A Saga do Artista

O Artista é um F*dido

O mundo está acabando e cá alguém pretende fazer arte. Um pobretão. Um coitado — sejamos verdadeiros. Já tem tempo que os artistas sérios se encontram dentro de buracos solitários, dos quais devem sair sozinhos, para então confrontar-se com uma miríade de outras trincheiras, com um o outro aventureiro usando pôr a cabeça fora, em ousadia semelhante. Formam assim alianças tímidas e pequenas, num campo desolado onde nada brota exceto o descaso e o desperdício. Passam a caminhar juntos, entretidos com a companhia um do outro, fumando bebendo e xingando deus e o universo como se mais nada houvesse a fazer. Haveria, pois? Para esses? Esses perdidos, dentro dos quais não há vontade que não seja a de recriar o planeta em pequenos rebuliços de barro e cuspe — haveria algo mais para eles que uma companhia inútil, que gritos inaudíveis? E quanto a todos os outros, que ainda dormem em suas tocas pelos mais diversos motivos? Uns lá continuam depois de ter acordado e percebido a dureza da superfície; outros por conta da primeira queda, quando finalmente e depois de muito pensar tentaram escalar cada um sua parede lamacenta; e há outros mais, que ainda dormem, e o fazem continuamente, pela atração inestimável do mundo dos sonhos e mais todo o espelhamento aprazível que ele instaura na existência. Nos casos mais extremos, a queda no buraco acontece depois de já se ter chegado à superfície e constatado não a dificuldade a subida, mas a vastidão da caminhada, a inutilidade desta, e mesmo a mortandade constatada na linha de chegada. O ar é tóxico, o alimento é abstrato e não se vê, o solo é arenoso. E chove. Chove muito. Porque aqueles poucos que ousam caminhar nesta terra arrasada não param com toda essa bobagem e voltam aos seus buracos? Raios — um buraco coletivo; que seja! De qualquer modo não se trata de algo justificável realizar o contrário.

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Unnamed, Suguru Tanaka

O artista segue esse caminho, o da caminhada suicida. E só o faz por uma espécie de cabeça-durismo comum a toda a casta. Riqueza não o explica — pois quando se almeja enriquecer com a arte então se almeja outra coisa que não o objeto-musa, que não o ato criador, a brincadeira de ser deus; trata-se de um ato de traição. Fama também não, muito embora acompanhe com frequência o artista de sucesso. A fama, quando é almejada em princípio, se torna uma espécie de riqueza cujo capital não é monetário mas sim moral; é estranho — a fama é um fenômeno da burrice, em que a massa se esquece do caráter humano de um alguém carismático. A fama é incisiva, ela interrompe qualquer esforço meditativo. Ela trava a capacidade criativa do artista, a partir de quando ele começa a reproduzir e a sentir-se ofuscado pelo maquinismo do mundo imposto a si próprio. Ela não é o fim, mas o começo de um engolimento daquele a quem se destina. O artista que busca ser famoso busca apagar tragicamente.

Mas talvez seja interessante enquadrar com limites justos aquilo a que me refiro quando falo de artista coisa e tal. Meus exemplos são atuais. Partem de minhas imediações. Daquilo que consumo diariamente. Kurt Cobain, Syd Barrett, e mais outros músicos deste tipo que além de músicos eram escritores, poetas, desenhistas — artistas. Estas são figuras típicas do século XX. Tendo aparecido para todo um mundo através de meios de comunicação massificados, foram individualidades hiper-expostas e exploradas pelas indústrias de seus tempos. Syd irrompeu esquizofrênico por uma combinação de lisérgicos e pressão produtiva; Kurt se suicidou por uma combinação de drogadição pesada e difamação decorrente de sua posição de pai drogado, outorgada por revistas sensacionalistas da época. O pano de fundo de cada um é outra questão, de modo que para discutir as razões de suas perdições é necessário analisá-los com cuidados específicos.

No entanto, entre nós e eles, muito embora tenham se passado apenas algumas décadas, existem diferenças bem significativas. Durante o século XX, ainda havia uma certa centralização do poderio propagandístico — o que significa que nem Kurt e nem Syd tiveram necessidade de auto-promover suas produções. O que necessitaram foi de um misto de sorte e determinação que permitiu com que fossem encontrados por representantes de grandes gravadoras. Sorte significa: estar no lugar certo na hora certa (e uma pitada de algo mais misterioso e inominável, também). Neste sentido, eram isolados Syd na medida de sua desordem psicológica; Kurt na medida de sua tragédia familiar — mas nunca no sentido publicitário. O que contrasta com o artista de hoje: se antigamente o problema era o esmagamento pela mão pesada da indústria que lhe investia, hoje o problema parece ser a ausência desta indústria, e a necessidade de uma independência quase perene.

O que abre uma outra problemática: pois artistas dos gêneros e subgêneros do pop sofrem — e muito — com o peso da indústria. O que faz com que seja necessário delimitarmos não só o tempo, mas o espaço onde se encontra cada artista. O que nos faz ter de falar sobre gêneros. Não passaria de uma atitude mimada alguém reclamar de não encaixar-se no “mainstream” do mundo. Claro que quem quer se coloque numa posição alternativa ao gosto industrial (que no Brasil lê-se como Sertanejo Universitário, música Gospel, entre outros, para citar o nicho da classe média) sofrerá com falta de alcance. Mas não desviemos do problema principal: porque este artista que almeja cantar o sertanejo comercial ainda pode esperar pela ajuda desta mão maldita e, a partir do momento em que esta o alce, deixar de pensar na promoção de si próprio. Não que eu esteja pedindo algo assim para os pequenos da borda, até porque se trataria de uma impossibilidade com a qual não se deve perder tempo (e tampouco desejar) — o que faço é tão somente identificar uma diferença de método. O artista independente existe com vida mais longa atualmente, mas apenas se aceitar o peso de realizar todo o trabalho publicitário de sua obra. Daí as valas. Daí os buracos e a necessidade dessas alianças para nada. Porque, enquanto o artista vulgar ganha rios e rios de dinheiro, fama, e falsidades — e se compraz com isso — o artista sério enxerga em seu ofício o absurdo de toda empreitada contra-cultural (e mesmo a pró-cultural). Não parece ser possível sobreviver, tanto para o vulgar quanto para o sério, sem ter de manter na boca o amargo antegosto das consequências de um eventual fracasso.

