Whisky Ballantines

Em Whisky Ballantines, explora-se a memória, a doçura de uma família, e a dureza da realidade. Texto literário com teor filosófico, o conto busca, através da reflexão sobre vivências diárias, expandir o alcance indagador da crônica, alçando-a a uma categoria que não só pinta a vida cotidiana da banalidade da(s) cidade(s), mas que pode também fazer emergir das profundezas de alguém suas mais variadas e coloridas considerações acerca das cidades, dos quartos, das pessoas, do mundo imediato que o cerca. Indicado para quem se interessar por ensaios e demais tipos de produção em que o livre exercitar do pensamento e da imaginação seja o principal desígnio.

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Relato da Sala dos Professores

Me disse um professor da escola onde trabalho, enquanto tomávamos café na sala dos professores: “guarde as minhas palavras: a educação é uma mentira!”. E de fato o fiz. Não tem como ignorar palavras tão enfáticas – ainda mais quando, além de enfáticas, são dúbias. É que não me parece ser possível dizer que uma coisa, assim, empírica, possa ser verdade ou mentira, sem que ao mesmo tempo se revele o que está subentendido acerca do conceito de verdade ou mentira. Ora, a educação é um dado concreto, é algo que se apresenta a nós no dia-a-dia de uma escola. Dizer que a educação é uma mentira é o mesmo que dizer que a caneta que uso para escrever este texto é mentira. O predicado não cabe no sujeito.

Está aí, pois, a primeira falácia. Já que a palavra “mentira” não pode, segundo o discurso em questão, ser compreendida como algo que não se comprova, uma vez que a comprovação da coisa a que se refere se dá, de maneira simples, pela vivência de uma rotina, então ela deve ser compreendida de outro modo, a saber: como algo que impossibilita a obtenção não da verdade, mas de algo subjetivamente valorado como verdadeiro. Em outras palavras: o que é uma educação verdadeira e para quem? O que é uma educação que leva à verdade e para quem? O que é uma educação verdadeira para quem disse que a educação é uma mentira? Para responder a esta pergunta e continuar a reflexão, é preciso antes de tudo investigar a natureza não do objeto, mas do indivíduo em questão.

Nada melhor que trazer uma situação-chave, vivenciada em primeira mão. Foi uma ocasião em que este mesmo professor disse que “a pior coisa que aconteceu na educação brasileira foi Paulo Freire”. Bem, no atual contexto político deste Brasil, em que tudo anda tão aflorado e contrastado, é fácil compreender que seu lugar político é o mesmo das ideologias fascistóides da extrema direita. Segundo esta ideologia, Paulo Freire foi o responsável por transferir a autoridade do professor ao aluno, na medida em que – citando meu colega de trabalho – “o oprimido é o aluno e o professor é o opressor”. Ora, a perspectiva e o posicionamento que ele assume ao realizar esta interpretação mostram que seus valores advogam em favor do autoritarismo como sendo se não o único, um dos melhores modelos relacionais possíveis entre professor e aluno, passando assim a impressão de que ele se sente a todo momento, já que esta autoridade não é mais possível atualmente, como um capitão prestes a ser amotinado. 

É senso comum (com todos os prejuízos implicados no moralismo do senso comum) que a escola pública é lugar de aluno abusivo, e é também comum ouvir dos professores mais antigos que os alunos de outros tempos eram diferentes, mais disciplinados. No entanto, dizer que toda essa “amotinagem” tenha sido causada por Paulo Freire e sua conceituação de oprimido e opressor é, no máximo, como já apontei, professar um ideologismo barato, e no mínimo, uma burrice. Um fenômeno como esse, da indisciplina, não pode, sem sacrificar a assertividade do juízo, ter sua causa identificada a um único fator – ainda mais a este, falacioso. Aliás, se o maior problema da escola fosse a indisciplina, então o melhor cenário pedagógico possível, por dedução, seria o de disciplina máxima. Quando a disciplina não é condicional ao objetivo a ser alcançado, ela passa a favorecer ao militarismo. E o militarismo, revestido de uma moralidade no caso de extrema direita, se transforma em fascismo. A educação militarizada não é interessante para ninguém se não para quem está no topo da hierarquia. Eis a imagem da contradição: um peão da educação desejar o chicote. Eis, também, a imagem de um capitãozinho do mato?

E aqui está a segunda falácia, que não é epistemológica, mas ética. A educação é uma mentira, mas não porque ela não ensina a adotar posturas críticas e autônomas, e sim porque o aluno de hoje em dia dificilmente se deixa dominar para que lhe enfiem goela abaixo o que bem se entende, do modo que bem se entende. Parece que a questão foi desvendada mais rapidamente do que imaginei: a educação verdadeira, para este senhor cansado, é aquela que pretende tornar a todos gado como ele.

