A Saga do Artista

O Artista é um F*dido

O mundo está acabando e cá alguém pretende fazer arte. Um pobretão. Um coitado — sejamos verdadeiros. Já tem tempo que os artistas sérios se encontram dentro de buracos solitários, dos quais devem sair sozinhos, para então confrontar-se com uma miríade de outras trincheiras, com um o outro aventureiro usando pôr a cabeça fora, em ousadia semelhante. Formam assim alianças tímidas e pequenas, num campo desolado onde nada brota exceto o descaso e o desperdício. Passam a caminhar juntos, entretidos com a companhia um do outro, fumando bebendo e xingando deus e o universo como se mais nada houvesse a fazer. Haveria, pois? Para esses? Esses perdidos, dentro dos quais não há vontade que não seja a de recriar o planeta em pequenos rebuliços de barro e cuspe — haveria algo mais para eles que uma companhia inútil, que gritos inaudíveis? E quanto a todos os outros, que ainda dormem em suas tocas pelos mais diversos motivos? Uns lá continuam depois de ter acordado e percebido a dureza da superfície; outros por conta da primeira queda, quando finalmente e depois de muito pensar tentaram escalar cada um sua parede lamacenta; e há outros mais, que ainda dormem, e o fazem continuamente, pela atração inestimável do mundo dos sonhos e mais todo o espelhamento aprazível que ele instaura na existência. Nos casos mais extremos, a queda no buraco acontece depois de já se ter chegado à superfície e constatado não a dificuldade a subida, mas a vastidão da caminhada, a inutilidade desta, e mesmo a mortandade constatada na linha de chegada. O ar é tóxico, o alimento é abstrato e não se vê, o solo é arenoso. E chove. Chove muito. Porque aqueles poucos que ousam caminhar nesta terra arrasada não param com toda essa bobagem e voltam aos seus buracos? Raios — um buraco coletivo; que seja! De qualquer modo não se trata de algo justificável realizar o contrário.

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Unnamed, Suguru Tanaka

O artista segue esse caminho, o da caminhada suicida. E só o faz por uma espécie de cabeça-durismo comum a toda a casta. Riqueza não o explica — pois quando se almeja enriquecer com a arte então se almeja outra coisa que não o objeto-musa, que não o ato criador, a brincadeira de ser deus; trata-se de um ato de traição. Fama também não, muito embora acompanhe com frequência o artista de sucesso. A fama, quando é almejada em princípio, se torna uma espécie de riqueza cujo capital não é monetário mas sim moral; é estranho — a fama é um fenômeno da burrice, em que a massa se esquece do caráter humano de um alguém carismático. A fama é incisiva, ela interrompe qualquer esforço meditativo. Ela trava a capacidade criativa do artista, a partir de quando ele começa a reproduzir e a sentir-se ofuscado pelo maquinismo do mundo imposto a si próprio. Ela não é o fim, mas o começo de um engolimento daquele a quem se destina. O artista que busca ser famoso busca apagar tragicamente.

Mas talvez seja interessante enquadrar com limites justos aquilo a que me refiro quando falo de artista coisa e tal. Meus exemplos são atuais. Partem de minhas imediações. Daquilo que consumo diariamente. Kurt Cobain, Syd Barrett, e mais outros músicos deste tipo que além de músicos eram escritores, poetas, desenhistas — artistas. Estas são figuras típicas do século XX. Tendo aparecido para todo um mundo através de meios de comunicação massificados, foram individualidades hiper-expostas e exploradas pelas indústrias de seus tempos. Syd irrompeu esquizofrênico por uma combinação de lisérgicos e pressão produtiva; Kurt se suicidou por uma combinação de drogadição pesada e difamação decorrente de sua posição de pai drogado, outorgada por revistas sensacionalistas da época. O pano de fundo de cada um é outra questão, de modo que para discutir as razões de suas perdições é necessário analisá-los com cuidados específicos.

