Prazer de bebê

Mais uma vez de volta à busca daquele prazer básico – o prazer do bebê quando sente seu corpo roçar nalguma coisa outra. Por diversas vezes já falei aos amigos sobre esse roçamento, que em meu caso é o rolar da caneta sobre a superfície porosa do papel. Não sei por que, não sei da onde vem, mas sei que o êxtase às vezes é tamanho que não preciso nem dar sentido à grafia – é como se eu desenhasse com as palavras e seu sentido se tornasse amorfo, pós-simbólico. Com a boca desafinada, durmo acordado de queixo caído.

Pode ser porque o ato de escrever nos possibilite o exercício de uma liberdade reflexiva que não se pode obter de outro modo. No entanto o que sinto está longe de se encontrar no plano da satisfação intelectual. O que sinto se encontra antes de qualquer lampejo de inteligência. Trata-se de uma pujança estética severa, quase a mesma que sente o esportista quando põe o corpo a desafiar seus limites materiais. Não se trata de criar mundos. Não me interessa tanto assim coisa tão gratuita. É sobre ser indiferente a todos os mundos já criados, na tentativa de concentrar toda a inutilidade de suas existências na ponta de uma caneta. A tinta nos redime do mal agouro do amanhã na exata medida em que trocamos nosso sangue por sua cor azul-pretóleo.

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