E tudo piora quando nos lembramos sobretudo das novidades impostas pelo flagelo recém-chegado. O artista independente, além de estar condenado a esta independência e compartilhar com o vulgar, mesmo que pelo avesso, o absurdo da falta de sentido, se encontra mais ilhado do que nunca. Talvez a individualidade seja o meio de que dispomos para construir obras duradouras e assim, quem sabe, chegar a alguém do outro lado da tela. Quando todo contato é mediado por esta eletricidade fria, cabe a nós buscar no íntimo de nossa quentura própria a possibilidade mais verossímil do fogo da humanidade.

A busca da arte é a mimese de Deus

É claro que a pergunta pelo lugar do artista independente contemporâneo passa pela pergunta da validade da arte — e, antes disso, pela pergunta sobre o fundamento da arte. Noutras palavras: onde se encontra o artista? (depois) para que o artista faz o que faz? (e por último) por que se faz arte em geral, para que ela serve? Bem, à primeira pergunta tentou-se dar, na primeira parte deste breve ensaio, uma apreciação. Cabe agora sondar as subsequentes.

Mas não necessariamente na ordem em que aparecem. Não é necessário seguir na reflexão a sequência do aparecimento de seus termos. Tanto faz. Comecemos então pelo final, que é o começo (de tudo). Por que fazer arte? Acho que depende. Num sentido metafísico mais estrito, temos a arte enquanto instância produtiva onde é possível criar sem rodeios — isso pelo menos depois que o homem, já tendo se afirmado como o centro do universo, desintegrou a tirania da razão. Sem nenhum senhor perene, e numa esquizofrenia insípida, a arte passou a não ter de representar mais nenhuma tradição, a não seguir nenhuma regra de método que a validasse. Um mictório entrou para a história ao figurar em exposição pretendendo-se objeto de museu. Claro que se trata da inversão conceitual de um objeto banal — e profano — mas é inegável que esta inversão não ilustre uma mudança no entendimento, uma torção dele. Arte, nesse sentido, é torcer o concreto para ver o que dele pode, e não pode, jorrar. Arte é criar o incriado a partir de um ímpeto íntimo. Arte é a mão que molda conforme o batimento do proprio coração uma matéria específica a que com o tempo se acostuma.

Contudo, isso não diz muita coisa. Serve para inspirar, o que é importante; e também ajuda a situar a liberdade do artista, o que não é menos importante. Mas invariavelmente leva ao silêncio. O que quer dizer que não é passível de interpretação em termos de registro. A ausência da palavra é a impossibilidade do registro objetivo. Se Arte é apenas criar, então a arte não é nada que não dure mais que um instante subjetivo. Pois bem. Procuremos então alguma coisa no extremo oposto desse silêncio. Chegaremos aos domínios da História. História e registro podem ser sinônimos (o que não indica que sejam idênticos). Digamos que um depende do outro: sem registro, não há História; sem História, o registro é um fragmento sem totalidade. E a Arte — ou as criações artísticas específicas — ligam-se a esta relação de modo direto, substituindo um de seus termos. Ou não é a arte também uma forma de registro Histórico? A pintura, o texto, a música (sob forma de gravação ou partitura), o poema, o mito, o roteiro de teatro ou cinema, o filme, o ensaio — não são registros da vida, senão do tempo, de seus autores? “Lithium”, do Nirvana, é o nome do princípio ativo de um remédio utilizado por seu compositor para controlar oscilações de humor que, conjugada a muitos outros fatores, o levou a viciar-se em uma droga cuja recuperação é semi-impossível. Tal vício, por sua vez, mostra uma parte do problema social pelo qual passam algumas regiões dos Estados Unidos, em que o índice de dependência e morte pelo abuso da heroína beira a incontrolabilidade. A arte é um registro do tempo e lugar em que brota.

Então se faz arte porque se trata do terreno onde os espíritos mais estranhos e inquietos poderão cavar barro para moldá-lo indiscriminadamente; e uma vez que se o faça, se estará então registrando tudo o que neste terreno, naquele mundo, acontece. Mas ainda dizemos pouco. Talvez estejamos rodeando o problema sem no entanto tocar-lhe o cerne. Nada disso responde a pergunta do “por quê”. Quem sabe seja necessário retornar ao início. Porque a arte pode ter nascido para dar forma a deuses. E isso muda tudo.

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Estátua da deusa-mãe, encontrada em Çatal Hüyük, com idade estimada de 7 mil anos.

Há muito, quando o bicho passou a ganhar de pouco em pouco quinhões cada vez maiores de consciência até tornar-se homem, começou-se a experimentar com o divino inconhecido (não se trata de um des-conhecimento, como se não pudéssemos, mas sim de um in-conhecimento, como se pudéssemos só de dentro para dentro). Sentíamos a eletricidade. Dançávamos. Encarnávamos. E no entanto não era suficiente. Cunhávamos. Assinalávamos — “estivemos aqui! estiveram aqui!”. Dávamos vazão àquilo que somente através de nossos dedos poderia ser riscado no mundo. Por ora pintávamos nas paredes ilustrações de animais que víamos, por hora pintávamos a nós próprios — mas às vezes punhamos na pedra não somente isso, não apenas o terreno, mas também o invisível, que ainda não se chamava “divino”. Formamos a grande matriarca do mundo numa bola de terra molhada. Mas por que o fizemos? Por que os vitrais de Jesus Cristo crucificado? Por que a mítica Medusa entalhada no pórtico de um templo grego? Por que os grandes túmulos que eram as pirâmides egípcias? Por que a escrita poética do sacerdote (e que verdade trazem)?