O grande gato cósmico

Tenho hoje um gato que se parece muito com o de minha infância. Quando ele se foi fiz um desenho dele vestido de anjo, que agora tenho em minhas mãos. Ele voa no céu como Lucy com diamantes – e mais a lua, e as estrelas, e um olhar desconfiado que lança ao destino, perguntando de quem será a mão que lhe trará o afago depois da morte. Porque é como diz minha mulher: depois que um gato conhece o carinho, ele não quer mais saber de outra coisa.

O gato do desenho é o Snarf, um siamês; o que neste momento acaricio sentado no meu colo é o Samu, igualmente siamês (a despeito do Snarf ter sido um siamês “original”, por conta do olho vesgo e rabo torto). Me pergunto se o aparecimento do Samu em minha vida não possa ser o retorno do Snarf – os dois nomes começam com S e lembram doença, Samu por ser ambulância e Snarf por lembrar o espirro de meu pai. Tá aí! Duas provas do mais alto nível de superstição.

Botando-me ainda nas ceroulas da seriedade metafísica, sou obrigado a continuar a redação puxando notas mais profundas. Sabemos que toda materialidade é a ponta de um mistério – que mistério então poderia ser esse da ocorrência de dois felinos praticamente iguais em minha curta história de vinte e cinco anos? Sei bem que o Snarf pode ter sido a antevida do Samu, um prolongamento temporal reverso dele. Mas, pensando mais um pouco, eu poderia chegar a me dar conta de que Snarf e Samu são na verdade manifestações corpóreas de um grande gato cósmico, frutos de uma gato-essência divina, de raiz residente na bondade animalesca de todos os bichos, responsável por povoar o mundo com essas curiosas misturas de lebre e macaco que não querem nada além de – carinho.

Deixei algo cair do bolso enquanto andava na rua

Aconteceu assim, sem que eu notasse. Andava a mirar os prédios contra o céu nublado da praia, e ia pensando numas coisas. Quando de repente descobri. A partir de um clique compreendi tudo.

Compreendi porque estava vivo e qual deveria ser o imperativo moral eterno e a referência ética mais perfeita; comecei a fazer planos prenhos de uma vida toda, imaginando minha velhice contra minha reencarnação e mais a morte e nascimento de todos; pude apreender finalmente a substância do laço humano e constatar sua beleza luminosa e intransponível, inspiradora de bem-querença infinita; dissequei as virtudes do tempo e espaço e senti-me esticar matéria adentro, numa viagem fantástica por mil abismos e estrelas; passeei pelos topos das pirâmides e acima delas vi a grande imensidão das eras – quando, parado no píncaro de Miquerinos, fitei o fundo do horizonte chamuscado e estremeci diante da mais grave e última constatação: tudo acabava num grande sol laranja, para seu centro indo as areias, os céus, e todos os pássaros do mundo, a fim de fazer a última viagem da vida.

Foi quando passou um ônibus e me distraiu. Outro clique. Algo caía de meu bolso. Olhei ao redor, confuso, tentei procurar, mas não achei nada. Jamais voltei a encontrar o que de mim caiu naquela tarde.

Maré de azar no Santos Jazz Festival

Devo começar dizendo de uma preliminaridade importante para a consideração de minha experiência no Santos Jazz Festival: ando numa maré de azar que afeta até o avesso de minhas meias. Quando algo dá certo de início, termina por dar errado, e quando começa dando errado, termina no começo. 

Tudo começa quando chego na porta do evento e percebo a falta de minha carteira. “Putz! Deixei no carro”, disse. Não havia escolha senão retornar para apanhá-la – do contrário, ficaria sem ele – motivo de minha penúria, imprescindível, eterno, em que desde quando comecei meu caminho até o concerto já nadava em imaginação ansiosa: o choppinho gelado. Fiz voltar a todos. Eu, minha penitente (que noutras ocasiões, quando poupada de meu azar, chamo de companheira) e um casal de amigos. Retornamos pelas ruas antigas do centro velho até o velho Focus e, sem muita demora, apanhei a carteira. Dei sem querer uma aspirada pungente no cheiro de dejeto que perfumava o ar noturno, sofri, e voltamos para o evento, certificados de que não havia mais nenhum objeto a ser esquecido. Adentramos sem cerimônia o recinto em que naquele momento se faria o show do Ritchie, um gringo cujo repertório trazia covers de Simon e Garfunkel, tão amados por minha penitente. Eu até gosto deles, mas queria mesmo era dar aquela bebericada no famigerado. Fomos logo atravessando a multidão da platéia para chegar ao salão da praça de alimentação. No entanto, assim que pisei lá, o terror se apossou de minha goela: vimos esticada, de cabo à rabo do lugar, uma fila – a fila. Pensamos “não é possível… será?”. Mas era possível sim, e não só era possível como foi confirmado pelo desolado que estava em último: tratava-se da fila do chopp. Era a fila do chopp aquela linha humana estendida ao infinito na forma de uma espiral de tormento e angústia! Sofri de novo. Ai! Neste momento senti pontadas de desespero! E minha penitente… Pobre! Foi ver o Ritchie sozinha enquanto resignado apertei-me ao meu lugar e aguardei minha vez, em delírio.

