Nada

Os corredores da Diretoria de Ensino de Santos se esgueiravam, finos intestinais, por dentro do monólito de concreto que se erguia no meio do quarteirão. Gente apinhada como no inferno. Corpos escuros formavam uma única grande fila. Procurávamos por nossos dentes. Sem dentes não se morde – e sem mordida não há vida. Queremos abocanhar. Precisamos abocanhar. Vivemos a aspirar do solo as migalhas que não apetecem nem mesmo aos pombos. 

“Você está aqui por nada”, ouço. “Você está aqui por nada. Nada substituirá o êxtase da comunhão. Nenhum gozo é melhor que o gozo do outro, visto direto nos olhos dele. Nada é melhor que a música. Dela se compõem as vozes de todos os bichos da terra quando festejam. Aqui quem fala é a tua Musa, e tu vai morrer descascado pela potência de minha voz insone.”

Estou aqui por nada. Para abocanhar. Para matar o tempo. Para fazer com o tempo o que ele faz por mim: nada. 

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