Faz-se notar a dificuldade da empreitada. Alargamos ao infinito o que podemos encapsular com a palavra “arte”. Vapirozamo-na. Não significa nada, porque agora pode significar tudo. E não faz sentido que signifique menos. Não porque tenha uma abrangência abstrata deste tipo, generalista, mas sim porque pode nascer de qualquer lugar, inclusive tentando encarnar o nada. A arte nasce de nossas mãos num ato criador; com isso invariavelmente se registra uma e outra história na História; mas arte também é tentativa de, a partir de uma concretude inescapável, pular para fora do tempo. Talvez, só talvez, a arte suma (ou na melhor das hipóteses mude radicalmente) quando finalmente tivermos dominado esta coisa que nos engole ao longo de três quartos de século. A arte é a tentativa de, pela brincadeira das mãos, nos equipararmos aos deuses que não vemos.

Mas temos aqui uma confusão. As perguntas do “para que” e “por que” se confundem nas respostas que demos a esta segunda. Para inaugurar a diferenciação entre ambas vale admitir que, muito embora para um ou para outro a prática artística tenha diferentes finalidades objetivas (o que diz respeito à primeira pergunta), ela serve à evolução de toda a humanidade (o que diz respeito à segunda). Sim, evolução — um termo complicado, polêmico. Mas necessário, pois inutilizá-lo seria afirmar algo fundamentalmente falso — que a humanidade está terminada e não tem melhoria. Não que eu o leia com frequência, mas concordo com o velho e bigodudo alemão quando diz: “o homem é uma ponte”.

Atravessamos?

Que absurdo véi!

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Me interessa muito o estudo da intersecção entre Literatura e Filosofia. Pegar um texto daqui, outro dali, e explorar as relações certas entre seus abismos. Porque não é que tenha ou não relação uma área com a outra – o há indiscutivelmente – mas sim que, em determinados encontros particulares, esta relação pode ser de uma correspondência conceitual tão profícua a ponto de passar a impressão de ter havido uma gestação compartilhada. Existem obras, assim, geradas como gêmeos bivitelinos (ou tri ou quadri). Me parece ser o caso de Kafka e Camus.

O líquido que os une é o absurdo. Aí se encontra o ponto de convergência entre eles, o fundo para onde retornam eternamente. Cabendo a nós investigar as diferenças entre os semelhantes para compreender sua relação, devemos primeiramente nos atentar aos contornos particulares de cada manifestação deste mesmo conceito. Queremos aqui apreciar o contato entre dois mundos. Comecemos com Kafka. A partir de sua obra literária, pode-se perceber o Absurdo como sendo uma certa labirintite. Uma labirintite, digamos assim, “psicojuridicossomática”: pegue como exemplo o momento em que K. se encontra na secretaria do tribunal, naquele bairro periférico tão desconjuntado da pompa clássica do direito, contradizendo seu elitismo incipiente; aquela hora em que, dentro do bafo insuportável da água-furtada que abriga os corredores dos escritórios do tribunal, K. desmaia. Por que ele desmaiou? Concretamente, por causa do calor abafado; simbolicamente, por causa do absurdo labiríntico dos caminhos do direito, da Lei, do mundo dos homens. Este absurdo, materializado no peso do ambiente descrito, conceitualmente significa um descolamento entre o homem e sua vida – o que questiona seu sentido. É através daquele estalo pelo qual percebemos que não há razão em acordar às sete da manhã que não seja arbitrária e, sobretudo, humana, que o absurdo se descortina, dissolvendo qualquer sentido absoluto. K. percebeu, quando se enjoou, que não só não há sentido em acordar às sete da manhã, como há menos sentido ainda em acordar às sete da manhã para se enfurnar no escritório de um tribunal localizado onde judas perdeu as botas, no sótão de um prédio residencial habitado. K. percebeu o absurdo.

Aqui entra Camus. Veja: para este, o absurdo se resume a um “divórcio entre o ator e seu cenário”(1). E este divórcio interessa sobretudo por causa das consequências que pode gerar. Não interessa descrever-lhe o tempo nem o processo de instauração na realidade, mas sim se aperceber de tudo o que ele gera. Um divórcio, uma separação negociada na economia do afeto. É através do afeto, da afecção mesmo, que se percebe o absurdo. Camus identifica o rasgo do véu como sendo qualquer momentinho pequeno de banalidade. Se pode perceber o absurdo ao ver um carro virando a esquina, uma moça espirrando de casaco vermelho, um gato pulando da pia para o chão do banheiro, um café quente e no entanto sem fumaça, o reiniciar da rotina. Por que acordar todos os dias às sete da manhã? Rapidamente, então, notamos que a pergunta se transforma em afirmação, dada a ausência de fundo para delimitar-se com definição: “acordar todos os dias às sete da manhã, acordar todos os dias às sete da manhã…”. Quer dizer, o absurdo não está exatamente nesta repetição sisífica – esta seria a opção esperançosa ao seu desamparo, pelo contrário – mas é aquilo que lhe tira o sentido. O absurdo é a ausência de fundo. Trata-se de um vazio.

Ora, Kafka não chega a dar esta formulação conceitual ao Absurdo. O Absurdo é algo que ele descreve. Em O Processo, seu romance inacabado onde se passa a cena em que K. enjoa, o Absurdo se desenha sobretudo pelo labirinto jurídico onde um processo se aloja; em A Metamorfose, o Absurdo se desenha especificamente pela dinâmica familiar exploratória, a partir de quando Gregor Samsa percebe que perdeu o sentido de sua vida e foi tornado barata, inseto pros outros pisarem; em Na Colônia Penal, o Absurdo se desenha pela violência punitiva da esfera criminal do direito, colorida ainda com uma cor de campo de concentração (pré-nazista). Em suma, é como se Kafka trabalhasse em suas obras exemplos concretos da conceituação elaborada por Camus – não propositalmente, no entanto. Ou pode ser, para evitar o anacronismo, como se Kafka lapidasse numa pedra bruta uma obra que diz “absurdo!”, e nela Camus se encostasse para generalizar ao mundo sua exclamação estética: “absurdismo…”.