No entanto, entre nós e eles, muito embora tenham se passado apenas algumas décadas, existem diferenças bem significativas. Durante o século XX, ainda havia uma certa centralização do poderio propagandístico — o que significa que nem Kurt e nem Syd tiveram necessidade de auto-promover suas produções. O que necessitaram foi de um misto de sorte e determinação que permitiu com que fossem encontrados por representantes de grandes gravadoras. Sorte significa: estar no lugar certo na hora certa (e uma pitada de algo mais misterioso e inominável, também). Neste sentido, eram isolados Syd na medida de sua desordem psicológica; Kurt na medida de sua tragédia familiar — mas nunca no sentido publicitário. O que contrasta com o artista de hoje: se antigamente o problema era o esmagamento pela mão pesada da indústria que lhe investia, hoje o problema parece ser a ausência desta indústria, e a necessidade de uma independência quase perene.

O que abre uma outra problemática: pois artistas dos gêneros e subgêneros do pop sofrem — e muito — com o peso da indústria. O que faz com que seja necessário delimitarmos não só o tempo, mas o espaço onde se encontra cada artista. O que nos faz ter de falar sobre gêneros. Não passaria de uma atitude mimada alguém reclamar de não encaixar-se no “mainstream” do mundo. Claro que quem quer se coloque numa posição alternativa ao gosto industrial (que no Brasil lê-se como Sertanejo Universitário, música Gospel, entre outros, para citar o nicho da classe média) sofrerá com falta de alcance. Mas não desviemos do problema principal: porque este artista que almeja cantar o sertanejo comercial ainda pode esperar pela ajuda desta mão maldita e, a partir do momento em que esta o alce, deixar de pensar na promoção de si próprio. Não que eu esteja pedindo algo assim para os pequenos da borda, até porque se trataria de uma impossibilidade com a qual não se deve perder tempo (e tampouco desejar) — o que faço é tão somente identificar uma diferença de método. O artista independente existe com vida mais longa atualmente, mas apenas se aceitar o peso de realizar todo o trabalho publicitário de sua obra. Daí as valas. Daí os buracos e a necessidade dessas alianças para nada. Porque, enquanto o artista vulgar ganha rios e rios de dinheiro, fama, e falsidades — e se compraz com isso — o artista sério enxerga em seu ofício o absurdo de toda empreitada contra-cultural (e mesmo a pró-cultural). Não parece ser possível sobreviver, tanto para o vulgar quanto para o sério, sem ter de manter na boca o amargo antegosto das consequências de um eventual fracasso.

E tudo piora quando nos lembramos sobretudo das novidades impostas pelo flagelo recém-chegado. O artista independente, além de estar condenado a esta independência e compartilhar com o vulgar, mesmo que pelo avesso, o absurdo da falta de sentido, se encontra mais ilhado do que nunca. Talvez a individualidade seja o meio de que dispomos para construir obras duradouras e assim, quem sabe, chegar a alguém do outro lado da tela. Quando todo contato é mediado por esta eletricidade fria, cabe a nós buscar no íntimo de nossa quentura própria a possibilidade mais verossímil do fogo da humanidade.

A busca da arte é a mimese de Deus

É claro que a pergunta pelo lugar do artista independente contemporâneo passa pela pergunta da validade da arte — e, antes disso, pela pergunta sobre o fundamento da arte. Noutras palavras: onde se encontra o artista? (depois) para que o artista faz o que faz? (e por último) por que se faz arte em geral, para que ela serve? Bem, à primeira pergunta tentou-se dar, na primeira parte deste breve ensaio, uma apreciação. Cabe agora sondar as subsequentes.

Mas não necessariamente na ordem em que aparecem. Não é necessário seguir na reflexão a sequência do aparecimento de seus termos. Tanto faz. Comecemos então pelo final, que é o começo (de tudo). Por que fazer arte? Acho que depende. Num sentido metafísico mais estrito, temos a arte enquanto instância produtiva onde é possível criar sem rodeios — isso pelo menos depois que o homem, já tendo se afirmado como o centro do universo, desintegrou a tirania da razão. Sem nenhum senhor perene, e numa esquizofrenia insípida, a arte passou a não ter de representar mais nenhuma tradição, a não seguir nenhuma regra de método que a validasse. Um mictório entrou para a história ao figurar em exposição pretendendo-se objeto de museu. Claro que se trata da inversão conceitual de um objeto banal — e profano — mas é inegável que esta inversão não ilustre uma mudança no entendimento, uma torção dele. Arte, nesse sentido, é torcer o concreto para ver o que dele pode, e não pode, jorrar. Arte é criar o incriado a partir de um ímpeto íntimo. Arte é a mão que molda conforme o batimento do proprio coração uma matéria específica a que com o tempo se acostuma.

