Os Anéis de Júpiter

Iam pela estrada cada um fazendo uma coisa: ela no celular, ele no volante. As coisas não estavam bem. Antes de sair a irritação dos preparativos para a viagem os fez tocar em assuntos delicados, de modo que ao final já bradavam coisas como: “tu sabe que a tua mãe também não presta!”, “o jeito que a tua família mima a Mel é insuportável!”, “tu deveria ter guardado o pente no armário ao invés de deixar em cima da pia!”. A raiva era suprema. Mas não exatamente porque queriam – eles só não sabiam como dar o braço a torcer do jeito certo. A estrada se esticava como um morto: deitada e cinza.

Até que passou um grande pássaro no fundo do horizonte alaranjado, entre a lua tímida das cinco da tarde e o pico azul de um morro distante, e os fez reparar no céu. Viram que do laranja ia gradativamente ao rosa, e lembraram que era outono. Olharam brevemente um para o olho do outro e sorriram com deslumbramento. Sonharam – o tempo parecia derreter-se, a ave parecia os bigodes de Dalí, e a estrada se aprofundava até o negro do universo, seus pedriscos flamejando como estrelas. “Que lindo!”, disseram quase em uníssono, e se embebedaram de um silêncio sideral. Nenhuma palavra em excesso. O deslumbre é feito de espanto.

Não sabiam se continuavam a viagem voando pelo espaço e visitavam os quatro cantos da galáxia, ou se seguiam a pé, a comer cogumelos e viver como os gnomos da floresta. O Cosmos ou a Vida? Se olharam novamente, tentando adivinhar a vontade alheia. Conversavam pelos olhos. À essa altura a linguagem havia se tornado um dispositivo obsoleto: a comunicação acontecia diretamente entre as almas e o jeito com que cada uma gesticulava seu corpo. Até que compreenderam-se. Compreenderam-se como nunca. Já sabiam o que fazer.

O motor do Focus rosnou, e eles sumiram no ar. Naquele dia foram forjados ao redor da terra os anéis de Júpiter.

Ovo cozido

Não entendo muito bem de ovo cozido. Sei fritar. É fácil: você deixa ele ficar todo branquinho, depois vira, para selar a película gelatinosa da superfície, conta até dez, e tira da frigideira. A gema estará cremosa e a clara estará dourada. Mas fazê-lo cozido não é assim. Cozinhar ovo é lidar com uma espécie de força oculta. O ovo cozido não muda de forma por fora, só por dentro. Como vou saber se está pronto? É justamente aí que entra uma virtude que para os fins da cozinha não exercito na intensidade necessária: a da paciência.

Porque para saber do cozimento do ovo sem abri-lo é preciso contar o tempo. Dez minutos, caso a intenção seja que ele fique totalmente cozido. É preciso abstrair o tempo em números, pôr-se em seus intervalos, seguir a ordem que ditam. A simples ideia de acompanhar o ponteiro do relógio por dez minutos seguidos me causa afobação, daquelas que se minha mãe estivesse do lado certamente diria “pára com essa afobação, menino!”. Me dá taquicardia. Também não posso com alarmes: quando tocam, só o que desejo é que parem, e me esqueço totalmente da razão pela qual os pus em curso.

Mas veja bem – não é que eu não saiba fazer um ovo cozido. O ovo cozido é que não sabe me convencer a fazê-lo. Por isso deixo esta tarefa de ansiedade nas mãos de quem tem apreço pelo cozimento. Por enquanto, vou de frigideira!

Ao meu velho videogame

De vez em quando é inevitável que a gente se torça como uma laranja e acabe extraindo de si o líquido doce de nosso passado. Ainda mais quando se está saindo do aconchego da casa da mãe, já construído, para ir tentar formar noutro canto outro aconchego, inóspito. Inicia-se a diligência: os objetos que vinham sendo guardados emergem do fundo do guarda roupa e nos suplicam carinho, e assim examinamos um por um, a decidir quem vai e quem fica – quem vai para a casa nova, e quem fica na caçamba do cata-treco.

