Que absurdo véi!

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Me interessa muito o estudo da intersecção entre Literatura e Filosofia. Pegar um texto daqui, outro dali, e explorar as relações certas entre seus abismos. Porque não é que tenha ou não relação uma área com a outra – o há indiscutivelmente – mas sim que, em determinados encontros particulares, esta relação pode ser de uma correspondência conceitual tão profícua a ponto de passar a impressão de ter havido uma gestação compartilhada. Existem obras, assim, geradas como gêmeos bivitelinos (ou tri ou quadri). Me parece ser o caso de Kafka e Camus.

O líquido que os une é o absurdo. Aí se encontra o ponto de convergência entre eles, o fundo para onde retornam eternamente. Cabendo a nós investigar as diferenças entre os semelhantes para compreender sua relação, devemos primeiramente nos atentar aos contornos particulares de cada manifestação deste mesmo conceito. Queremos aqui apreciar o contato entre dois mundos. Comecemos com Kafka. A partir de sua obra literária, pode-se perceber o Absurdo como sendo uma certa labirintite. Uma labirintite, digamos assim, “psicojuridicossomática”: pegue como exemplo o momento em que K. se encontra na secretaria do tribunal, naquele bairro periférico tão desconjuntado da pompa clássica do direito, contradizendo seu elitismo incipiente; aquela hora em que, dentro do bafo insuportável da água-furtada que abriga os corredores dos escritórios do tribunal, K. desmaia. Por que ele desmaiou? Concretamente, por causa do calor abafado; simbolicamente, por causa do absurdo labiríntico dos caminhos do direito, da Lei, do mundo dos homens. Este absurdo, materializado no peso do ambiente descrito, conceitualmente significa um descolamento entre o homem e sua vida – o que questiona seu sentido. É através daquele estalo pelo qual percebemos que não há razão em acordar às sete da manhã que não seja arbitrária e, sobretudo, humana, que o absurdo se descortina, dissolvendo qualquer sentido absoluto. K. percebeu, quando se enjoou, que não só não há sentido em acordar às sete da manhã, como há menos sentido ainda em acordar às sete da manhã para se enfurnar no escritório de um tribunal localizado onde judas perdeu as botas, no sótão de um prédio residencial habitado. K. percebeu o absurdo.

Aqui entra Camus. Veja: para este, o absurdo se resume a um “divórcio entre o ator e seu cenário”(1). E este divórcio interessa sobretudo por causa das consequências que pode gerar. Não interessa descrever-lhe o tempo nem o processo de instauração na realidade, mas sim se aperceber de tudo o que ele gera. Um divórcio, uma separação negociada na economia do afeto. É através do afeto, da afecção mesmo, que se percebe o absurdo. Camus identifica o rasgo do véu como sendo qualquer momentinho pequeno de banalidade. Se pode perceber o absurdo ao ver um carro virando a esquina, uma moça espirrando de casaco vermelho, um gato pulando da pia para o chão do banheiro, um café quente e no entanto sem fumaça, o reiniciar da rotina. Por que acordar todos os dias às sete da manhã? Rapidamente, então, notamos que a pergunta se transforma em afirmação, dada a ausência de fundo para delimitar-se com definição: “acordar todos os dias às sete da manhã, acordar todos os dias às sete da manhã…”. Quer dizer, o absurdo não está exatamente nesta repetição sisífica – esta seria a opção esperançosa ao seu desamparo, pelo contrário – mas é aquilo que lhe tira o sentido. O absurdo é a ausência de fundo. Trata-se de um vazio.

Ora, Kafka não chega a dar esta formulação conceitual ao Absurdo. O Absurdo é algo que ele descreve. Em O Processo, seu romance inacabado onde se passa a cena em que K. enjoa, o Absurdo se desenha sobretudo pelo labirinto jurídico onde um processo se aloja; em A Metamorfose, o Absurdo se desenha especificamente pela dinâmica familiar exploratória, a partir de quando Gregor Samsa percebe que perdeu o sentido de sua vida e foi tornado barata, inseto pros outros pisarem; em Na Colônia Penal, o Absurdo se desenha pela violência punitiva da esfera criminal do direito, colorida ainda com uma cor de campo de concentração (pré-nazista). Em suma, é como se Kafka trabalhasse em suas obras exemplos concretos da conceituação elaborada por Camus – não propositalmente, no entanto. Ou pode ser, para evitar o anacronismo, como se Kafka lapidasse numa pedra bruta uma obra que diz “absurdo!”, e nela Camus se encostasse para generalizar ao mundo sua exclamação estética: “absurdismo…”.

É bem sabido da influência Kafkiana sobre Camus. No entanto, para além de reduzir a importância desta relação à investigação de um contato filosófico entre ambos os autores, se faz de suma importância aperceber-se de um espírito, geral, que paira sobre o tempo e que dá guarida às suas ideias todas. E, seguindo o conselho do franco-argelino, quem sabe não seja de maior importância ainda pensar no esticamento dessas ideias para lá da linha do presente, não só para cá. Em resumo: cadê o sem-fundo de nosso tempo? Por que acordar todos os dias às sete da manhã?

Whisky Ballantines

Em Whisky Ballantines, explora-se a memória, a doçura de uma família, e a dureza da realidade. Texto literário com teor filosófico, o conto busca, através da reflexão sobre vivências diárias, expandir o alcance indagador da crônica, alçando-a a uma categoria que não só pinta a vida cotidiana da banalidade da(s) cidade(s), mas que pode também fazer emergir das profundezas de alguém suas mais variadas e coloridas considerações acerca das cidades, dos quartos, das pessoas, do mundo imediato que o cerca. Indicado para quem se interessar por ensaios e demais tipos de produção em que o livre exercitar do pensamento e da imaginação seja o principal desígnio.

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