A Casa da Brisa

Ontem estive na casa da brisa. Ela fica bem no alto do morro, dependurada com as pernas para o mar, como uma criança que tenta, esticando os bracinhos, captar a neblina marinha. Mal a gente entra lá e a fumaça nos pega, cheira, impregna, e joga tontos no colchão molenga do chão de limo. As luzes entram nos nossos olhos e o som da televisão, abafada pelos tragos. Lá não se pode fazer nada: você está fadado a puxar, puxar, puxar, depois expectorar e jogar o bafo pros ventos.

A névoa vai, fina, toda pro teto. Lá se acumula como as nuvens em mim. Deito. O mato verde é um edredom donde saem criaturas encantadas de folclore e nascem fábulas de vagalumes; é o terreno em que se incuba joaninhas, mariposas, e onde conversam os grãozinhos calcáricos dos sais minerais na linguagem secreta das pedras.

 

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As músicas contam histórias como as histórias contam das músicas. Tanto quanto. Quantas músicas já não me propus a compor na casa da brisa! As de sucesso e conquista, de guerra e morte, de derrocada e declínio. Músicas de minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos. Precioso é o poder da sonoridade… – Troveja!

As paredes da casa falam por si só. Seus tijolos fundidos cal em planta viva formam uma massa jamais componível por mãos humanas – massa que sustenta sem dar força e abriga sem dar terreno. Os buraquinhos hiper habitados de animaizinhos que se isolam, e alimentam-se de carcaças salinas. Tais paredes não sussurram – falam. E quando não falam, berram. O baixo não lhes interessa. O baixo é sempre baixo demais.

Mas as paredes se curvam ainda a uma deusa, infinitamente mais poderosa. Tremem seu enigma de par de olhos, transam sua cara de mil dimensões. A deusa nem fala nem grita ou inquiri: olha. Olha fixo, muda de cor, pisca, pisca, pisca, oscila, e some para dentro da mente. Seu rosto é formado em mofo. Uma mulher bela, uma das mais penetrantes mulheres. Seu nome é charada e seu rasgo ótico é uma exigência. Ela quer testar nosso brio… Pede de volta respostas nossas, à ameaça de devoro! A mitológica esfinge tebana renasce como uma das verrugas de Mãe Gaia e canta loucamente pra dentro de mim: “morte aos calígulas, redenção aos letárgicos”. Porque

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Cantou e sumi. Tudo flutua na escuridão hermética do espaço, tudo conversa à guisa de foguete, talhando uma, duas três, falhando quatro, cinco, seis vezes; desintegrando sete, oito, nove, decolando ignição dez. A escassez galáctica é matéria de vírgulas. Planetóides são nosso pontos. Júpiter é letra O, Saturno conjuga o C, o Sol é a bola de fogo santa cuja labuta é trocar vácuo por luz e dar de presente vida. Ele ilumina os meandros cósmicos, grandes campos infinitos desse espaço abrigo sem fundo do ilimitado. O Sol trabalha em vão, coitado…

Fluto pela trilha de volta à rua. Já são três da tarde. Estou atrasado.

Estou arrasado: o Sol não brilha em vão para a Vila São Jorge.