Por muito tempo meu videogame foi como que a lareira de meu quarto. Na infância, nos reuníamos frente a ele eu e meu pai, onde jogávamos jogos de corrida com personagens de desenho; na adolescência, eu e meus dois melhores amigos com ele festejávamos, ocasiões nas quais passávamos a madrugada inteira a comer esfihas do Fornello’s e jogar games de espada, de carro, de tiro, de esporte; e mais tarde também, quando voltaríamos a nos encontrar já no começo dos meus vinte, eu e ele já sozinhos, como dois amigos cuja amizade sabem estar se acabando junto da vida de um deles, que sofre de doença terminal. Nessa época já não jogava muito, havia passado o tempo. Mas era com amor que eu o via funcionando velhinho, tentando atender com bondade meu pedido de companhia.

Ao longo dos anos de minha vida, meu videogame foi meu companheiro, amigo de meus amigos, alguém de quem eu cuidava com olhos zelosos. Aos poucos ele deixaria de ser um simples objeto para imaterializar-se em memórias das mais queridas e fecundas.

Ontem deu seu suspiro final. Me pediu para descansar de vez. O mesmo controle que segurei na mão tantas vezes tornou-se uma outra mão, sem função elétrica. A bandeja travada, o leitor impossibilitado de ler, os barulhos sôfregos de suas tentativas de rodar o CD. Em vão. Funcionava apenas em lampejos. Pensei em jogá-lo fora, naquele ímpeto mecânico da praticidade cínica, mas logo percebi que não, ele não. Os resumos da faculdade, tudo bem; a infinidade de bugigangas quebradas, também; uma pedra em particular que até agora eu havia guardado num copo de vidro junto com um guardanapo e umas conchas aleatórias, pro lixo – mas não meu videogame, não este senhor, que tanto esteve comigo. Permaneci por uns minutos a observá-lo, tentando pensar no melhor descanso para sua vida recheada. Até que decidi: meu videogame continuaria a envelhecer junto comigo, repousando no interior do baú de debaixo da minha cama, afofado dentro de meu travesseiro de fronha gasta – e vivo, na alegria de minhas memórias mais tenras.

Alternapalooza XV

Até cogitei escrever alguma coisa para publicar já na segunda-feira. “Preciso manter o ritmo. É questão de timing”, pensei. Mas timing de quê? Eu escrevo crônicas, não reportagens. Resolvi esperar um, dois dias a mais. Desenvolver o conceito. Até que percebi que o timing do cronista é um pouco diferente do timing do jornalista: o do primeiro é ditado por acontecimentos internos, o do segundo é ditado por acontecimentos externos. Para nós, cronistas, é necessária uma cura mais duradoura, já que sem ela algumas coisas talvez jamais pudessem vir à tona. Sem esse tempo de cura, o cronista não pode degustar o que viu, ouviu e cheirou – não pode escrever.

Uma das coisas em que pensei por exemplo foi no puta timbre de baixo que o Lapetina, da O Cubo, conseguiu tirar do ampli. Comentei com um amigo, impressionado pela qualidade. Mas acredito que não tenha sido só eu a notá-lo, a julgar por um fã super animado que gritou em certo momento da plateia que a Cubo é a “melhor banda de Santos!” Calma lá, amiguinho – todos nós sabemos que a melhor banda de Santos é o (rs) Aliados, né?

Outra coisa em que pude pensar durante esses dois dias a mais que me dei para refletir foi no caráter que teve para mim ter dividido palco novamente com a The Scuba Divers. Foi especial. Mas o melhor foi que, para além de minha satisfação pessoal, pude ver a satisfação não do público (porque pelo público não se pode dizer) mas de meus companheiros de palco. Em minha satisfação pude ver a deles, e ali nos agradecemos mutuamente, em sinceridade e abraço grandes. Saí dali com fôlego renovado para a semana – o que não é de pouca importância na vida de um desempregado.

Além disso, pude pensar no significado político do Alternapalooza, explicitado pelo Ricardo da Cubo: “esse aqui é um evento de resistência”, disse no início da apresentação; “fora Bolsonaro, filho da puta!”, bradou ao final. O Alternapalooza é resistência na medida em que se insere numa tendência que reúne todos aqueles que naturalmente se opõem ao fascismo velado de Santos. Opor-se é viver a liberdade de existir de acordo consigo mesmo. Acho que o Alternapalooza é um dos eventos que consegue, por algumas horas, criar este espaço de suspensão do habitual. O que diz muita coisa, ainda mais quando o habitual entristece tanto.

É… Dois dias dão mesmo muito o que pensar!