Passadas várias músicas do show e quarenta minutos de fila, finalmente saí em posse do cremoso. Me senti um rei. Não eram muitos que possuíam aquela iguaria: tu via um ou outro indo pra lá e pra cá com meio copo de bebida na mão em meio àquele acúmulo humano nos balcões do Burgmann. Mas para mim já era fácil ignorar os momentos difíceis que passei. Não sofreria mais: uma goladinha do paparicado e tudo se resolveria. Era só encostar os beiços. Era só aproximar da boca o líquido dourado para se desvanecerem meus problemas. Tão logo o fiz, a má sorte me assaltou novamente e conjugou um calafrio: choppinho estava morno. Toda aquela angústia! As várias músicas perdidas! Meu amigo na fila tendo que me ouvir tagarelar sobre o I Ching por quase uma hora! – tudo isso para nada: de precioso, choppinho passou para um xoxo “é, tá bom né”.

Daí Ritchie tocou a última música. Depois de uns dez minutos do término, enquanto conversávamos sobre a dimensão corporal reduzida dos ingleses e o fato de cantarem algumas vogais como cabras, fomos assaltados pelo estrondo das caixas de som explodindo uma música eletrônica de um Jazz duvidoso, e partimos em disparada. Aí eu já tinha entregado os pontos. Mas ainda havia uma esperança: a despeito de minha má sorte, minha penitente tinha visto inteiro o show que tanto esperara. Pra ela eu sabia que tinha valido a gasolina. Por isso, já no carro, voltando, fiz a pergunta meio temeroso, com aquela esperança de confirmar uma certeza dúbia: “e como foi o show?”. Então ela me responde e demole minha expectativa: “olha, não dava pra entender nada. Estava uma barulheira dos infernos. A acústica do lugar tava uma porcaria”. Só aceitei. É, amigo leitor! Parece que a maré de azar é mesmo aquilo que diz o nome: uma maré, e não uma marolinha.

As folhas que caem das árvores

Não sei se é o caso da diferença de hemisfério ter algo a ver com isso, ou mesmo de ter sido por uma espécie de sorte sazonal, mas ontem quando saí de casa para encontrar um amigo meu no Canal 5 vi, estendido por cima do chão, um vasto cobertor de folhagem marrom.

Ao contrário da crendice que nos instaura o simplismo das sandices cinematográficas americanas, as folhas das árvores driblarem o outono para cair só no inverno. Muito estranho para minha cabeça de menino da cidade: a vivência de colônia cultural me fez aprender, vendo com a maior familiaridade na tevê a neve que nunca tivemos, que é no outono, nunca antes nem depois, que as folhas caem das árvores e inundam as calçadas.

Parece que no Brasil as árvores aguentam um pouco mais…

Exercício matinal

Todo os dias pego as sacolas de lixo para levá-las à lixeira. Assim que lhes sinto o peso, antecipo a eficiência de meu exercício matinal: o ideal é que estejam densas como bolas de basquete. Quando é assim, me animo, e passo a carregá-las ansioso escada abaixo. Bom dia Fulano! Bom dia Beltrano! Hoje tá tudo bem! Em minhas mãos tenho um peso justo, cujo rodeio pelo espaço dá um prazer estranho; levo sacolas recheadas de restos – e elas me causam um certo regozijo físico, donde fruo a mecanicidade da vida. Sorrio.

Finalmente chego ao contentor. Em movimento, sem nem pensar em parar, arremesso-lhe as sacolas para fazer uma cesta redonda de dois pontos. Admiro o movimento parabular das sacolonas recheadas indo em direção ao lixo. O barulho surdo de sua queda me enche de satisfação. Sorrio em deleite.

Não sei em que consiste a felicidade, mas encontro-a em pedaços arremessando lixo.

A flor que dorme no copo

A flor que dorme no copo com água gelada: as pétalas já tão murchinhas… Os caules já tão amarelados… Ela dorme, e sonha que é uma flor de lótus.

A água gelada no copo da flor. No centro da mesinha branca de minha cozinha encostada à parede debaixo do armário: dorminhoca. Sonha que é uma orquídea agarrada a alguma árvore alta e viçosa no coração verde da Amazônia. Lá chove, e ela freme com o vento das nuvens.

Florzinha, por quanto tempo dormirá ainda em minha mesa? Te espero adormecer de vez! Quando te levarei para rolar nas marolas do mar de Santos, e tu será finalmente enterrada nas câmaras arenosas do reino dos caranguejos.