Moro e Bolsonaro, na ocasião da “premiação” que este concedeu àquele quando lhe deu o cargo de Ministro da Justiça, já que sem a prisão de Lula as eleições certamente teriam tido outro resultado? Nos espantemos: haveria alguém que pudesse saber mais detalhes do conluio entre o Ministério Público e Sérgio Moro que não tivesse um sobrenome que comece com “B” e termine com “olsonaro”?

Mas quem sabe os maiores produtores brasileiros de ficção hoje não sejam *aham* Olavo de Carvalho e seus servos? Afinal, segundo eles “esquerda” é o nome superficial de uma rede oculta de comunistas cuja agenda pretende implantar o “marxismo cultural”; os professores das universidades trabalham para este grupo com a finalidade de doutrinar com ideias comunistas as cabeças de seus alunos; o aquecimento global é uma mentira porque na verdade o que aconteceu foi que as regiões onde se encontram os termômetros ao redor do mundo ficaram mais quentes, e as medições passaram a apontar temperaturas mais altas; a Pepsi-Cola usa células de fetos abortados como adoçante (essa é clássica demais); o Brasil é a última salvação, no mundo inteiro, contra o terror comunista em acensão. Ficção burra, de péssima qualidade, e que não tem compromisso nem com o futuro, nem com o presente e nem com o passado. Ficção que compete com a realidade não é ficção, é mentira.

É um horror distópico imaginar que o rumo de um país foi ditado em grande parte a partir da tela de um celular. O Brasil escreveu um episódio de Black Mirror.


Brasil do Ódio

Pelo menos aquele em que vivo.

Queria saber donde vem esse ódio: acredito que seja daquela violência estruturalizada em nosso povo, espremida da escravidão do povo negro, do povo indígena, do chão, da mata, e do boi. O problema de ser brasileiro é que ouviremos para sempre os gritos de nossas cicatrizes.

Aqui, todo mundo se odeia. A maioria dos discursos do cotidiano são discursos de ódio. Outro dia ouvi que “time pequeno tem mais é que se foder”; noutro, ouvi que “o Lula não está sofrendo na prisão, tá na maior mamata”; noutro ainda vi o vídeo dos manifestantes com a camisa da CBF arrancando a faixa da UFPR, que dizia “em defesa da educação”.

Queria saber uma coisa: estes brasileiros não sabem que a escravidão no Brasil já terminou? Não sabem que, na continuidade de tal término, teria sido necessário que cortássemos pela raiz a violência que se agarraria em nossa carne? É exatamente por isso que violência não se combate com violência, mas sim com jardinagem.

Quando, afinal, meu Brasil se livrará do medo de pôr suas mãos na terra?

Danilo Gentili

Assisti à entrevista que o Danilo Gentili deu ao Marcelo Tas, no Provocações, da Cultura. Essa entrevista foi um massacre. Quem conhece o programa já deve imaginar mais ou menos, mesmo que não tenha visto.

Mas, para quem ainda não conhece, como posso ilustrar? O Provocações não é como um programa de entrevistas convencional. Ele não quer exatamente saber o que a pessoa faz da vida dela fora dali, mas sim o que ela é capaz de pensar naquele momento, frente a questões que costumeiramente não lhe fazem. O que aconteceu com o Danilo Gentili foi um encurralamento. Ao invés de encontrar uma sala clara com uma mesa morna, encontrou uma luz fria e a careca crítica do Tas. Tratou-se de um encurralamento necessário – porque mostrou que o Danilo Gentili é um cara triste, que resolveu não viver o luto da perda do pai, e que depois disso passou a viver do escárnio, próprio e dos outros – primeiro para sobreviver psicologicamente, e depois para enriquecer.

No caso do Danilo, sobreviver do escárnio não deu certo, porque do jeito que ele faz, irresponsavelmente, acriticamente, como alguém que “não gosta de quem gosta de Paulo Freire” e “não sabe de Paulo Freire porque não pesquisou sobre ele” já que não se interessa, uma vez que o Paulo Freire “fala igual um estelionatário”, não ajuda a ninguém e tampouco a ele próprio. É um ignorante de classe média comum, mas que tem um microfone grande: alguém que não leu e que não lê; que é cristão e que não reflete sequer sobre os próprios princípios religiosos, e ao invés disso os utiliza para justificar sua crueldade consigo mesmo e com sua dor profunda. Ele tem um trauma grave, e não foi educado de modo que pudesse perceber seu perigo por si próprio.