Contudo, isso não diz muita coisa. Serve para inspirar, o que é importante; e também ajuda a situar a liberdade do artista, o que não é menos importante. Mas invariavelmente leva ao silêncio. O que quer dizer que não é passível de interpretação em termos de registro. A ausência da palavra é a impossibilidade do registro objetivo. Se Arte é apenas criar, então a arte não é nada que não dure mais que um instante subjetivo. Pois bem. Procuremos então alguma coisa no extremo oposto desse silêncio. Chegaremos aos domínios da História. História e registro podem ser sinônimos (o que não indica que sejam idênticos). Digamos que um depende do outro: sem registro, não há História; sem História, o registro é um fragmento sem totalidade. E a Arte — ou as criações artísticas específicas — ligam-se a esta relação de modo direto, substituindo um de seus termos. Ou não é a arte também uma forma de registro Histórico? A pintura, o texto, a música (sob forma de gravação ou partitura), o poema, o mito, o roteiro de teatro ou cinema, o filme, o ensaio — não são registros da vida, senão do tempo, de seus autores? “Lithium”, do Nirvana, é o nome do princípio ativo de um remédio utilizado por seu compositor para controlar oscilações de humor que, conjugada a muitos outros fatores, o levou a viciar-se em uma droga cuja recuperação é semi-impossível. Tal vício, por sua vez, mostra uma parte do problema social pelo qual passam algumas regiões dos Estados Unidos, em que o índice de dependência e morte pelo abuso da heroína beira a incontrolabilidade. A arte é um registro do tempo e lugar em que brota.

Então se faz arte porque se trata do terreno onde os espíritos mais estranhos e inquietos poderão cavar barro para moldá-lo indiscriminadamente; e uma vez que se o faça, se estará então registrando tudo o que neste terreno, naquele mundo, acontece. Mas ainda dizemos pouco. Talvez estejamos rodeando o problema sem no entanto tocar-lhe o cerne. Nada disso responde a pergunta do “por quê”. Quem sabe seja necessário retornar ao início. Porque a arte pode ter nascido para dar forma a deuses. E isso muda tudo.

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Estátua da deusa-mãe, encontrada em Çatal Hüyük, com idade estimada de 7 mil anos.

Há muito, quando o bicho passou a ganhar de pouco em pouco quinhões cada vez maiores de consciência até tornar-se homem, começou-se a experimentar com o divino inconhecido (não se trata de um des-conhecimento, como se não pudéssemos, mas sim de um in-conhecimento, como se pudéssemos só de dentro para dentro). Sentíamos a eletricidade. Dançávamos. Encarnávamos. E no entanto não era suficiente. Cunhávamos. Assinalávamos — “estivemos aqui! estiveram aqui!”. Dávamos vazão àquilo que somente através de nossos dedos poderia ser riscado no mundo. Por ora pintávamos nas paredes ilustrações de animais que víamos, por hora pintávamos a nós próprios — mas às vezes punhamos na pedra não somente isso, não apenas o terreno, mas também o invisível, que ainda não se chamava “divino”. Formamos a grande matriarca do mundo numa bola de terra molhada. Mas por que o fizemos? Por que os vitrais de Jesus Cristo crucificado? Por que a mítica Medusa entalhada no pórtico de um templo grego? Por que os grandes túmulos que eram as pirâmides egípcias? Por que a escrita poética do sacerdote (e que verdade trazem)?

