Sobre os Rumos da Mão Invisível

É necessário mirar para além dos discursos

Surge mais uma questão importante no horizonte político brasileiro atual. Uma questão que só podemos entender a partir do seguinte: a suspeita de que bots foram usados para espalhar notícias, algumas em vídeo, contra Bolsonaro – sob mando da cúpula do próprio, para que depois ele mesmo pudesse desmentir, com ações contraditórias, tais notícias, e enfim descredibilizar os veículos que as transmitiram. Qual o ganho? Centralização da credibilidade de informação em suas mãos. É preciso que tomemos cuidado com alardes transitórios, pois acima disso eles estão se movimentando, e nos regendo.

Mas o que quer dizer tal acontecimento? Que não existe nenhuma pretensão de continuidade verossímil entre o discurso e a fala: não importa o que dizem, já que o que dizem não anuncia o que fazem. É impossível qualquer previsão simples do desenrolar futuro dos acontecimentos. Análises reduzidas já não bastam. Frente a uma política que é escancaradamente feita à base de contradições, teremos que repensar nossas ferramentas de análise. Adquirirá importância fundamental agora a Hermenêutica (com origem semântica na palavra que designa o deus grego entre outras coisas do comércio, “Hermes”, responsável pelas ligações entre postos de comércio no âmbito específico, e entre pólis gregas, no sentido geral). Não basta conferir diálogo com ação. Cabe a todos, agora, o trabalho que historicamente coube aos pensadores mais afinados: olhar a cena de cima, e tentar identificar não o fim de um ator específico, mas da peça inteira. É necessário utilizar intuição e razão para, interpretando, juntamente com a imagem simbólica da Mão Invisível, ter alguma noção do que efetivamente virá:

 

É difícil se encontrar nessa fuligem toda da cortina de fumaça que lançam todo dia em nosso olhos.

Firehosing: confundir a opinião pública em prol de objetivos próprios que devem permanecer obscuros…

É preciso destacar-se dessa bolha.

Interpretar originalmente?

Estudar inteligentemente?

Como encontrar a posição adequada, dia após dia, e também a ação correspondente?

Um monte de gente marchando por debaixo da neblina, um monte de céu passando por cima de tudo, e entre o céu e essa gente uma grande mão.

Feita da própria neblina, ela é invisível. Mas controla.

Quem ela usa para exercer-se?

Para onde manda as massas que molda?

Qual o preço que paga para empoderar-se?

“É preciso observar seus movimentos!”, você diz.

Só que ela é invisível. E controla nossos olhos.

Só é possível sentí-la, e daí adivinhá-la, e daí talvez formá-la, em consistência de nuvem.

Adivinhar suas formas, seus contornos; constituir em nossas narizes seu cheiro; acompanhar seu toque em nós como faz a  anêmona;

Enxergá-la.

Originalmente, notar a manipul(ação).

O que não quer dizer ser sozinho, mas sim provocador de novas origens,

E daí ser junto.

Juntar-nos enganados por essa Mão, que aponta para lá com um dedo e ao mesmo tempo para cá com três.

Nos basta a dificuldade de fixar o olhar onde desponta o amanhecer da verdade…

 

Se não há como prever os movimentos desta mão com base em seus discursos, então é preciso conhecê-la sob outra perspectiva. É preciso tomar em conta suas ações para daí derivar seus seus anseios, seus intuitos, seus desígnios, suas nomeações – elementos que partem, ainda, de cima. Não mais seus discursos, que são cortinas de fumaça: descobriremos então que esta mão, já não bastando que seja invisível, é também enganosa. A mesma Mão aparenta estar mais alta e ao mesmo tempo mais baixa, e nos ilude. A mesma Mão, descobrimos, parece trazer diferentes cores, vir de diferentes tempos, e promover diferentes coisas. Mas esta mesma Mão, mesmo parecendo ser tantas, é uma só.

Em termos materiais, é a mesma, embora apareça cada hora em uma altitude, saltitando para cá e para lá instantaneamente à medida de nossa percepção dela; em termos de história, é sempre outra, reconfigurada que aparece de acordo com as relações que a tornam possível. Ao longo da História esta Mão apareceu por diversas vezes, e confundiu, e dominou, e se apoderou; e depois se reconfigurou, para fazer tudo denovo.

Mas assim como pôde enganar por diversas vezes o humano tornado gado, sempre houveram umas exceções que perceberam seu jogo. Estas exceções são compostas por lutadores antes de interpretadores, que a percebem tão somente por sua vontade de anunciar uma catástrofe. Eles compreendem não só sua gravidade – essa é a parte mais fácil -, mas principalmente sua altura, ou seja, os lugares específicos e as vontade bem pensada donde vêm estes ímpetos que imperam por designar e orientar nossas vidas de acordo com seus interesses particulares.

 

morao morinho
Atentemos às alianças entre os homens do poder.

É necessário interpretar

Mas não sejamos obscuros. Tal movimento maníaco foi engendrado por homens. A Mão Invisível é tão somente uma imagem para esta coisa intrincada e nebulosa formada por suas relações de poder. É a partir do movimento destes homens de de poder que teremos uma noção efetiva do tamanho, das dimensões, do poder, e do direcionamento desta Mão.