O Tas soube arrancar isso dele. No final da entrevista, ele deu respostas sinceras. Na verdade, no geral ele parece ter dado respostas sinceras – o problema é que a sinceridade do Danilo se baseia numa sinceridade derivada de uma noção de verdade que não inclui a atitude da suspeita, e daí se acaba tomando mentiras como discurso certo. Sinceridade assim é mentirosa mesmo que não queira sê-lo.

Veja bem, se houve uma tentativa de humanização do Danilo que poderia servir de algo útil para ele futuramente, acredito que não tenha dado certo. Ele não sai dali fortalecido. Quem vê a entrevista toda, percebe. Não parece que tentaram humanizá-lo, mas que tentaram expor o humano que pode haver dentro dele, enterrado. Mostraram que o Danilo Gentili é o retrato fiel de nosso destino mais trágico: a depressão ignorante.

Não faço nada

O Brasil não é mais um país tropical. O Brasil vem sendo tão somente um país dos trópicos. O verão ainda brilha como lantejoulas em nossas águas, sim – mas não chega nem perto do brilho vívido de alguns anos atrás. O brilho de um povo acolhido. A radiância de um povo que, aquecido como uma gema, não precisa pedir por nada, sua vida placidamente brotando de sua própria essência, protegida, salvaguardada para o futuro. As coisas não eram exatamente como queríamos, nunca foram, mas a esperança seguia nutrida.

Participamos deste Brasil. Que fizemos por ele?

O destruímos. O odiamos. Não fizemos muito por ele. Mas fizemos muito com ele. Fizemos por ele o que faríamos por nós mesmos – berramos. Fizemos com ele o que faríamos com um prédio que cansa o horizonte – implodimos.

Eu mesmo não fiz nada. De dentro da minha casa não consigo fazer nada. Não sou universitário, não tenho lugar de fala, só tenho um gato e meia dúzia de palavras que digo no interior de mim mesmo. Não fiz muito. Votei certo só. Mas isso não basta. Nunca nada basta quando de nós temos que tirar, diariamente, milhões e milhões de pessoas de dentro de nós. Parece até que não fiz nada. Fiquei olhando tentanto entender – e ao fazê-lo não podia, não entendia nada. Passou o tempo e o jacaré pegou todo mundo. Mas que podia fazer eu, de dentro de minha casa isolada, com meu gato isolado? Não podia fazer nada.

Mas algum dia comecei a fazer alguma coisa? Um homem branco, culpado como todo homem branco; um gato siamês, sem culpa nenhuma – podem por um acaso fazer alguma coisa além de nada? Fazer qualquer coisa pelo povo? Uma coisinha só? Nem que seja num futuro bem distante? Acho difícil.

Não sei. Estou confortável como uma tartaruga. Por isso é que sou culpado: pelo meu espírito de tartaruga.

Não há emprego. As crianças perderão seus livros para seus pais ganharem armas. Índio é obstáculo. Árvore é dinheiro. YouTube é propaganda do governo. Twitter é propaganda do governo. Facebook é campo de concentração de ódio. Me formei professor com medo de dar aula. Quem liga? Sou branco e não fiz nada. Fiquei em cima de minha brancura e me tornei apático.

Queria ter o peito aberto e uma realidade diferente, em que eu fosse diferente, e pudesse falar coisas diferentes, coisas que fizessem tornar o caldo, que pudessem dar qualquer coisa para o mundo em troca daquilo que o mundo me dá todo dia. Mas não levo jeito pra isso. Minha vida não dá jeito nisso. Estou aqui falando de mim enquanto o melhor é falar do país. Mas quem mora nesse país sou eu – e eu, não faço nada. Como fazê-lo?

Indignar-se é fazer alguma coisa? Certo que não. Indignar-se é tornar-se, e não fazer-se. É tornar-se alguém movimentado no interior por fatos exteriores, e movimentado como um mar que só não vira o navio porque ele foi feito pra boiar e porque o este mar é um mar fraco. Sou o mar e sou o navio – quero virar o navio do governo, mas é o governo que tenta virar o navio que sou eu. Governo de ácaros. São minúsculos mas fazem espirrar.