Faz-se notar a dificuldade da empreitada. Alargamos ao infinito o que podemos encapsular com a palavra “arte”. Vapirozamo-na. Não significa nada, porque agora pode significar tudo. E não faz sentido que signifique menos. Não porque tenha uma abrangência abstrata deste tipo, generalista, mas sim porque pode nascer de qualquer lugar, inclusive tentando encarnar o nada. A arte nasce de nossas mãos num ato criador; com isso invariavelmente se registra uma e outra história na História; mas arte também é tentativa de, a partir de uma concretude inescapável, pular para fora do tempo. Talvez, só talvez, a arte suma (ou na melhor das hipóteses mude radicalmente) quando finalmente tivermos dominado esta coisa que nos engole ao longo de três quartos de século. A arte é a tentativa de, pela brincadeira das mãos, nos equipararmos aos deuses que não vemos.

Mas temos aqui uma confusão. As perguntas do “para que” e “por que” se confundem nas respostas que demos a esta segunda. Para inaugurar a diferenciação entre ambas vale admitir que, muito embora para um ou para outro a prática artística tenha diferentes finalidades objetivas (o que diz respeito à primeira pergunta), ela serve à evolução de toda a humanidade (o que diz respeito à segunda). Sim, evolução — um termo complicado, polêmico. Mas necessário, pois inutilizá-lo seria afirmar algo fundamentalmente falso — que a humanidade está terminada e não tem melhoria. Não que eu o leia com frequência, mas concordo com o velho e bigodudo alemão quando diz: “o homem é uma ponte”.

Atravessamos?

Que absurdo véi!

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Me interessa muito o estudo da intersecção entre Literatura e Filosofia. Pegar um texto daqui, outro dali, e explorar as relações certas entre seus abismos. Porque não é que tenha ou não relação uma área com a outra – o há indiscutivelmente – mas sim que, em determinados encontros particulares, esta relação pode ser de uma correspondência conceitual tão profícua a ponto de passar a impressão de ter havido uma gestação compartilhada. Existem obras, assim, geradas como gêmeos bivitelinos (ou tri ou quadri). Me parece ser o caso de Kafka e Camus.

O líquido que os une é o absurdo. Aí se encontra o ponto de convergência entre eles, o fundo para onde retornam eternamente. Cabendo a nós investigar as diferenças entre os semelhantes para compreender sua relação, devemos primeiramente nos atentar aos contornos particulares de cada manifestação deste mesmo conceito. Queremos aqui apreciar o contato entre dois mundos. Comecemos com Kafka. A partir de sua obra literária, pode-se perceber o Absurdo como sendo uma certa labirintite. Uma labirintite, digamos assim, “psicojuridicossomática”: pegue como exemplo o momento em que K. se encontra na secretaria do tribunal, naquele bairro periférico tão desconjuntado da pompa clássica do direito, contradizendo seu elitismo incipiente; aquela hora em que, dentro do bafo insuportável da água-furtada que abriga os corredores dos escritórios do tribunal, K. desmaia. Por que ele desmaiou? Concretamente, por causa do calor abafado; simbolicamente, por causa do absurdo labiríntico dos caminhos do direito, da Lei, do mundo dos homens. Este absurdo, materializado no peso do ambiente descrito, conceitualmente significa um descolamento entre o homem e sua vida – o que questiona seu sentido. É através daquele estalo pelo qual percebemos que não há razão em acordar às sete da manhã que não seja arbitrária e, sobretudo, humana, que o absurdo se descortina, dissolvendo qualquer sentido absoluto. K. percebeu, quando se enjoou, que não só não há sentido em acordar às sete da manhã, como há menos sentido ainda em acordar às sete da manhã para se enfurnar no escritório de um tribunal localizado onde judas perdeu as botas, no sótão de um prédio residencial habitado. K. percebeu o absurdo.