As Mulheres da Padaria

Nem nas melhores bandas, nem nos grupos de artistas mais precisos eu pude ver um trabalho tão rápido e ordenado: as mulheres da padaria ensacam médias como robôs isentos. Não interessa a dor de cabeça – embrulhe; não quero saber dos pés inchados – pese o pão; quem se importa com a dor de ver o filho maltratado pelo pai? – trabalhe. Trabalhe como uma abelha.

Elas parecem tão antigas… Parecem talhadas no profundo funcionamento daquele lugar, e aquele lugar parece milenar. É como se a substituição de qualquer uma delas fosse o mesmo que trocar uma peça de uma máquina complexa, que as envolve e abraça, e de cuja funcionalidade não há escapatória. Não duvido que já as tenham feito a cabeça para gostar do sentimento fordista da produção em esteira. Estes métodos bem que apelam para aquele gozo do prazer mecânico. Eficiência é como mel.

Para seus buchos, café é óleo e feijão é remendo. A comida perde a humanidade quando os humanos são tornados máquinas – sentir gosto de quê, com o estômago tão ácido? Com tanto ovo frito? Com tanto boi empanado? Sentir gosto da ferrugem… Sentir o gosto do tempo que leva para a oxidação das juntas. Encrustar-se por décadas no interior dos botões da balança que pesa o pasto.

Daqui há um século, algum cronista voltará a escrever sobre as mulheres cravadas na rotina da padaria – essas mulheres de ferro, que dão ao mundo o pão de cada dia.

O Brasil escreveu um episódio de Black Mirror

A sordidez da realidade às vezes pode ser pior que o macabro da ficção mais refinada. De vez em quando me pergunto, atônito: “como escrever ficção quando a trama real é mais bombástica que a inventividade dos autores mais perspicazes?”. A situação do escritor seria cômica se não apontasse para uma tragédia.

É impossível que você não saiba, a essa altura do campeonato, do vazamento das conversas entre Sérgio Moro e Deltan Dallagnol. O conteúdo revelado não é nada menos que cataclísmico. O mesmo juiz que deveria julgar imparcialmente o réu, Lula, com base nas provas e argumentos tanto da defesa quanto da acusação, colaborou explicitamente para condená-lo. E não é questão de ser petista ou não: está escrita a intenção de impedir a volta do PT ao poder nas eleições presidenciais de 2018. O que, por consequência, faz outra coisa deixar de ser “teoria da conspiração petista”: o argumento de que Lula é um preso político. Esse argumento ganhou validade, e o jogo foi virado do avesso.

O CASO WALLACE

Não posso deixar de traçar um paralelo com uma série documental que assisti na Netflix recentemente, que fala sobre algo que até então eu não havia tido conhecimento. O seriado chama-se Bandidos na TV, e trata sobre o Caso Wallace. Resumidamente, é o caso de um Deputado Estadual amazonense, Wallace Souza, que foi acusado de mandar matar traficantes para filmar-lhes a morte em primeira mão – e sem qualquer censura – a fim de gerar audiência para o programa de TV Canal Livre, que ele apresentava. Mas, não bastasse isso, as investigações da Polícia Federal concluíram que a trama é ainda mais perturbadora: segundo as provas e relatos colhidos, geralmente quem executava os alvos era o próprio filho do deputado, Raphael, e a geração de audiência era apenas uma das finalidades das execuções, já que estas também tinham como escopo eliminar concorrentes no tráfico de drogas – pois Wallace, ao mesmo tempo em que era deputado e apresentador de televisão, seria também um poderoso chefe do tráfico. No final da história, a imensa maioria das testemunhas foi assassinada, Wallace teve o mandato cassado, foi preso, e morreu de problemas de saúde; seu filho, Raphael, também foi preso. Mas mesmo com tudo isso, a opinião popular acerca da culpa de Wallace – que negou tudo – não é unânime, e a possibilidade de descortinar integralmente a verdade foi enterrada juntamente com todas as vítimas geradas pelo processo investigatório.