Sinto-me impotente. É por causa de mim que estou impotente. Normal. Eu nunca soube achar caminhos de potência, sou míope. Os caminhos que acho são por acaso, à despeito de minhas mais sinceras tentativas de discernir a paisagem. Não sei criticar, não sei debater – me canso, fico triste, acontece um turbulência dentro de mim que não conheço e de que tenho medo. Ela me domina e eu fico confuso. Daí não consigo falar com ninguém e ninguém consegue falar comigo. Eu só odeio. Odiar é fazer alguma coisa? É sim. Mas odiar é odiar, e não gera nada diferente.

Mas não sou culpado de nada disso. Sou culpado mesmo é por ser branco e não passar fome. Sou culpado por não estar no lugar de nenhuma minoria pra sofrer e sentir na pele o que esse governo de ácaros faz com o povo, porque só assim é que se acorda, quando o governo dá oitenta tiros no carro do seu marido, e o mata. Nosso Presidente diz que não há racismo no Brasil, e que já encheu o saco esse papo que coloca brancos contra negros – mas não são essas as palavras do fuzil. Uma palavra certeira do fuzil é uma vida que se tira. Ainda mais oitenta. Um fuzil preto atirando num homem preto. Realmente não há racismo no Brasil. É que nosso Presidente fala a língua das armas.

Nosso Presidente fala a língua das metralhadoras. “Ratatatatatatá!” ouço ele falar na live de quinta. Meu ouvido dói de tanto não fazer nada. Não faço nada, e me dôo inteiro.

Queria ser meu gato, mas sou uma tartagura.

Sobre os Rumos da Mão Invisível

É necessário mirar para além dos discursos

Surge mais uma questão importante no horizonte político brasileiro atual. Uma questão que só podemos entender a partir do seguinte: a suspeita de que bots foram usados para espalhar notícias, algumas em vídeo, contra Bolsonaro – sob mando da cúpula do próprio, para que depois ele mesmo pudesse desmentir, com ações contraditórias, tais notícias, e enfim descredibilizar os veículos que as transmitiram. Qual o ganho? Centralização da credibilidade de informação em suas mãos. É preciso que tomemos cuidado com alardes transitórios, pois acima disso eles estão se movimentando, e nos regendo.

Mas o que quer dizer tal acontecimento? Que não existe nenhuma pretensão de continuidade verossímil entre o discurso e a fala: não importa o que dizem, já que o que dizem não anuncia o que fazem. É impossível qualquer previsão simples do desenrolar futuro dos acontecimentos. Análises reduzidas já não bastam. Frente a uma política que é escancaradamente feita à base de contradições, teremos que repensar nossas ferramentas de análise. Adquirirá importância fundamental agora a Hermenêutica (com origem semântica na palavra que designa o deus grego entre outras coisas do comércio, “Hermes”, responsável pelas ligações entre postos de comércio no âmbito específico, e entre pólis gregas, no sentido geral). Não basta conferir diálogo com ação. Cabe a todos, agora, o trabalho que historicamente coube aos pensadores mais afinados: olhar a cena de cima, e tentar identificar não o fim de um ator específico, mas da peça inteira. É necessário utilizar intuição e razão para, interpretando, juntamente com a imagem simbólica da Mão Invisível, ter alguma noção do que efetivamente virá:

 

É difícil se encontrar nessa fuligem toda da cortina de fumaça que lançam todo dia em nosso olhos.

Firehosing: confundir a opinião pública em prol de objetivos próprios que devem permanecer obscuros…

É preciso destacar-se dessa bolha.

Interpretar originalmente?

Estudar inteligentemente?

Como encontrar a posição adequada, dia após dia, e também a ação correspondente?

Um monte de gente marchando por debaixo da neblina, um monte de céu passando por cima de tudo, e entre o céu e essa gente uma grande mão.

Feita da própria neblina, ela é invisível. Mas controla.

Quem ela usa para exercer-se?

Para onde manda as massas que molda?

Qual o preço que paga para empoderar-se?

“É preciso observar seus movimentos!”, você diz.

Só que ela é invisível. E controla nossos olhos.

Só é possível sentí-la, e daí adivinhá-la, e daí talvez formá-la, em consistência de nuvem.

Adivinhar suas formas, seus contornos; constituir em nossas narizes seu cheiro; acompanhar seu toque em nós como faz a  anêmona;

Enxergá-la.

Originalmente, notar a manipul(ação).

O que não quer dizer ser sozinho, mas sim provocador de novas origens,

E daí ser junto.

