Sobre “O Velho e o Mar”

Fiquei impressionado com “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway. É bem verdade que esse texto tem teor de clássico. É muito verdade que esse texto possui uma riqueza abundante e diversa. Seja pela capacidade do autor de nos imergir na realidade ali representada através das narrações minuciosas da atividade da pescaria e a verossimilhança da situação toda – nada parece fora do lugar, tudo trançado de modo firme e oportuno. Ou que seja pela argúcia da escritura da voz interior do personagem que, pela falta de interlocutor possível, se torna dupla de um diálogo consigo mesmo – sozinho, ele fala consigo para dentro e para fora, fala com seu corpo, suas mãos, sua força vital. Tal auto-relação do velho, contudo, aponta não para qualquer ditame de auto-conhecimento, mas para a necessidade de uma aliança forte com aquilo que, de nós, sempre sentimos: nosso vigor próprio, o tônus mais insípido, que de vez em quando adormece…

Seja por isso ou por aquilo, ou ainda por aquilo mais, o texto impressiona. Uma lista séria de suas qualidades seria muito oportuna numa análise da obra. No entanto, furto-me de tal empreendimento. Prefiro descolar-me de tal pretensão. Prefiro investigar minhas simpatias com o texto. Vou direto para a seguinte pergunta: por que o velho matou o peixe? Qual sua motivação para matá-lo (sim, matá-lo, e não pescá-lo)? Eis um trecho interessante para pensar o assunto, em que o velho fala consigo mesmo: “Você não matou o peixe apenas para conservar-se vivo e o vender para alimento, […] matou-o por orgulho e porque é um pescador”. E mais este, que aparece posteriormente: “Amava o peixe quando estava vivo, afinal ainda o ama morto. Se o ama, com certeza que não foi pecado matá-lo.” Que dizer? Que o velho não mataria o peixe pelo ganho fica claro a partir do desenvolvimento da trama. Mesmo sendo pobre, não aspira a montantes desnecessários de dinheiro. Nosso velho é aquele tipo de velho cuja sabedoria transborda o sansara do dia-a-dia para derramar-se no íntimo da vida, à qual ele está sempre humildemente respondendo. Sua motivação também não parece estar na prática de seu ofício. Antes de motivá-lo, este no máximo justifica o que faz. Também não parece vir da necessidade de alimentar-se. Ele nem sente fome direito. Ele próprio demonstra que come por obrigação, já que sabe lhe faltarão forças caso não o faça.

Não matou por razões mercantis, tampouco pela urgência das necessidades biológicas. Resta o tal do orgulho. Mas o que seria “orgulho”, no caso do velho? Porque também não me parece homem orgulhoso no sentido que compreendo a expressão. Se fosse orgulhoso não seria tão afinado com o menino e não aceitaria que lhe ajudasse levando-lhe o café da manhã. Homens orgulhosos não se deixam tocar senão por suas próprias mãos. Mas o velho é paradoxal, é um personagem deveras humano. Mas há, por outro lado, orgulho no desejo de levar à cabo a própria vida, caso necessário, na batalha contra o peixe. Talvez o orgulho do velho seja um orgulho que eu desconheça, um muito belo orgulho de pescador. De uma forma de outra, o orgulho tem algo de altivo, dá impressões de grandiosidade a quem lhe possui. Também há grandiosidade nesta passagem: “mas matei este peixe que era meu irmão”. Irmão de luta. De força equivalente. Um páreo. Talvez o velho tenha visto na luta contra (ou com?) o peixe a chance de seguir até o fim – até o fim do dever, até o fim do ofício, o fim da potência de ambos, da luta, e da vida. Matou o peixe para não morrer antes dele.

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Ernest Hemingway no hospital, após ter sofrido um acidente de carro, em 1944.

E o brilho da coisa é que Hemingway fez questão de deixar tudo muito crível. Nada é fantástico. Tudo é verossímil, e ainda sereno. Contribui para isso com certeza sua escrita de jornalista. Pensemos. O velho, por ter conseguido matar um peixe colossal desses, tinha de ser muito forte. Mas donde vem tal força? Não parece afinal ser muito forçado pôr toda essa força no corpo de um velhinho enrugado? Bem, talvez – mas não no caso de nosso autor. Não no caso dessa história. Ernest justifica tal aspecto do personagem ao inserir um flashback na narrativa onde pinta um retrato seu na mocidade, enquanto duelava uma queda de braço que viria a durar dois dias com um homem muito forte e bem maior que ele. E, para além de pôr no velho um vigor que lhe habita desde seus tempos de moço, a relação entre a luta ocorrida no passado e a luta do momento presente, contra (ou com?) o peixe, nos leva a considerar outro aspecto: o de que a força talvez seja não só questão de ímpeto mas de perseverança. – E tal relação pode nos levar mais adiante ainda. Porque talvez não seja este pareamento formal entre passado e presente, ou ainda a verossimilhança de um aspecto da história derivada do passado do personagem, os únicos aspectos interessantes a se notar na narrativa. O que acontece é que, para além de uma semelhança formal, há uma diferença substancial: o velho é uma coisa, e o “Santiago El Campeon” é outra. E tal diferença nasce, sobretudo, com a passagem do tempo.

Esse texto tem em si bastante dessa coisa da passagem do tempo e da saudade do passado. Saudade que não possui sua base na superioridade do passado em relação ao presente (isso, na verdade, chama-se “saudosismo”), mas simplesmente por não existir mais o passado senão enquanto memória querida. Há diálogos constantes, num segundo plano, entre personagens que se encontram em diferentes instâncias temporais e tempos vitais. Vejamos por exemplo a relação do menino com o velho. O menino é aquilo em que o velho desejaria depositar sua continuidade, ao mesmo tempo em que é a juventude cuja agilidade torna tudo mais aprazível. O menino talvez seja, ainda, em seu futuro, o Santiago El Campeon, da queda de braço. Estes três personagens se comunicam no idioma da saudade; um aponta na direção do outro, querendo um ao outro, atraindo-se uns para os outros, de modo que habitam-se mutuamente. Mas possuiria o menino um peixe? Faria ele parte de um duelo? Liga-se ele a alguma coisa maior que si próprio, e que por ele será continuada, ou vencida, não por um golpe único, mas por uma luta extensa contra (ou com)? Há algo dessa natureza para o menino? Receio que sim: o “peixe” do menino é o próprio velho. Um dia os dois estarão ligados vitalmente. O velho, azarado e sozinho, continuará no menino, depois da batalha lenta entre a velhice (o fim) e a meninice (o começo), que simboliza a fricção da vida. Vida que segue plácida. Pois a vida é assim mesmo.