É bem sabido da influência Kafkiana sobre Camus. No entanto, para além de reduzir a importância desta relação à investigação de um contato filosófico entre ambos os autores, se faz de suma importância aperceber-se de um espírito, geral, que paira sobre o tempo e que dá guarida às suas ideias todas. E, seguindo o conselho do franco-argelino, quem sabe não seja de maior importância ainda pensar no esticamento dessas ideias para lá da linha do presente, não só para cá. Em resumo: cadê o sem-fundo de nosso tempo? Por que acordar todos os dias às sete da manhã?

Whisky Ballantines

Em Whisky Ballantines, explora-se a memória, a doçura de uma família, e a dureza da realidade. Texto literário com teor filosófico, o conto busca, através da reflexão sobre vivências diárias, expandir o alcance indagador da crônica, alçando-a a uma categoria que não só pinta a vida cotidiana da banalidade da(s) cidade(s), mas que pode também fazer emergir das profundezas de alguém suas mais variadas e coloridas considerações acerca das cidades, dos quartos, das pessoas, do mundo imediato que o cerca. Indicado para quem se interessar por ensaios e demais tipos de produção em que o livre exercitar do pensamento e da imaginação seja o principal desígnio.

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Ansiedade

“O que vou fazer quando chegar em casa?” – eis a pergunta mais difícil. A confusão se apodera de minha cabeça e não consigo nem começar a respondê

loto esta cachaça de luz de sal de praia de mar mas nada muda Minha cabeça. Minha cabeça escura, que nada vê e nada forma. Minha cabeça – dentro de onde não há nenhum vagalumezinho de luz. Não posso, não consigo.

Passa o sorveteiro. Veste vermelho-desbotado-pelo-sol. Por que eu não sou ele? Digo – porque vim neste corpo e com esta consciência? Não poderia ter sido noutro, com outra alma? Para quem é curioso e tenaz o bastante, uma só vida não basta. Imagine só! Tudo aquilo de que você dispõe para deixar uma marca na história é uma vida, e nada mais.

Por exemplo: se você escolher, na sua única experiência vital garantida, que é a atual, ser um cantor de música sertaneja industrial (que não passa de uma maneira bem específica de exploração capitalista das artes musicais típicas das realidades sertanis brasileiras), então você estará desperdiçando o presente do agora e vendendo todo o seu tempo, por um preço bem alto, para os donos dessas filiais da indústria cultural, que sempre significam no mínimo duas coisas: o empobrecimento da arte parasitada, e a continuidade da dormência da cabeça do trabalhador, que depois de labutar por mais de oito horas diárias um trabalho mental e fisicamente maçante, necessita de algumas parcas horas de um entretenimento fácil, a fim de reiniciar no dia seguinte, semi-perecido, o ciclo exploratório sem fim.

Por isso: o que vou fazer quando chegar em casa? O que vou fazer quando chegar em casa? Sei lá, sei lá…

Relato da Sala dos Professores

Me disse um professor da escola onde trabalho, enquanto tomávamos café na sala dos professores: “guarde as minhas palavras: a educação é uma mentira!”. E de fato o fiz. Não tem como ignorar palavras tão enfáticas – ainda mais quando, além de enfáticas, são dúbias. É que não me parece ser possível dizer que uma coisa, assim, empírica, possa ser verdade ou mentira, sem que ao mesmo tempo se revele o que está subentendido acerca do conceito de verdade ou mentira. Ora, a educação é um dado concreto, é algo que se apresenta a nós no dia-a-dia de uma escola. Dizer que a educação é uma mentira é o mesmo que dizer que a caneta que uso para escrever este texto é mentira. O predicado não cabe no sujeito.

Está aí, pois, a primeira falácia. Já que a palavra “mentira” não pode, segundo o discurso em questão, ser compreendida como algo que não se comprova, uma vez que a comprovação da coisa a que se refere se dá, de maneira simples, pela vivência de uma rotina, então ela deve ser compreendida de outro modo, a saber: como algo que impossibilita a obtenção não da verdade, mas de algo subjetivamente valorado como verdadeiro. Em outras palavras: o que é uma educação verdadeira e para quem? O que é uma educação que leva à verdade e para quem? O que é uma educação verdadeira para quem disse que a educação é uma mentira? Para responder a esta pergunta e continuar a reflexão, é preciso antes de tudo investigar a natureza não do objeto, mas do indivíduo em questão.

Nada melhor que trazer uma situação-chave, vivenciada em primeira mão. Foi uma ocasião em que este mesmo professor disse que “a pior coisa que aconteceu na educação brasileira foi Paulo Freire”. Bem, no atual contexto político deste Brasil, em que tudo anda tão aflorado e contrastado, é fácil compreender que seu lugar político é o mesmo das ideologias fascistóides da extrema direita. Segundo esta ideologia, Paulo Freire foi o responsável por transferir a autoridade do professor ao aluno, na medida em que – citando meu colega de trabalho – “o oprimido é o aluno e o professor é o opressor”. Ora, a perspectiva e o posicionamento que ele assume ao realizar esta interpretação mostram que seus valores advogam em favor do autoritarismo como sendo se não o único, um dos melhores modelos relacionais possíveis entre professor e aluno, passando assim a impressão de que ele se sente a todo momento, já que esta autoridade não é mais possível atualmente, como um capitão prestes a ser amotinado. 