Juntar-nos enganados por essa Mão, que aponta para lá com um dedo e ao mesmo tempo para cá com três.

Nos basta a dificuldade de fixar o olhar onde desponta o amanhecer da verdade…

 

Se não há como prever os movimentos desta mão com base em seus discursos, então é preciso conhecê-la sob outra perspectiva. É preciso tomar em conta suas ações para daí derivar seus seus anseios, seus intuitos, seus desígnios, suas nomeações – elementos que partem, ainda, de cima. Não mais seus discursos, que são cortinas de fumaça: descobriremos então que esta mão, já não bastando que seja invisível, é também enganosa. A mesma Mão aparenta estar mais alta e ao mesmo tempo mais baixa, e nos ilude. A mesma Mão, descobrimos, parece trazer diferentes cores, vir de diferentes tempos, e promover diferentes coisas. Mas esta mesma Mão, mesmo parecendo ser tantas, é uma só.

Em termos materiais, é a mesma, embora apareça cada hora em uma altitude, saltitando para cá e para lá instantaneamente à medida de nossa percepção dela; em termos de história, é sempre outra, reconfigurada que aparece de acordo com as relações que a tornam possível. Ao longo da História esta Mão apareceu por diversas vezes, e confundiu, e dominou, e se apoderou; e depois se reconfigurou, para fazer tudo denovo.

Mas assim como pôde enganar por diversas vezes o humano tornado gado, sempre houveram umas exceções que perceberam seu jogo. Estas exceções são compostas por lutadores antes de interpretadores, que a percebem tão somente por sua vontade de anunciar uma catástrofe. Eles compreendem não só sua gravidade – essa é a parte mais fácil -, mas principalmente sua altura, ou seja, os lugares específicos e as vontade bem pensada donde vêm estes ímpetos que imperam por designar e orientar nossas vidas de acordo com seus interesses particulares.

 

morao morinho
Atentemos às alianças entre os homens do poder.

É necessário interpretar

Mas não sejamos obscuros. Tal movimento maníaco foi engendrado por homens. A Mão Invisível é tão somente uma imagem para esta coisa intrincada e nebulosa formada por suas relações de poder. É a partir do movimento destes homens de de poder que teremos uma noção efetiva do tamanho, das dimensões, do poder, e do direcionamento desta Mão.

Para tal é imprescindível que tratemos de particulares e não de universais, sabendo exercer a faculdade da distinção. Um dos princípios da Hermenêutica (que é aquele modo interpretativo tão importante a que me referi no início deste texto) é identificar os particulares com precisão cirúrgica. Apliquemos este princípio: é o início da desmistificação. Depois, cabe observarmos as ações destes particulares já identificados com precisão como se fossem vetores: suas ações vão na direção de que outros particulares? Identifiquemos também estes outros particulares. Primeiro, obteremos uma linha com dois pontos de destinação recíproca; depois, uma rede. O que esta rede significa? Existe em nome de quê? Esta pergunta pode ser respondida com o exame das motivações das ações dos particulares, que podem ser obtidas através da perscrutação atenta de seus movimentos um em direção ao outro. Começamos a entender como se forma e em que consiste a cadeia de interesses destes particulares, que agora passam a formar grupos. Estes grupos, quais são os seus objetivos centrais? Em que consiste sua existência? Ainda – estes grupos, tencionam-se com quais outros grupos? Aliam-se com quais? É preciso pesquisar cada indivíduo destes outros grupos, traçando novos vetores e formando novas redes. Depois deste mapeamento, mas também nos entremeios de sua feitura, deve ser feita uma pergunta muito importante: quais as movimentações políticas destes grupos? Ou seja: o que fazem com as massas? De suas movimentações, derivemos suas intenções: fazendo tal coisa com as massas, que querem eles, e para quem o estão querendo? O controle exercido pela Mão Invisível (que é este conjunto de redes, homens e interesses) é a ação política sempre renovada destes grupos de homens sobre as massas que controlam. Dos homens do alto escalão formam-se as redes cuja manifestação simbólica é a Mão.

