Carta

“Você é um cara muito foda” – seus olhos marejaram. Encolheu-se envergonhado para o centro de seu colo. Não conseguiu me responder como de costume, daquele jeito aquilino. Encarava o tapete verde-sopa-de-ervilha. Sua nuca era um campo vasto. Homem como este num momento assim não é algo que se vê todo dia. É um daqueles momentos raros… Preciosos como jóia, finos como luz. Dizem que o homem prestes a chorar olha pro chão porque procura o jazigo nascente de suas lágrimas.

Recuperou-se naquele sorriso tímido de quem gostou mas por um misto de prudência e modéstia não admite: “Quando a gente fica desse jeito a gente não consegue dizer as coisas que precisa”. Que precisa, Flávio? Que… precisa? Meu amigo por quem hoje luto, se não dissemos naquele dia as coisas mais importantes! As mais precisas de todas! Se naquele dia não pudemos encarar-se fundo com fundo, sem nenhum centímetro a ser economizado! Se com aquele sol empoeirado da janela fechada não aprendi a valorizar a duração das coisas frágeis e que duram sempre tão pouco, com frequência as mais vitais, conservadas a partir dali com firmeza na própria emanação da memória como tesouros num baú pesado! Hoje voltei lá, no mesmíssimo lugar do teu choro tão engolido e evitado. Reavivei o palco daquele instante. Todo ele está desolado, mas aceita – fazer o quê – vai levando, o peso da tua falta… Era tu que cuidava dele afinal.

Ali ouvi ao pé da orelha, no calor de um forte abraço paterno: “você é um grande cara”. Palavras que não cabiam em mim. Palavras que sempre busquei ouvir. Palavras que demorarei muito para de fato poder vestir. Elas ocupam o lugar de que nasceram à procura, e nada as tira de mim como ditas por tua voz gentil. Pela tua força, não se atenuarão, e são um coração à parte a bombear aqui dentro fortemente, lá no centro do meu vigor, ritmado conforme o tempo, lento, que passa sem ti.

Naquele dia senti um amor diferente de qualquer outro. Um amor que geralmente não entra, por comodidade economizado; um amor massacrado, e calado, pelos brutos. Ali beijamos um ao outro com zelo. Senti pela primeira vez barba pontiaguda nas bochechas, barba que a maquininha Phillips, deixada zelosamente no velho suportezinho de alumínio da parede do banheirinho, não raspará mais, nunca mais. Tive certeza de ter recebido a bênção da presença eterna de um pai. Ali beijaram-se as bochechas das almas! Ali as mãos seguraram com cuidado as cabeças; e acalmaram com carinho as têmporas.

Não me descuidarei sem antes imprimir tua essência nos ossos.

Te amo muito.

Teu genro,

Iury.

Cara-crachá

Os últimos dias foram dias de pesquisa política. País em clima tenso, os tendões do pescoço da democracia todos doendo de esticados, palermas para cá, heróis para lá – um zilhão de discursos de dez dúzias de sujeitos engravatados filmados bem de perto. A TV mostra tudo isso. A internet mostra tudo isso. E eu, como não há escape de ficar com o ouvido inchado, me joguei de vez numa partezinha dessa gritaria, pra entender alguma coisa do que se passa na pólis brasileira.

Circundei os intuitos duns candidatos: dentre eles o primeiro tinha a cara inteira enrugada na direção de sua boca, a pele se arrastando em marcha seca para o orifício salgado; mal se via o rosto abrir; o cabelo parecia falso, os dentes se escondiam com vergonha, a roupa uma mortalha. Farejo um morto. Não sabia que Jair andava desse jeito tão acabado. Tão recrudescido. Tão múmia. Fazia já um tempo que não via imagens ao vivo dele – ainda mais assim numa entrevista, em que sondam tão de perto. Vomitava areia atrás de areia uma mais cortante que a outra, solucionava problemas antiquíssimos com a praticidade de um açougueiro. Jair é um maracujá de gaveta marinado no caldo da maldade.

Então algo clicou e compreendi: a cara e trejeitos do sujeito parecem adiantar o que ele quer. Dito e feito! O segundo candidato de que fui atrás era sincero e jovem, falava com a alegria de um menino travesso e com a força de um homem potente. Seu rosto era muito diferente: um nariz liso se encaixava ali no meio da cara sob arcos espertos de sobrancelhas astutas, pele lustra mas já madura da idade. Grandes mãos. A boca lançava sorrisos alegres e a língua afonemava verdades certeiras: lugar de tudo isso um corpo de sessenta anos de idade. Não se encarcerava, não marchava, não se enfiava lábios adentro. O cabelo era só paralamas que nada tinham de peruca. Impossível não notar os movimentos de seus olhos vivos em cada silogismo: demolidores por si próprios, as palavras só faziam confirmar a captura da vitória fujona. Jair vociferava. Ciro comia solto na integridade.

De fato, de fato… Os intuitos se alastram pra dentro da pele e se mostram sem que nem percebamos!