É senso comum (com todos os prejuízos implicados no moralismo do senso comum) que a escola pública é lugar de aluno abusivo, e é também comum ouvir dos professores mais antigos que os alunos de outros tempos eram diferentes, mais disciplinados. No entanto, dizer que toda essa “amotinagem” tenha sido causada por Paulo Freire e sua conceituação de oprimido e opressor é, no máximo, como já apontei, professar um ideologismo barato, e no mínimo, uma burrice. Um fenômeno como esse, da indisciplina, não pode, sem sacrificar a assertividade do juízo, ter sua causa identificada a um único fator – ainda mais a este, falacioso. Aliás, se o maior problema da escola fosse a indisciplina, então o melhor cenário pedagógico possível, por dedução, seria o de disciplina máxima. Quando a disciplina não é condicional ao objetivo a ser alcançado, ela passa a favorecer ao militarismo. E o militarismo, revestido de uma moralidade no caso de extrema direita, se transforma em fascismo. A educação militarizada não é interessante para ninguém se não para quem está no topo da hierarquia. Eis a imagem da contradição: um peão da educação desejar o chicote. Eis, também, a imagem de um capitãozinho do mato?

E aqui está a segunda falácia, que não é epistemológica, mas ética. A educação é uma mentira, mas não porque ela não ensina a adotar posturas críticas e autônomas, e sim porque o aluno de hoje em dia dificilmente se deixa dominar para que lhe enfiem goela abaixo o que bem se entende, do modo que bem se entende. Parece que a questão foi desvendada mais rapidamente do que imaginei: a educação verdadeira, para este senhor cansado, é aquela que pretende tornar a todos gado como ele.

O Brasil escreveu um episódio de Black Mirror

A sordidez da realidade às vezes pode ser pior que o macabro da ficção mais refinada. De vez em quando me pergunto, atônito: “como escrever ficção quando a trama real é mais bombástica que a inventividade dos autores mais perspicazes?”. A situação do escritor seria cômica se não apontasse para uma tragédia.

É impossível que você não saiba, a essa altura do campeonato, do vazamento das conversas entre Sérgio Moro e Deltan Dallagnol. O conteúdo revelado não é nada menos que cataclísmico. O mesmo juiz que deveria julgar imparcialmente o réu, Lula, com base nas provas e argumentos tanto da defesa quanto da acusação, colaborou explicitamente para condená-lo. E não é questão de ser petista ou não: está escrita a intenção de impedir a volta do PT ao poder nas eleições presidenciais de 2018. O que, por consequência, faz outra coisa deixar de ser “teoria da conspiração petista”: o argumento de que Lula é um preso político. Esse argumento ganhou validade, e o jogo foi virado do avesso.

O CASO WALLACE

Não posso deixar de traçar um paralelo com uma série documental que assisti na Netflix recentemente, que fala sobre algo que até então eu não havia tido conhecimento. O seriado chama-se Bandidos na TV, e trata sobre o Caso Wallace. Resumidamente, é o caso de um Deputado Estadual amazonense, Wallace Souza, que foi acusado de mandar matar traficantes para filmar-lhes a morte em primeira mão – e sem qualquer censura – a fim de gerar audiência para o programa de TV Canal Livre, que ele apresentava. Mas, não bastasse isso, as investigações da Polícia Federal concluíram que a trama é ainda mais perturbadora: segundo as provas e relatos colhidos, geralmente quem executava os alvos era o próprio filho do deputado, Raphael, e a geração de audiência era apenas uma das finalidades das execuções, já que estas também tinham como escopo eliminar concorrentes no tráfico de drogas – pois Wallace, ao mesmo tempo em que era deputado e apresentador de televisão, seria também um poderoso chefe do tráfico. No final da história, a imensa maioria das testemunhas foi assassinada, Wallace teve o mandato cassado, foi preso, e morreu de problemas de saúde; seu filho, Raphael, também foi preso. Mas mesmo com tudo isso, a opinião popular acerca da culpa de Wallace – que negou tudo – não é unânime, e a possibilidade de descortinar integralmente a verdade foi enterrada juntamente com todas as vítimas geradas pelo processo investigatório.

Me pergunto: como a produção ficcional deve continuar diante de uma realidade que parece ficção? O “Caso Moro”, e principalmente o Caso Wallace, trazem este questionamento. Certamente não é papel da ficção “competir” com os acontecimentos da realidade, como se ela tivesse de superá-los. Isso implicaria numa limitação da obra ficcional e a colocaria num âmbito incoerente e desleal. Não se compete com a realidade. Ficção e realidade não estão em pés de igualdade, não participam da existência da mesma maneira. Não moram na mesma casa – mas se visitam com recorrência. Ficção, quando visita Realidade, volta para casa com inspiração; Realidade, quando visita Ficção, volta para casa com premonição. Diante da realidade grotesca do Caso Wallace, por exemplo, a ficção se sente primeiramente impressionada, depois envergonhada, e depois diligente: se impressiona com o caráter perturbador da trama, se envergonha de querer extrair de tal perturbação uma inspiração, e se torna diligente na pesquisa do assunto e na reflexão acerca da direção a que apontará a obra em que se concretizará. Mas o Caso Wallace já é passado – aconteceu entre 2008 e 2010. A grande questão é como se comporta a ficção quando se dispõe a formar-se à partir de uma realidade que ainda está acontecendo. Que tipo de reflexão poderia nos render acerca da ficção, então, uma apreciação do Caso Moro?

BLACK MIRROR

Para seguir adiante com tal questão, é interessante que a tomemos em conjunto do conceito de um outro seriado da Netflix, o Black Mirror. A série é constituída de um conjunto de episódios não sequenciais em que a tecnologia (e todas as suas promessas de avanço dentro de um futuro próximo) causa, participa ou é meio para situações de desespero, tragédia ou inflexão social. Trata-se de uma ficção que nos dá o vislumbre de um horror futuro que não se concretizou ainda (máxima atenção para este ainda). Em Black Mirror, a distopia é uma questão de tempo. Ou melhor, de progresso.