É a partir desta análise (e não a partir de uma análise dos discursos) que poderemos compreender a vontade daquilo que nos impõe o jugo. Mas não é o suficiente. Tal análise deve ser preenchida ainda de substancialidade. Não adianta que identifiquemos o esqueleto do acontecimento sem compreender que dentro do esqueleto há tutano. Realizar um estudo ignorando o uso que devemos fazer de nossa faculdade da intuição é o mesmo que pretender a compreensões tão somente formais do objeto de estudo. Mas em que consiste a intuição, pelo menos esta de que falo aqui? Seguramente posso dizer, de início, que nada tem a ver com aquela “intuição feminina”, por exemplo, que conhecemos do famoso ditado popular. Intuição, nos termos aqui discutidos, significa uma capacidade, que todos nós temos, de nos transportar para o interior da coisa estudada, a fim de nos identificarmos com seu movimento essencial e conhecer sua natureza. De que outro modo poderíamos conhecer a destinação da coisa analisada – em nosso caso, da Mão Invisível que nos controla? Temos de perscrutá-la através da análise, para depois disso entrar na segunda parte do processo interpretativo proposto: colocar-se no interior deste objeto, uma vez percebido, através de um esforço imaginativo, sob finalidade de intuir para onde ele vai. Repare: através de um esforço. Intuição depende de esforço.

Com a análise rigorosa, identificamos as partes; com a intuição precisa, desvendamos o sentido. Daí poderemos cumprir nosso desígnio Hermenêutico e, talvez, conhecer melhor o submundo da política, suas vontades ocultas e seus desígnios obscuros. No entanto, o papo não para por aí: pois depois de conhecer, é preciso agir com base no conhecido. Mas isso fica para um post futuro. Por enquanto tentemos entender o que acontece por detrás de toda essa fumaça.

A Mão Invisível

É difícil se encontrar nessa fuligem toda da cortina de fumaça que lançam todo dia em nosso olhos.

Firehosing: confundir a opinião pública em prol de objetivos próprios que devem permanecer obscuros…

É preciso destacar-se dessa bolha.

Interpretar originalmente?

Estudar inteligentemente?

Como encontrar a posição adequada, dia após dia, e também a ação correspondente?

 

Um monte de gente marchando por debaixo da neblina…

Um monte de céu passando por cima de tudo…

E entre o céu e essa gente uma grande mão.

Feita da própria neblina, ela é invisível. Mas controla.

Quem ela usa para exercer-se?

Para onde manda as massas que molda?

Qual o preço que paga para empoderar-se?

“É preciso observar seus movimentos!”, você diz.

Só que ela é invisível. E controla nossos olhos.

 

Só é possível senti-la, e daí adivinhá-la, e daí talvez formá-la, em consistência de nuvem.

Adivinhar suas formas, seus contornos; constituir em nossas narizes seu cheiro; acompanhar seu toque em nós como faz a anêmona;

Enxergá-la.

Originalmente, notar a manipulação.

O que não quer dizer ser sozinho, mas sim provocador de novas origens,

E daí ser junto.

Juntar-nos, enganados por essa Mão, que aponta para lá com um dedo

E ao mesmo tempo para cá com três.

Nos basta a dificuldade de fixar o olhar onde desponta o amanhecer da verdade…

O Velho Irracionalismo Brasileiro

 

Estranhem o que não for estranho

Tomem por inexplicável o habitual

Sintam-se perplexos ante o quotidiano

Tratem de achar um remédio para o abuso

Mas não esqueçam que o abuso é sempre a regra.

Bertold Brecht

 

Sem exagero, podemos falar em um obscurantismo crescente no Brasil. Parece que os argumentos reflexivos, lógicos e embasados em fatos estão perdendo, cada vez mais, credibilidade e território para os achismos, as opiniões e o senso comum. A impressão é de que hoje o senso comum é soberano e soberbo, o novo ídolo, a grande aspiração. Não mais aquele senso comum signo de incultura ou ignorância legítima, mas um senso comum torpe e autoritário que visa desautorizar qualquer manifestação de pensamento crítico, seja pelo grito ou pelo deboche. Aparentemente, “em todas as trincheiras e em todas as frentes, a razão está na defensiva”, já dizia Sergio Paulo Rouanet. Claro que isso não é nenhuma novidade, não é a primeira e nem a última vez que isso acontece. O que vemos é somente a nova roupagem do velho irracionalismo brasileiro: o obscurantismo.