Aqui entra Camus. Veja: para este, o absurdo se resume a um “divórcio entre o ator e seu cenário”(1). E este divórcio interessa sobretudo por causa das consequências que pode gerar. Não interessa descrever-lhe o tempo nem o processo de instauração na realidade, mas sim se aperceber de tudo o que ele gera. Um divórcio, uma separação negociada na economia do afeto. É através do afeto, da afecção mesmo, que se percebe o absurdo. Camus identifica o rasgo do véu como sendo qualquer momentinho pequeno de banalidade. Se pode perceber o absurdo ao ver um carro virando a esquina, uma moça espirrando de casaco vermelho, um gato pulando da pia para o chão do banheiro, um café quente e no entanto sem fumaça, o reiniciar da rotina. Por que acordar todos os dias às sete da manhã? Rapidamente, então, notamos que a pergunta se transforma em afirmação, dada a ausência de fundo para delimitar-se com definição: “acordar todos os dias às sete da manhã, acordar todos os dias às sete da manhã…”. Quer dizer, o absurdo não está exatamente nesta repetição sisífica – esta seria a opção esperançosa ao seu desamparo, pelo contrário – mas é aquilo que lhe tira o sentido. O absurdo é a ausência de fundo. Trata-se de um vazio.

Ora, Kafka não chega a dar esta formulação conceitual ao Absurdo. O Absurdo é algo que ele descreve. Em O Processo, seu romance inacabado onde se passa a cena em que K. enjoa, o Absurdo se desenha sobretudo pelo labirinto jurídico onde um processo se aloja; em A Metamorfose, o Absurdo se desenha especificamente pela dinâmica familiar exploratória, a partir de quando Gregor Samsa percebe que perdeu o sentido de sua vida e foi tornado barata, inseto pros outros pisarem; em Na Colônia Penal, o Absurdo se desenha pela violência punitiva da esfera criminal do direito, colorida ainda com uma cor de campo de concentração (pré-nazista). Em suma, é como se Kafka trabalhasse em suas obras exemplos concretos da conceituação elaborada por Camus – não propositalmente, no entanto. Ou pode ser, para evitar o anacronismo, como se Kafka lapidasse numa pedra bruta uma obra que diz “absurdo!”, e nela Camus se encostasse para generalizar ao mundo sua exclamação estética: “absurdismo…”.

É bem sabido da influência Kafkiana sobre Camus. No entanto, para além de reduzir a importância desta relação à investigação de um contato filosófico entre ambos os autores, se faz de suma importância aperceber-se de um espírito, geral, que paira sobre o tempo e que dá guarida às suas ideias todas. E, seguindo o conselho do franco-argelino, quem sabe não seja de maior importância ainda pensar no esticamento dessas ideias para lá da linha do presente, não só para cá. Em resumo: cadê o sem-fundo de nosso tempo? Por que acordar todos os dias às sete da manhã?

Whisky Ballantines

Em Whisky Ballantines, explora-se a memória, a doçura de uma família, e a dureza da realidade. Texto literário com teor filosófico, o conto busca, através da reflexão sobre vivências diárias, expandir o alcance indagador da crônica, alçando-a a uma categoria que não só pinta a vida cotidiana da banalidade da(s) cidade(s), mas que pode também fazer emergir das profundezas de alguém suas mais variadas e coloridas considerações acerca das cidades, dos quartos, das pessoas, do mundo imediato que o cerca. Indicado para quem se interessar por ensaios e demais tipos de produção em que o livre exercitar do pensamento e da imaginação seja o principal desígnio.

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Nada

Os corredores da Diretoria de Ensino de Santos se esgueiravam, finos intestinais, por dentro do monólito de concreto que se erguia no meio do quarteirão. Gente apinhada como no inferno. Corpos escuros formavam uma única grande fila. Procurávamos por nossos dentes. Sem dentes não se morde – e sem mordida não há vida. Queremos abocanhar. Precisamos abocanhar. Vivemos a aspirar do solo as migalhas que não apetecem nem mesmo aos pombos. 

“Você está aqui por nada”, ouço. “Você está aqui por nada. Nada substituirá o êxtase da comunhão. Nenhum gozo é melhor que o gozo do outro, visto direto nos olhos dele. Nada é melhor que a música. Dela se compõem as vozes de todos os bichos da terra quando festejam. Aqui quem fala é a tua Musa, e tu vai morrer descascado pela potência de minha voz insone.”

Estou aqui por nada. Para abocanhar. Para matar o tempo. Para fazer com o tempo o que ele faz por mim: nada. 

