Berimbau

Avistei na rua um homem que tocava berimbau. Passei por ele e dei boa noite, ao que me respondeu de forma inesperada: “você é a primeira pessoa que passa por mim e me respeita”. Não sei no que consiste esse respeito de que ele falou, mas antes mesmo que eu pudesse averiguar minha dúvida, ou mesmo respondê-lo, ele emendou: “você não tem um trocado aí pra me ajudar com a marmita?”. Fui pego. Quem tem fome tem pressa.

Não esperava por aquilo. O que tinha me atraído era o som abelhudo do instrumento, e não os ares de indigente do homem. Eu não tinha nenhum trocado. Como negar uma moeda sem perder o respeito pela miséria? Como não parecer um homem mau? Abri a carteira em sua frente, e disse: “olhe, me desculpe, mas não tenho trocado”. Seu semblante tornou imediatamente a esculpir a descrença. Tentei recuperar a humanidade do diálogo: “acho muito bonito isso que você faz”. Tinha esquecido o nome disso. E então ele deu o cheque-mate: “é berimbau, capoeira”. Eu sabia. Na mesma semana havia terminado uma pesquisa justamente sobre isso, capoeira.  Resolvi sair. O que ele me disse, do jeito que disse, na situação em que disse, era frase de final de conversa. Fui embora meio sem jeito – e ele continuou lá, a zunir seu solo metálico para as luzes amarelas do poste.

As folhas que caem das árvores

Não sei se é o caso da diferença de hemisfério ter algo a ver com isso, ou mesmo de ter sido por uma espécie de sorte sazonal, mas ontem quando saí de casa para encontrar um amigo meu no Canal 5 vi, estendido por cima do chão, um vasto cobertor de folhagem marrom.

Ao contrário da crendice que nos instaura o simplismo das sandices cinematográficas americanas, as folhas das árvores driblarem o outono para cair só no inverno. Muito estranho para minha cabeça de menino da cidade: a vivência de colônia cultural me fez aprender, vendo com a maior familiaridade na tevê a neve que nunca tivemos, que é no outono, nunca antes nem depois, que as folhas caem das árvores e inundam as calçadas.

Parece que no Brasil as árvores aguentam um pouco mais…

Exercício matinal

Todo os dias pego as sacolas de lixo para levá-las à lixeira. Assim que lhes sinto o peso, antecipo a eficiência de meu exercício matinal: o ideal é que estejam densas como bolas de basquete. Quando é assim, me animo, e passo a carregá-las ansioso escada abaixo. Bom dia Fulano! Bom dia Beltrano! Hoje tá tudo bem! Em minhas mãos tenho um peso justo, cujo rodeio pelo espaço dá um prazer estranho; levo sacolas recheadas de restos – e elas me causam um certo regozijo físico, donde fruo a mecanicidade da vida. Sorrio.

Finalmente chego ao contentor. Em movimento, sem nem pensar em parar, arremesso-lhe as sacolas para fazer uma cesta redonda de dois pontos. Admiro o movimento parabular das sacolonas recheadas indo em direção ao lixo. O barulho surdo de sua queda me enche de satisfação. Sorrio em deleite.

Não sei em que consiste a felicidade, mas encontro-a em pedaços arremessando lixo.

A flor que dorme no copo

A flor que dorme no copo com água gelada: as pétalas já tão murchinhas… Os caules já tão amarelados… Ela dorme, e sonha que é uma flor de lótus.

A água gelada no copo da flor. No centro da mesinha branca de minha cozinha encostada à parede debaixo do armário: dorminhoca. Sonha que é uma orquídea agarrada a alguma árvore alta e viçosa no coração verde da Amazônia. Lá chove, e ela freme com o vento das nuvens.

Florzinha, por quanto tempo dormirá ainda em minha mesa? Te espero adormecer de vez! Quando te levarei para rolar nas marolas do mar de Santos, e tu será finalmente enterrada nas câmaras arenosas do reino dos caranguejos.