 

“Obscurantismo”? Sim! Como assim? Ora, “obscurantismo” consiste, precisamente, na prática de impedir, deliberadamente, que os fatos e os detalhes de um determinado assunto tornem-se conhecidos e claros, ele 

 

os torna obscuros. Não se trata, portanto, de mera incultura ou ignorância, mas de um esfumaçamento da realidade, uma oposição sistemática à difusão de instrução e cultura. Se conhecimento é algo que se constrói, o obscurantismo é uma máquina de demolição.

Considerar essa situação nos ajudaria muito a pensar o fenômeno “Fake News” como uma estratégia de campanha não só mentirosa, mas obscurantista. E tal transposição é inevitável, dado que a iminente ascensão desta metamorfose do irracionalismo seja correlativa ao crescimento do protofascismo no Brasil. Não é por coincidência, é por causalidade. Fascismo e irracionalismo estão intimamente intrincados. 1) porque, diferentemente do que alguns pensam, o fascismo não é uma ideologia política sólida e acabada, não se fundamenta em nenhu

 

ma filosofia, é antes uma colcha de retalhos de ideias políticas e filosofias despedaçadas, segundo Umberto Eco: “uma colmeia de contradições”, “um desconjuntamento ordenado”. 2) o irracionalismo, por sua vez, é oportunista e parasitário, permeia o senso comum e captura dele as tendências em voga – que muitas vezes não tem nada de irracionais em si – e as utiliza para seus próprios fins.

Como uma confusão estruturada, o obscurantismo é sustentáculo do atual protofascismo brasileiro. Anti-filosófico e anti-intelectual por excelência, sua expressão mais visível está na difusão e nas consequências das “Fake News” e da “Olavagem cerebral”.

 

J Murillo arte
Arte de J. Murillo: https://www.instagram.com/j.murillo45/

 

Filosofia X Obscurantismo

 

A razão deve tornar transitáveis todos os terrenos, limpando-os dos arbustos da demência e do mito.

Walter Benjamin

 

“Ninguém quer saber de jovem com senso crítico” – disse o candidato fascistoide para uma plateia de militantes em Vitória (ES). Vindo dele isso faz muito sentido. É coerente, honesto e até autoexplicativo, pois o pensamento crítico opera por distinções, principalmente. Distinções desarticulam e denunciam as contradições, como por exemplo: defender, ao mesmo tempo, valores cristãos, tortura e pena de morte. O pensamento crítico esclarece na medida em que põe em crise os raciocínios pautados em sentenças antagônicas, verifica a consistência dos argumentos.

O protofascismo é uma grande colagem de contradições, por isso só prolifera quando o ato de distinguir parece impossível ou errado, quando as divergências são encobertas e as desigualdades naturalizadas, quando a violência é tida como algo banal, quando problemas extremamente complexos parecem ser resolvidos por fórmulas simples, quando pensar parece tolice. Não basta, por exemplo, dizer que o Brasil está sob uma suposta “ameaça comunista”, é necessário obscurecer ao máximo o significado próprio do que é o comunismo. A ideia de “comunismo” não pode ser esclarecida, mas deve se manter fosca e confusa. O mesmo se aplica ao termo “corrupção”, que foi despregado de seu significado próprio e foi tornado uma palavra-ônibus, uma palavra-coringa, que só existe para acusar e deslegitimar o adversário. Definir e delimitar o significado de “comunismo” e de “corrupção”, entre outros termos, parece impossível pelo senso comum obscurecido.

A disseminação do irracionalismo, função do obscurantismo, é justamente essa: manter uma aparente coesão das narrativas protofascistas – por mais contraditórias e absurdas que sejam – por meio da confusão e da desautorização dos discursos contrários, por mais criteriosos, lógicos, razoáveis e baseados em pesquisas científicas que sejam. Daí advém seu anti-intelectualismo.