Suor, sujeira e surto

Ah! Empolgação que me faz lançar o pneu do carro contra a quina do meio fio, estourando-o. Ah, pneu espatifado! – me faz suar, sujar e surtar. Suor, sujeira e surto: mistura primitiva pré-humana, dona da espécie. Quantos em teu seio já não aportaram, loucos? E quantos chegaram a devolver-se de volta ao mar plácido da sanidade, para lá de ti? Em ti cheguei buscando o barulho – aquele, que talvez substitua (só talvez!) esse outro, eterno, dentro de minha cabeça a conjurar ruídos.

Só assim poderei me perguntar com segurança: o que significa hoje?

A sombra da resposta já me amolece os olhos e torna mais macio, mais afeito ao colchão. Mais tenro. É impreciso, mas imperativo dizer: meus olhos colorem cobertores.

“O que significa hoje? O que significa hoje? ” – me pergunto.

Logo defino: hoje é o acúmulo de todo significado possível, escrito na língua secreta do tempo.

Giro

Praia Grande: uma cidade-entulho, cujas sarjetas abrigam um lodo fétido e lembram, num átimo, que o que sobra de bairro e seus habitantes é sempre, e invariavelmente, lixo. Feliz ano novo. Boa limpeza.

Em Santos, diz uma margarida ao lado do ponto de táxi: “tu viu a foto que saiu no jornal do homem dizendo que foram retiradas trinta toneladas de lixo da orla da praia? A única coisa que não dizem é que fomos nós que catamos”. Não há verdade mais pesada. 

São Vicente: “é uma cidade de população abandonada”, me disse o motorista do Uber que peguei só para conversar. “É, eu sou de lá” – respondi, encurralado.

Prazer de bebê

Mais uma vez de volta à busca daquele prazer básico – o prazer do bebê quando sente seu corpo roçar nalguma coisa outra. Por diversas vezes já falei aos amigos sobre esse roçamento, que em meu caso é o rolar da caneta sobre a superfície porosa do papel. Não sei por que, não sei da onde vem, mas sei que o êxtase às vezes é tamanho que não preciso nem dar sentido à grafia – é como se eu desenhasse com as palavras e seu sentido se tornasse amorfo, pós-simbólico. Com a boca desafinada, durmo acordado de queixo caído.

Pode ser porque o ato de escrever nos possibilite o exercício de uma liberdade reflexiva que não se pode obter de outro modo. No entanto o que sinto está longe de se encontrar no plano da satisfação intelectual. O que sinto se encontra antes de qualquer lampejo de inteligência. Trata-se de uma pujança estética severa, quase a mesma que sente o esportista quando põe o corpo a desafiar seus limites materiais. Não se trata de criar mundos. Não me interessa tanto assim coisa tão gratuita. É sobre ser indiferente a todos os mundos já criados, na tentativa de concentrar toda a inutilidade de suas existências na ponta de uma caneta. A tinta nos redime do mal agouro do amanhã na exata medida em que trocamos nosso sangue por sua cor azul-pretóleo.

Fina película

Vocês! Sim – vocês que não sabem cuspir! Mexem no mundo com seus dedos, perpetrando o deslize torpe de vidas que, deslizando, se pulverizam. Tenho pena de vocês – tanto quanto uma galinha que grita, e morre, depenada, nas mãos da máquina fria que a embala. Minha pena é um berro! Uma noite! Uma ferida…

Me vejo mudo no preto dos teus olhos. Um preto mais fundo e mais preto que o mais profundo poço – e mais moço, e mais novo. Que se quebre o espelho de tua pupila e se afunde mais o fundo da tua vida; e que caia uma chuva de navalhas para que se lapidem à corte teus dedos finos e rachem, uma por uma, todas as camadas da película, fina, que nos separa as vidas.

Celular

Todos com o celular nas mãos: o bebê, o homem tatuado, e a mulher de vestido preto, que beija à batom vermelho a xícara de café.

Ele nos acompanha. É companheiro das melhores companhias: seja você recém-chegado a este mundo, seja você um jovem straight edge, ou uma mulher de caudas negras.

Mulher: sua boca está suculenta de ondas de rádio.