Pensemos o Caso Moro. Ele ainda não terminou, à época da escritura deste texto, e seu epicentro se dá numa conversa de aplicativo – uma tecnologia atual, mas ao mesmo tempo futura, inauguradora de possibilidades distópicas diversas das do simples telefone. Estamos falando aqui de uma conversa de aplicativo que pode mudar seriamente o rumo de um país que se encontra numa crise profunda, cujo presidente, um agente disfarçado de incompetente, foi eleito com base na disseminação em massa de fake news e na manipulação da opinião pública através das “opiniões” de robôs que realizavam comentários favoráveis à sua campanha – ambos desaguaram no mesmo lugar: a tela do celular. O chat do smartphone não só está sendo palco do cataclisma Moro, como também foi grande parte da razão da eleição de um presidente embusteiro.

Levemos em conta também que esse mesmo presidente tem um filho investigado por lavagem de dinheiro, e este mesmo filho possui ligação com milicianos, a ponto de empregá-los em diversas funções, homenageá-los publicamente, e até favorecê-los politicamente (um parênteses para dizer que Wallace também era envolvido com milicianos). Acrescentemos a tais informações que o principal suspeito do assassinato de Marielle Franco é miliciano e tem residência no mesmo condomínio luxuoso do presidente. Perguntemos: não parece ser possível uma relação entre a família do presidente e o assassinato de Marielle? Tal hipótese não seria corroborada pelo afastamento do investigador que descobriu a identidade do assassino? E quanto à ligação entre Moro e Bolsonaro, na ocasião da “premiação” que este concedeu àquele quando lhe deu o cargo de Ministro da Justiça, já que sem a prisão de Lula as eleições certamente teriam tido outro resultado? Nos espantemos: haveria alguém que pudesse saber mais detalhes do conluio entre o Ministério Público e Sérgio Moro que não tivesse um sobrenome que comece com “B” e termine com “olsonaro”?

Mas quem sabe os maiores produtores brasileiros de ficção hoje não sejam *aham* Olavo de Carvalho e seus servos? Afinal, segundo eles “esquerda” é o nome superficial de uma rede oculta de comunistas cuja agenda pretende implantar o “marxismo cultural”; os professores das universidades trabalham para este grupo com a finalidade de doutrinar com ideias comunistas as cabeças de seus alunos; o aquecimento global é uma mentira porque na verdade o que aconteceu foi que as regiões onde se encontram os termômetros ao redor do mundo ficaram mais quentes, e as medições passaram a apontar temperaturas mais altas; a Pepsi-Cola usa células de fetos abortados como adoçante (essa é clássica demais); o Brasil é a última salvação, no mundo inteiro, contra o terror comunista em acensão. Ficção burra, de péssima qualidade, e que não tem compromisso nem com o futuro, nem com o presente e nem com o passado. Ficção que compete com a realidade não é ficção, é mentira.

É um horror distópico imaginar que o rumo de um país foi ditado em grande parte a partir da tela de um celular. O Brasil escreveu um episódio de Black Mirror.


O Velho Irracionalismo Brasileiro

 

Estranhem o que não for estranho

Tomem por inexplicável o habitual

Sintam-se perplexos ante o quotidiano

Tratem de achar um remédio para o abuso

Mas não esqueçam que o abuso é sempre a regra.

Bertold Brecht

 

Sem exagero, podemos falar em um obscurantismo crescente no Brasil. Parece que os argumentos reflexivos, lógicos e embasados em fatos estão perdendo, cada vez mais, credibilidade e território para os achismos, as opiniões e o senso comum. A impressão é de que hoje o senso comum é soberano e soberbo, o novo ídolo, a grande aspiração. Não mais aquele senso comum signo de incultura ou ignorância legítima, mas um senso comum torpe e autoritário que visa desautorizar qualquer manifestação de pensamento crítico, seja pelo grito ou pelo deboche. Aparentemente, “em todas as trincheiras e em todas as frentes, a razão está na defensiva”, já dizia Sergio Paulo Rouanet. Claro que isso não é nenhuma novidade, não é a primeira e nem a última vez que isso acontece. O que vemos é somente a nova roupagem do velho irracionalismo brasileiro: o obscurantismo.

 

“Obscurantismo”? Sim! Como assim? Ora, “obscurantismo” consiste, precisamente, na prática de impedir, deliberadamente, que os fatos e os detalhes de um determinado assunto tornem-se conhecidos e claros, ele 

 

os torna obscuros. Não se trata, portanto, de mera incultura ou ignorância, mas de um esfumaçamento da realidade, uma oposição sistemática à difusão de instrução e cultura. Se conhecimento é algo que se constrói, o obscurantismo é uma máquina de demolição.

Considerar essa situação nos ajudaria muito a pensar o fenômeno “Fake News” como uma estratégia de campanha não só mentirosa, mas obscurantista. E tal transposição é inevitável, dado que a iminente ascensão desta metamorfose do irracionalismo seja correlativa ao crescimento do protofascismo no Brasil. Não é por coincidência, é por causalidade. Fascismo e irracionalismo estão intimamente intrincados. 1) porque, diferentemente do que alguns pensam, o fascismo não é uma ideologia política sólida e acabada, não se fundamenta em nenhu

 

ma filosofia, é antes uma colcha de retalhos de ideias políticas e filosofias despedaçadas, segundo Umberto Eco: “uma colmeia de contradições”, “um desconjuntamento ordenado”. 2) o irracionalismo, por sua vez, é oportunista e parasitário, permeia o senso comum e captura dele as tendências em voga – que muitas vezes não tem nada de irracionais em si – e as utiliza para seus próprios fins.