Tomando como ponto de partida as reflexões de Umberto Eco em Fascismo Eterno, podemos caracterizar esse anti-intelectualismo por duas propriedades fundamentais do fascismo: a “recusa da modernidade” e o “culto da ação pela ação”. Recusar a modernidade é consequência do tradicionalismo fascista. Mesmo o fascismo italiano e o alemão (nazismo) adorando o desenvolvimento tecnológico, seu apreço pela modernidade era simplesmente alegórico e instrumental, “era apenas o aspecto superficial de uma ideologia baseada no ‘sangue’ e na ‘terra’ (Blut und Boden)”, do mesmo modo como, no Brasil, o crescente protofascismo se ergue pela defesa da tradição “Deus, família e propriedade privada” e da ideologia do “conservadorismo nos costumes”, o que, em última instância, se traduz numa tentativa de teoria do conhecimento conservadora que adota uma perspectiva teocrática e geocêntrica. Já o culto da ação pela ação consiste na crença de que a ação é bela e moral em si. Deve, portanto, ser realizada antes de qualquer reflexão. Pensar seria perda de tempo e castração, por isso mesmo que “ninguém quer saber de jovem com senso crítico”. A ação deve ser imediata e irrefletida, rápida e precoce como um tiro. A frase tão em voga, “bandido bom é bandido morto”, ilustra com perfeição o culto da ação pela ação: o assassinato de um criminoso é tido como uma ação moral em si mesma, por isso é tida como algo a ser incentivado e aplaudido. Parte-se da premissa de que o permanente estado de guerra é um estado de paz – por exemplo, defender que o armamento do “cidadão de bem” garantiria a segurança pública – o que implica, de modo colateral, num culto à morte: não é por acaso que o grito de guerra dos fascistas espanhóis (falangistas) fosse “Viva la muerte”.

A lógica deles é simplista, qualquer um que questione a validade moral dessas asserções é “defensor de bandido” e deve ser rechaçado. Daí a suspeita com relação à cultura e ao mundo intelectual, ambos estão relacionados com atitudes críticas, atitudes que põe em crise raciocínios frágeis e preguiçosos. Por isso que os obscurantistas do protofascismo brasileiro insistem em desqualificar as universidades como “grandes centros de doutrinação comunista”, porque a cultura e a instrução são seus maiores adversários. O intuito é blindar as pessoas da reflexão e da criticidade. Se a universidade é um ambiente que as promove, deve ser pintado de inimigo: de “comunista”. Como naquela declaração atribuída a Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda da Alemanha Nazista: “quando ouço falar em cultura, pego logo a pistola”.

De acordo com Theodor Adorno: “como seria impossível para o fascismo ganhar as massas por meio de argumentos racionais, sua propaganda deve necessariamente ser defletida do pensamento discursivo; deve ser orientada psicologicamente, e tem de mobilizar processos irracionais, inconscientes e regressivos”. Ora, o principal fator de obscurecimento é justamente o ódio e, como bem se sabe, ódio é irracional. Para sustentar aquela “colmeia de contradições” é necessário o apelo ao ódio, a mobilização da frustração social e do ressentimento das massas, é preciso tornar um grande grupo de pessoas em uma massa acrítica, unificada e uniformizada pelo ódio.

Uma pessoa meramente inculta ou ignorante não é necessariamente acrítica, muitas vezes o estado de ignorância é o estopim da reflexão. Deparar-se com aquilo que se desconhece pode levar ao espanto e, segundo Aristóteles, é pelo espanto que se começa a filosofia: é preciso surpreender-se, espantar-se com o real para querer questioná-lo. A pessoa obscurecida é tornada acrítica na medida em que fica incapaz de ser tomada pelo estado de espírito do espanto filosófico. Para ela, não há enigmas. O real está dado, posto, pronto e acabado. Não há o que questionar, tudo é óbvio. Querer investigar os fundamentos do real é uma tolice e um capricho. A suspeita, a desconfiança e o mínimo de criticidade que poderíamos esperar das pessoas que se deparam com “Fake News” absurdas como a das “mamadeiras eróticas” se dissolve por completo. Afinal, as “Fake News” mobilizam e exprimem, sob a forma de factoide, um sentimento que unifica e uniformiza as massas.

por Roy Sollon (https://tinyurl.com/y8mzygvr)

 

O PODER DAS FAKE NEWS – apêndice

Pretendo realizar esta pequena análise do fenômeno das fake news a partir de algumas perguntas norteadoras principais: qual o alcance das fake news? Qual seu poder? Produzem as mentalidades profundamente ou controlam as mentalidades independente de sua produção? Não pretendo responder a estas questões pontualmente, mas tão somente utilizá-las como perguntas norteadoras do sentido desta análise, e elencar respostas que nelas esbarrem.