Me pergunto: como a produção ficcional deve continuar diante de uma realidade que parece ficção? O “Caso Moro”, e principalmente o Caso Wallace, trazem este questionamento. Certamente não é papel da ficção “competir” com os acontecimentos da realidade, como se ela tivesse de superá-los. Isso implicaria numa limitação da obra ficcional e a colocaria num âmbito incoerente e desleal. Não se compete com a realidade. Ficção e realidade não estão em pés de igualdade, não participam da existência da mesma maneira. Não moram na mesma casa – mas se visitam com recorrência. Ficção, quando visita Realidade, volta para casa com inspiração; Realidade, quando visita Ficção, volta para casa com premonição. Diante da realidade grotesca do Caso Wallace, por exemplo, a ficção se sente primeiramente impressionada, depois envergonhada, e depois diligente: se impressiona com o caráter perturbador da trama, se envergonha de querer extrair de tal perturbação uma inspiração, e se torna diligente na pesquisa do assunto e na reflexão acerca da direção a que apontará a obra em que se concretizará. Mas o Caso Wallace já é passado – aconteceu entre 2008 e 2010. A grande questão é como se comporta a ficção quando se dispõe a formar-se à partir de uma realidade que ainda está acontecendo. Que tipo de reflexão poderia nos render acerca da ficção, então, uma apreciação do Caso Moro?

BLACK MIRROR

Para seguir adiante com tal questão, é interessante que a tomemos em conjunto do conceito de um outro seriado da Netflix, o Black Mirror. A série é constituída de um conjunto de episódios não sequenciais em que a tecnologia (e todas as suas promessas de avanço dentro de um futuro próximo) causa, participa ou é meio para situações de desespero, tragédia ou inflexão social. Trata-se de uma ficção que nos dá o vislumbre de um horror futuro que não se concretizou ainda (máxima atenção para este ainda). Em Black Mirror, a distopia é uma questão de tempo. Ou melhor, de progresso.

Pensemos o Caso Moro. Ele ainda não terminou, à época da escritura deste texto, e seu epicentro se dá numa conversa de aplicativo – uma tecnologia atual, mas ao mesmo tempo futura, inauguradora de possibilidades distópicas diversas das do simples telefone. Estamos falando aqui de uma conversa de aplicativo que pode mudar seriamente o rumo de um país que se encontra numa crise profunda, cujo presidente, um agente disfarçado de incompetente, foi eleito com base na disseminação em massa de fake news e na manipulação da opinião pública através das “opiniões” de robôs que realizavam comentários favoráveis à sua campanha – ambos desaguaram no mesmo lugar: a tela do celular. O chat do smartphone não só está sendo palco do cataclisma Moro, como também foi grande parte da razão da eleição de um presidente embusteiro.

Levemos em conta também que esse mesmo presidente tem um filho investigado por lavagem de dinheiro, e este mesmo filho possui ligação com milicianos, a ponto de empregá-los em diversas funções, homenageá-los publicamente, e até favorecê-los politicamente (um parênteses para dizer que Wallace também era envolvido com milicianos). Acrescentemos a tais informações que o principal suspeito do assassinato de Marielle Franco é miliciano e tem residência no mesmo condomínio luxuoso do presidente. Perguntemos: não parece ser possível uma relação entre a família do presidente e o assassinato de Marielle? Tal hipótese não seria corroborada pelo afastamento do investigador que descobriu a identidade do assassino? E quanto à ligação entre Moro e Bolsonaro, na ocasião da “premiação” que este concedeu àquele quando lhe deu o cargo de Ministro da Justiça, já que sem a prisão de Lula as eleições certamente teriam tido outro resultado? Nos espantemos: haveria alguém que pudesse saber mais detalhes do conluio entre o Ministério Público e Sérgio Moro que não tivesse um sobrenome que comece com “B” e termine com “olsonaro”?

Mas quem sabe os maiores produtores brasileiros de ficção hoje não sejam *aham* Olavo de Carvalho e seus servos? Afinal, segundo eles “esquerda” é o nome superficial de uma rede oculta de comunistas cuja agenda pretende implantar o “marxismo cultural”; os professores das universidades trabalham para este grupo com a finalidade de doutrinar com ideias comunistas as cabeças de seus alunos; o aquecimento global é uma mentira porque na verdade o que aconteceu foi que as regiões onde se encontram os termômetros ao redor do mundo ficaram mais quentes, e as medições passaram a apontar temperaturas mais altas; a Pepsi-Cola usa células de fetos abortados como adoçante (essa é clássica demais); o Brasil é a última salvação, no mundo inteiro, contra o terror comunista em acensão. Ficção burra, de péssima qualidade, e que não tem compromisso nem com o futuro, nem com o presente e nem com o passado. Ficção que compete com a realidade não é ficção, é mentira.

É um horror distópico imaginar que o rumo de um país foi ditado em grande parte a partir da tela de um celular. O Brasil escreveu um episódio de Black Mirror.