Como uma confusão estruturada, o obscurantismo é sustentáculo do atual protofascismo brasileiro. Anti-filosófico e anti-intelectual por excelência, sua expressão mais visível está na difusão e nas consequências das “Fake News” e da “Olavagem cerebral”.

 

J Murillo arte
Arte de J. Murillo: https://www.instagram.com/j.murillo45/

 

Filosofia X Obscurantismo

 

A razão deve tornar transitáveis todos os terrenos, limpando-os dos arbustos da demência e do mito.

Walter Benjamin

 

“Ninguém quer saber de jovem com senso crítico” – disse o candidato fascistoide para uma plateia de militantes em Vitória (ES). Vindo dele isso faz muito sentido. É coerente, honesto e até autoexplicativo, pois o pensamento crítico opera por distinções, principalmente. Distinções desarticulam e denunciam as contradições, como por exemplo: defender, ao mesmo tempo, valores cristãos, tortura e pena de morte. O pensamento crítico esclarece na medida em que põe em crise os raciocínios pautados em sentenças antagônicas, verifica a consistência dos argumentos.

O protofascismo é uma grande colagem de contradições, por isso só prolifera quando o ato de distinguir parece impossível ou errado, quando as divergências são encobertas e as desigualdades naturalizadas, quando a violência é tida como algo banal, quando problemas extremamente complexos parecem ser resolvidos por fórmulas simples, quando pensar parece tolice. Não basta, por exemplo, dizer que o Brasil está sob uma suposta “ameaça comunista”, é necessário obscurecer ao máximo o significado próprio do que é o comunismo. A ideia de “comunismo” não pode ser esclarecida, mas deve se manter fosca e confusa. O mesmo se aplica ao termo “corrupção”, que foi despregado de seu significado próprio e foi tornado uma palavra-ônibus, uma palavra-coringa, que só existe para acusar e deslegitimar o adversário. Definir e delimitar o significado de “comunismo” e de “corrupção”, entre outros termos, parece impossível pelo senso comum obscurecido.

A disseminação do irracionalismo, função do obscurantismo, é justamente essa: manter uma aparente coesão das narrativas protofascistas – por mais contraditórias e absurdas que sejam – por meio da confusão e da desautorização dos discursos contrários, por mais criteriosos, lógicos, razoáveis e baseados em pesquisas científicas que sejam. Daí advém seu anti-intelectualismo.

Tomando como ponto de partida as reflexões de Umberto Eco em Fascismo Eterno, podemos caracterizar esse anti-intelectualismo por duas propriedades fundamentais do fascismo: a “recusa da modernidade” e o “culto da ação pela ação”. Recusar a modernidade é consequência do tradicionalismo fascista. Mesmo o fascismo italiano e o alemão (nazismo) adorando o desenvolvimento tecnológico, seu apreço pela modernidade era simplesmente alegórico e instrumental, “era apenas o aspecto superficial de uma ideologia baseada no ‘sangue’ e na ‘terra’ (Blut und Boden)”, do mesmo modo como, no Brasil, o crescente protofascismo se ergue pela defesa da tradição “Deus, família e propriedade privada” e da ideologia do “conservadorismo nos costumes”, o que, em última instância, se traduz numa tentativa de teoria do conhecimento conservadora que adota uma perspectiva teocrática e geocêntrica. Já o culto da ação pela ação consiste na crença de que a ação é bela e moral em si. Deve, portanto, ser realizada antes de qualquer reflexão. Pensar seria perda de tempo e castração, por isso mesmo que “ninguém quer saber de jovem com senso crítico”. A ação deve ser imediata e irrefletida, rápida e precoce como um tiro. A frase tão em voga, “bandido bom é bandido morto”, ilustra com perfeição o culto da ação pela ação: o assassinato de um criminoso é tido como uma ação moral em si mesma, por isso é tida como algo a ser incentivado e aplaudido. Parte-se da premissa de que o permanente estado de guerra é um estado de paz – por exemplo, defender que o armamento do “cidadão de bem” garantiria a segurança pública – o que implica, de modo colateral, num culto à morte: não é por acaso que o grito de guerra dos fascistas espanhóis (falangistas) fosse “Viva la muerte”.

A lógica deles é simplista, qualquer um que questione a validade moral dessas asserções é “defensor de bandido” e deve ser rechaçado. Daí a suspeita com relação à cultura e ao mundo intelectual, ambos estão relacionados com atitudes críticas, atitudes que põe em crise raciocínios frágeis e preguiçosos. Por isso que os obscurantistas do protofascismo brasileiro insistem em desqualificar as universidades como “grandes centros de doutrinação comunista”, porque a cultura e a instrução são seus maiores adversários. O intuito é blindar as pessoas da reflexão e da criticidade. Se a universidade é um ambiente que as promove, deve ser pintado de inimigo: de “comunista”. Como naquela declaração atribuída a Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda da Alemanha Nazista: “quando ouço falar em cultura, pego logo a pistola”.

De acordo com Theodor Adorno: “como seria impossível para o fascismo ganhar as massas por meio de argumentos racionais, sua propaganda deve necessariamente ser defletida do pensamento discursivo; deve ser orientada psicologicamente, e tem de mobilizar processos irracionais, inconscientes e regressivos”. Ora, o principal fator de obscurecimento é justamente o ódio e, como bem se sabe, ódio é irracional. Para sustentar aquela “colmeia de contradições” é necessário o apelo ao ódio, a mobilização da frustração social e do ressentimento das massas, é preciso tornar um grande grupo de pessoas em uma massa acrítica, unificada e uniformizada pelo ódio.