Ponta da Praia demolida

Já era noite. O chão esburacara-se. Os pés só não sofriam muito porque eram espertos e achavam seu caminho pelos espaços onde pudessem caber sem desencaixe. Nenhum carro na rua. Um silêncio dominado pelo registro da força da maré. Parece que em momentos como este os caminhos dão lugar a crateras, e todo tipo de linha some num borrão caótico – perdida a retilineidade dos caminhos certos, nos vemos numa situação de apreciadores de obras de museu: passamos a nos mover à esmo, coletando escombros que contam histórias.

Os pedaços da mureta jaziam explodidos ao longo da via. Aquilo podia muito bem ter sido produto de uma bomba, atirada num novo episódio de uma batalha antiga entre os corsários do século XVIII e os eternos canhões do Forte Augusto: pessoas gritando, pombos voando assustados, peixes atordoados boiando na fina película do mar portuário; no céu uma fumaça preta e o sol vivo, deixando mais brilhante a água que inunda o asfalto. Mas não teve bomba nem batalha nem nada disso. O que houve mesmo foi o soco de uma onda.

Atirava pedras naquele mar negro, cujas ondas pareciam um só e escorregadio monstro. Pude vê-las afetando-o quando caíam em suas costas: ínfimo; ínfimo é o braço humano contra o corpo agigantado de Netuno. Ao longe ele se reerguia no intuito de salgar mais e mais a cidade, e eu podia ver em sua crista as faces zangadas de milhares de animais. A esta hora já estava contido o grande bicho, e a Ponta da Praia respirava sossegada. Aliviei-me de um modo abestalhado, e amparado pela distância de segurança que me dava o olho, peguei outra pedra para tacar. Mas logo cedi. Subitamente me dei conta de que, mais uma vez, para nossa sorte havíamos escapado. Congelei. Permaneci com a pedra morta na mão, procurando qualquer coisa de explicável no negrume que queria engolir a todos nós.

Foto por: Andrea Veloso

Frederico e as árvores

Frederico, há quase um mês nesse mundo, tateia sem descanso o vazio que o rodeia. O vi na praia com seu pai: “olha a árvore, filho!”. Seus bracinhos abrindo e fechando, os olhinhos tentando compreender como girar, os ouvidos no esforço de abertura para essa coisa nova e imaterial que é o som seco de uma palavra. 

O pai de Frederico não mostrou a árvore a ele porque funciona, mas porque o ama, e quer que ele ame em resposta – ame as árvores, o mundo, a vida. Certamente se lembrará quando for mais velho, durante um sonho irreconhecível, do mandamento gravado à voz de pedra no fundo de sua memória: “olha a árvore, filho!” – olhando então para cada uma como se fosse a última de novo e de novo, num esforço elétrico, imprevisto, as acariciando com a pestana do olho; as adocicando com a penugem dessas suas duas jabuticabinhas pretas. Piscinas tão profundas que pretas, onde ainda cabe uma vida toda.

O bebê recém-nascido é um corpo pequenino a ser lentamente descoberto pela alma. Frederico, que tu cresça com a bênção das árvores matriarcas, e que elas te balancem nos teus sonhos. 

Só havia um negro na praia

E ele trabalhava. Sol à pino dum domingo quente. Multidões de sunga, maiô, bikini, shorts; em cangas, cadeiras de praia, na marola, tomando banho, se refrescando. Mas não ele – não o único negro da praia. Ele vestia seu uniforme amarelo e procurava lixo para catar. Imagino se não sentiu estar catando a si mesmo, se não sentia varrer-se junto das as embalagens de sorvete e das bitucas – se não sente todos os dias a iminência de ser arrastado sabe-se lá para onde pelo caminhão-vassoura da prefeitura. Me pergunto se ele não se sentiu como lixo.

Me pergunto tanta coisa. Mas deveria mesmo é ter perguntado a ele – o único negro da praia num domingo de sol.