Para tal é imprescindível que tratemos de particulares e não de universais, sabendo exercer a faculdade da distinção. Um dos princípios da Hermenêutica (que é aquele modo interpretativo tão importante a que me referi no início deste texto) é identificar os particulares com precisão cirúrgica. Apliquemos este princípio: é o início da desmistificação. Depois, cabe observarmos as ações destes particulares já identificados com precisão como se fossem vetores: suas ações vão na direção de que outros particulares? Identifiquemos também estes outros particulares. Primeiro, obteremos uma linha com dois pontos de destinação recíproca; depois, uma rede. O que esta rede significa? Existe em nome de quê? Esta pergunta pode ser respondida com o exame das motivações das ações dos particulares, que podem ser obtidas através da perscrutação atenta de seus movimentos um em direção ao outro. Começamos a entender como se forma e em que consiste a cadeia de interesses destes particulares, que agora passam a formar grupos. Estes grupos, quais são os seus objetivos centrais? Em que consiste sua existência? Ainda – estes grupos, tencionam-se com quais outros grupos? Aliam-se com quais? É preciso pesquisar cada indivíduo destes outros grupos, traçando novos vetores e formando novas redes. Depois deste mapeamento, mas também nos entremeios de sua feitura, deve ser feita uma pergunta muito importante: quais as movimentações políticas destes grupos? Ou seja: o que fazem com as massas? De suas movimentações, derivemos suas intenções: fazendo tal coisa com as massas, que querem eles, e para quem o estão querendo? O controle exercido pela Mão Invisível (que é este conjunto de redes, homens e interesses) é a ação política sempre renovada destes grupos de homens sobre as massas que controlam. Dos homens do alto escalão formam-se as redes cuja manifestação simbólica é a Mão.

É a partir desta análise (e não a partir de uma análise dos discursos) que poderemos compreender a vontade daquilo que nos impõe o jugo. Mas não é o suficiente. Tal análise deve ser preenchida ainda de substancialidade. Não adianta que identifiquemos o esqueleto do acontecimento sem compreender que dentro do esqueleto há tutano. Realizar um estudo ignorando o uso que devemos fazer de nossa faculdade da intuição é o mesmo que pretender a compreensões tão somente formais do objeto de estudo. Mas em que consiste a intuição, pelo menos esta de que falo aqui? Seguramente posso dizer, de início, que nada tem a ver com aquela “intuição feminina”, por exemplo, que conhecemos do famoso ditado popular. Intuição, nos termos aqui discutidos, significa uma capacidade, que todos nós temos, de nos transportar para o interior da coisa estudada, a fim de nos identificarmos com seu movimento essencial e conhecer sua natureza. De que outro modo poderíamos conhecer a destinação da coisa analisada – em nosso caso, da Mão Invisível que nos controla? Temos de perscrutá-la através da análise, para depois disso entrar na segunda parte do processo interpretativo proposto: colocar-se no interior deste objeto, uma vez percebido, através de um esforço imaginativo, sob finalidade de intuir para onde ele vai. Repare: através de um esforço. Intuição depende de esforço.

Com a análise rigorosa, identificamos as partes; com a intuição precisa, desvendamos o sentido. Daí poderemos cumprir nosso desígnio Hermenêutico e, talvez, conhecer melhor o submundo da política, suas vontades ocultas e seus desígnios obscuros. No entanto, o papo não para por aí: pois depois de conhecer, é preciso agir com base no conhecido. Mas isso fica para um post futuro. Por enquanto tentemos entender o que acontece por detrás de toda essa fumaça.

A Mão Invisível

É difícil se encontrar nessa fuligem toda da cortina de fumaça que lançam todo dia em nosso olhos.

Firehosing: confundir a opinião pública em prol de objetivos próprios que devem permanecer obscuros…

É preciso destacar-se dessa bolha.

Interpretar originalmente?

Estudar inteligentemente?

Como encontrar a posição adequada, dia após dia, e também a ação correspondente?

 

Um monte de gente marchando por debaixo da neblina…

Um monte de céu passando por cima de tudo…

E entre o céu e essa gente uma grande mão.

Feita da própria neblina, ela é invisível. Mas controla.

Quem ela usa para exercer-se?

Para onde manda as massas que molda?

Qual o preço que paga para empoderar-se?

“É preciso observar seus movimentos!”, você diz.

Só que ela é invisível. E controla nossos olhos.

 

Só é possível senti-la, e daí adivinhá-la, e daí talvez formá-la, em consistência de nuvem.

Adivinhar suas formas, seus contornos; constituir em nossas narizes seu cheiro; acompanhar seu toque em nós como faz a anêmona;

Enxergá-la.

Originalmente, notar a manipulação.

O que não quer dizer ser sozinho, mas sim provocador de novas origens,

E daí ser junto.

Juntar-nos, enganados por essa Mão, que aponta para lá com um dedo

E ao mesmo tempo para cá com três.

Nos basta a dificuldade de fixar o olhar onde desponta o amanhecer da verdade…