Uma pessoa meramente inculta ou ignorante não é necessariamente acrítica, muitas vezes o estado de ignorância é o estopim da reflexão. Deparar-se com aquilo que se desconhece pode levar ao espanto e, segundo Aristóteles, é pelo espanto que se começa a filosofia: é preciso surpreender-se, espantar-se com o real para querer questioná-lo. A pessoa obscurecida é tornada acrítica na medida em que fica incapaz de ser tomada pelo estado de espírito do espanto filosófico. Para ela, não há enigmas. O real está dado, posto, pronto e acabado. Não há o que questionar, tudo é óbvio. Querer investigar os fundamentos do real é uma tolice e um capricho. A suspeita, a desconfiança e o mínimo de criticidade que poderíamos esperar das pessoas que se deparam com “Fake News” absurdas como a das “mamadeiras eróticas” se dissolve por completo. Afinal, as “Fake News” mobilizam e exprimem, sob a forma de factoide, um sentimento que unifica e uniformiza as massas.

por Roy Sollon (https://tinyurl.com/y8mzygvr)

 

O PODER DAS FAKE NEWS – apêndice

Pretendo realizar esta pequena análise do fenômeno das fake news a partir de algumas perguntas norteadoras principais: qual o alcance das fake news? Qual seu poder? Produzem as mentalidades profundamente ou controlam as mentalidades independente de sua produção? Não pretendo responder a estas questões pontualmente, mas tão somente utilizá-las como perguntas norteadoras do sentido desta análise, e elencar respostas que nelas esbarrem.

Pois bem. O princípio a que me atenho é que a pulverização da verdade dá margem à validação da mentira. A pulverização da verdade é um fenômeno que acontece pela mutação constante dos canais de divulgação dos fatos de ancoragem da verdade dos discursos. No meio digital de publicação, é muito mais rápido publicar uma notícia, e isso faz com que as tais plataformas – as digitais – sejam movediças. A consequência disso é que a quantidade de notícias aumenta e a busca por uma notícia específica se dificulta. Não é possível, pelo menos facilmente, confirmar se um boato é verdadeiro ou não. O acesso a conteúdo jornalístico fidedigno (os fatos de ancoragem da verdade dos discursos) torna-se mais difícil. E tem gente que se aproveita dessa confusão oriunda desta “tecnologia líquida” para fins políticos fascistas.

Estes são os propagadores das fake news. Eles se deram conta desta dificuldade: aproveitaram-se da confusão gerada pela mutação acelerada das plataformas digitais de notícias e passaram a discursar verdades excluindo a necessidade de seus fatos de ancoragem. A bem da verdade, os fatos de ancoragem já não são muito bem requisitados por uma grande parcela dos leitores, pois já aquiesceram à dificuldade crescente de encontrá-los. O que aconteceu então é que eliminou-se um elemento da equação que já estava legado à secundariedade. Se algo torna-se cada vez mais difícil de encontrar, então logo este algo, na prática, deixará de existir – ainda mais quando existem esforços bem evidentes de indivíduos específicos indo de acordo com esse intuito. Sendo assim, aqui se revela mais um nível de exploração: é possível compreender que os propagadores das fake news não só se aproveitam da pulverização da verdade – mas também fazem uso da tendência dos eleitores a, por causa mesmo de sua pulverização, ignorar os fatos que ancoram as verdades objetiva e historicamente. Há, pois, um ataque constante e inevitável, e um crítico e encomendado.

Talvez nos perguntemos por quem promove a mutação dos canais de divulgação.  Mas logo nos daremos conta de que ninguém, especificamente – trata-se de um fenômeno contemporâneo, decorrente da digitalização da informação e aumento da velocidade de sua publicação. Sendo assim, este não é o problema mais urgente. Nem sequer é um problema. O problema é, aí sim, a retirada do fato de ancoragem da verdade do discurso da equação, e sua descredenciação quanto elemento necessário à credibilidade da informação apresentada. Quando o fato de comprovação da verdade deixa de ser importante no crédito da informação, então o crédito da informação passa a ser determinado pelo poder de polêmica que a informação possui. As notícias têm mais crédito quanto mais capazes são de movimentarem os afetos. Daí as eficácias das fake news: um público necessitado de respostas convenientes para problemas urgentes não checará nenhuma nova informação que a ele chegue, já não procura respostas suficientes. O que o público quer é correspondência de afetos. Se os boatos vendem a ideia de que há um grande líder que os compreende dentro de seu ressentimento, bombardeando-lhes dia a noite com polêmica em detrimento do pensamento crítico, então se tem o fenômeno das fake news como sendo uma ferramenta de consolidação de um determinado poder político.

Estão tirando, tendenciosamente, uma parte importante de uma equação que já se encontra naturalmente frágil. Quais são, então, os efeitos desta exclusão? Resposta: a alienação dos leitores destas notícias, que desemboca em seu controle; a instauração das fake news como meio popularmente legítimo de informar-se. Se a pulverização da verdade é inevitável por causa da tecnologia de nosso tempo, então o problema verdadeiro é a utilização tendenciosa desse caráter pulverizado da verdade para legitimar as notícias veiculadas a despeito de seu pareamento ou não com o mundo objetivo.

Como conclusão, é possível notar que 1) as fake news produzem mentalidades na medida em que os indivíduos que se informam a partir delas e deixam de exercer a capacidade crítica da pesquisa, guiando-se tão somente por polêmicas; 2) as fake news controlam mentalidades à medida em que tornam este não exercimento da crítica um hábito, apelando à dificuldade de acesso aos fatos de ancoragem da verdade do discurso; 3) o poder das fake news é a alienação.

por Iury Cascaes

 


 

[1] No ensaio: “O novo irracionalismo brasileiro”, da obra “As Razões do Iluminismo”.

[2] https://deusgarcia.files.wordpress.com/2018/06/eco-o-fascismo-eterno.pdf

[3] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/07/ninguem-quer-saber-de-jovem-com-senso-critico-diz-bolsonaro-em-vitoria.shtml

[4] https://blogdaboitempo.com.br/2018/10/25/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo/?fbclid=IwAR3ulBs8ZEdQicAr9q6rnhaoViaPh_rofCK0Z_SrK55thttnlBTxOyOtp38