A Scuba Divers toca alto pra cara***!

Ainda bem que não esqueci de levar o tampão de ouvido pro ensaio passado. “Ensaio? Que ensaio?” – é, realmente… “Mas você não tinha saído da banda?” – sim, e continuo saído. Veja, algumas coisas andaram acontecendo nas últimas duas semanas. Acho que não é nada secreto – mas isso não quer dizer que eu não possa agir como se fosse. Faz parte da brincadeira.

Só que o ponto não é esse. O ponto é que a Scuba Divers toca alto pra cara***. Levar o protetor auricular pra ensaiar com eles é uma questão de sobrevivência auditiva. Na época em que eu ainda estava na banda os decibéis já comiam soltos, mas acho que meus ouvidos ficaram mais sensíveis com o passar do tempo e hoje os prezo mais. Penso na surdez da minha velhice. Não que eu não saiba tocar alto pra cara***, e nem que eu saiba: é que com meu protetorzinho eu tudo posso. Tudo posso naquele que me desensurdece!

E também não é que eu goste ou não goste de tocar alto pra cara*** (na verdade é sim, mas isso não importa). Tocar alto pra cara*** às vezes é necessário, independente do nosso gosto. É bom quando o peito vibra ao som do baixo no talo. É bom ser o público e receber uma bomba sônica no meio da fuça.

Mas o melhor amigo do músico continua sendo o tampãozinho. Por isso, o levarei no próximo domingo.

Você vai, né?

É teu aniversário

A ele dedico os outros trezentos e sessenta e quatro dias do ano, em que estivemos juntos no sofrimento e na alegria.

Tua vida, eu celebro com um beijo simples nos lábios – são neles que sinto a vibração dos teus olhos de jabuticaba.

Teu futuro, eu chamo com a música e com as tarefas de casa – a primeira forma nossas almas, e as últimas deixam nossos lençóis prontos para nossos corpos.

Nossa união, celebro com o amor que vejo no fundo do mar do Canal 6, nascido das tartarugas e levado por elas para passear o mundo e ser polinizado.

Minha boca pode não falar muito, mas minhas mãos são incansáveis. Num dia te direi que te amo, e no outro te escreverei: o que seria de mim sem você?

Nada mais que uma coletânea solitária de trezentos e sessenta e cinco dias vividos a esmo.

Te amo, sem segredo.

A Bêbada da Praia

Foi numa noite de praia fria que aconteceu. Estávamos diante do gelo de uma água ancestral, conversando sobre as estações do ano, quando ela chegou com uma garrafa de barrigudinha na mão. “Vivam a vida!”, dizia. Não compreendíamos de que realidade ela havia saído, e tampouco imaginávamos para onde cambalearia depois dali. “A polícia matou meu filho!”, gritava. Ela somava mais um aos farroupilhos da cidade que usavam o álcool para afugentar de si os revéses da lembrança, e assim brincava a embriagante brincadeira de se esquecer.

Mas o demônio bem que se lembrou dela. Chegou vociferando num dialeto diabólico “vá embora! vá embora!”, enquanto apontava para o outro lado com o corpo duro de quem quer mandar em animal surdo.

O que dizer? No final o álcool acabou por frustrá-lo, e a bêbada continuou pela areia da praia, dançando para a lua os vapores etílicos dos restos de suas memórias.

Previsão do Tempo

Não acredito mais no jornal da minha cidade. Ele nunca acerta a previsão do tempo: noutro dia disse que ia esfriar e não esfriou; no outro, falou que ia chover e não choveu; e no outro ainda, jurou que ia fazer sol, mas não fez. É preocupante. Mas acho que sei onde eles andam errando.

Permita-me explicar: não tem como prever o tempo sem visitar a praia. Pois é só na praia que é possível encontrar o céu aberto, e ver os vestígios e prelúdios das chuvas. É só lá que é possível, a fim de antever o humor de Urano, constatar a nuvem pesada que é carregada para longe, o tamanho do manto que nos cobre num dia nublado, a possibilidade de aparição do sol, a intensidade do vento, a temperatura da água, a pulsação do meio. Sem a realização dessa ciência grega, não tem jeito de ter sucesso na arte de palpitar o clima.

Por isso aprendam, jornalistas do jornal da minha cidade, aprendam de uma vez: prever o tempo é pré-ver o céu!