Pois bem. O princípio a que me atenho é que a pulverização da verdade dá margem à validação da mentira. A pulverização da verdade é um fenômeno que acontece pela mutação constante dos canais de divulgação dos fatos de ancoragem da verdade dos discursos. No meio digital de publicação, é muito mais rápido publicar uma notícia, e isso faz com que as tais plataformas – as digitais – sejam movediças. A consequência disso é que a quantidade de notícias aumenta e a busca por uma notícia específica se dificulta. Não é possível, pelo menos facilmente, confirmar se um boato é verdadeiro ou não. O acesso a conteúdo jornalístico fidedigno (os fatos de ancoragem da verdade dos discursos) torna-se mais difícil. E tem gente que se aproveita dessa confusão oriunda desta “tecnologia líquida” para fins políticos fascistas.

Estes são os propagadores das fake news. Eles se deram conta desta dificuldade: aproveitaram-se da confusão gerada pela mutação acelerada das plataformas digitais de notícias e passaram a discursar verdades excluindo a necessidade de seus fatos de ancoragem. A bem da verdade, os fatos de ancoragem já não são muito bem requisitados por uma grande parcela dos leitores, pois já aquiesceram à dificuldade crescente de encontrá-los. O que aconteceu então é que eliminou-se um elemento da equação que já estava legado à secundariedade. Se algo torna-se cada vez mais difícil de encontrar, então logo este algo, na prática, deixará de existir – ainda mais quando existem esforços bem evidentes de indivíduos específicos indo de acordo com esse intuito. Sendo assim, aqui se revela mais um nível de exploração: é possível compreender que os propagadores das fake news não só se aproveitam da pulverização da verdade – mas também fazem uso da tendência dos eleitores a, por causa mesmo de sua pulverização, ignorar os fatos que ancoram as verdades objetiva e historicamente. Há, pois, um ataque constante e inevitável, e um crítico e encomendado.

Talvez nos perguntemos por quem promove a mutação dos canais de divulgação.  Mas logo nos daremos conta de que ninguém, especificamente – trata-se de um fenômeno contemporâneo, decorrente da digitalização da informação e aumento da velocidade de sua publicação. Sendo assim, este não é o problema mais urgente. Nem sequer é um problema. O problema é, aí sim, a retirada do fato de ancoragem da verdade do discurso da equação, e sua descredenciação quanto elemento necessário à credibilidade da informação apresentada. Quando o fato de comprovação da verdade deixa de ser importante no crédito da informação, então o crédito da informação passa a ser determinado pelo poder de polêmica que a informação possui. As notícias têm mais crédito quanto mais capazes são de movimentarem os afetos. Daí as eficácias das fake news: um público necessitado de respostas convenientes para problemas urgentes não checará nenhuma nova informação que a ele chegue, já não procura respostas suficientes. O que o público quer é correspondência de afetos. Se os boatos vendem a ideia de que há um grande líder que os compreende dentro de seu ressentimento, bombardeando-lhes dia a noite com polêmica em detrimento do pensamento crítico, então se tem o fenômeno das fake news como sendo uma ferramenta de consolidação de um determinado poder político.

Estão tirando, tendenciosamente, uma parte importante de uma equação que já se encontra naturalmente frágil. Quais são, então, os efeitos desta exclusão? Resposta: a alienação dos leitores destas notícias, que desemboca em seu controle; a instauração das fake news como meio popularmente legítimo de informar-se. Se a pulverização da verdade é inevitável por causa da tecnologia de nosso tempo, então o problema verdadeiro é a utilização tendenciosa desse caráter pulverizado da verdade para legitimar as notícias veiculadas a despeito de seu pareamento ou não com o mundo objetivo.

Como conclusão, é possível notar que 1) as fake news produzem mentalidades na medida em que os indivíduos que se informam a partir delas e deixam de exercer a capacidade crítica da pesquisa, guiando-se tão somente por polêmicas; 2) as fake news controlam mentalidades à medida em que tornam este não exercimento da crítica um hábito, apelando à dificuldade de acesso aos fatos de ancoragem da verdade do discurso; 3) o poder das fake news é a alienação.

por Iury Cascaes

 


 

[1] No ensaio: “O novo irracionalismo brasileiro”, da obra “As Razões do Iluminismo”.

[2] https://deusgarcia.files.wordpress.com/2018/06/eco-o-fascismo-eterno.pdf

[3] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/07/ninguem-quer-saber-de-jovem-com-senso-critico-diz-bolsonaro-em-vitoria.shtml

[4] https://blogdaboitempo.com.br/2018/10/25/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo/?fbclid=IwAR3ulBs8ZEdQicAr9q6rnhaoViaPh_rofCK0Z_SrK55thttnlBTxOyOtp38